Aquestão do Douro é uma questão crucial para o país e, por maioria de razão, para todo o Norte. O Douro é, além do mais, uma questão com dimensão internacional, já que o "espaço" a que chamamos Douro tem a ver com o rio que fundamentalmente o define e este tem a maior parte da sua área de influência em território espanhol. É, portanto, uma questão de grande complexidade, que parece estar completamente identificada, mas o que vemos surgir "no terreno", em termos de propostas de solução para os diferentes problemas que o Douro levanta, não têm passado, até hoje, de ideias avulsas, desgarradas, escassa ou nulamente fundamentadas e, sobretudo, sem referência a qualquer ideia ou estratégia de conjunto. A água, o vinho, a paisagem (física e humana), o território, a cultura (ou as culturas), as cidades e tudo o mais que por qualquer razão se associa ao Douro são realidades que não são apenas de agora, mas que teimam em aparecer como se o fossem. Vozes de todo o tipo e de todos os quadrantes não se cansam de gritar que está tudo sabido, que os estudos estão todos feitos e que o que há agora para fazer é… fazer!
De facto, só do lado português do Douro, há três áreas declaradas "património cultural da Humanidade" o conjunto Porto/Gaia, o Douro Vinhateiro e o Parque Arqueológico do Côa. Sucede, porém, que a conquista destes galardões, obtidos com o hercúleo esforço de alguns (muito poucos em alguns casos, diga-se de passagem) e que foi acompanhada, em cada momento em que isso aconteceu, por expressivas manifestações de grande regozijo e de grande esperança num futuro melhor para toda a região, parece não ter tido as consequências que eram de esperar nem ter gerado as oportunidades que era obrigatório que tivessem "surgido" (quase) só por esse simples facto. E isto para não dizer que à euforia dos títulos ganhos (parece que sem grande envolvimento dos que mais directamente poderiam ser seus mais directos beneficiários) se seguiu, quase que de imediato, a frustração e o desencanto pelo não aproveitamento ou, mesmo, pelo desperdício e pelo esbanjamento das mais-valias assim tornadas possíveis as mais das vezes por ausência de iniciativa e incapacidade empreendedora.
A verdade é que, depois de mundos e fundos prometidos, pouco se vê, em termos de ideias para o Douro. O turismo parece continuar a ser a panaceia e a imaginação parece ficar-se por aí. E mesmo neste caso a capacidade para atrair e fixar parece não ser muita. O turismo ainda é entendido como uma corrente que vai e não volta e, por isso, todo o esforço está sempre a recomeçar em vez de, também, se consolidar. E deste turismo pouco mais se tem visto do que alguns barcos de turistas que vão, vêm e se calhar não voltam mais, porque o que foi visto uma vez não é para ver mais vezes.
De resto, nada ou quase nada de novo e, por vezes, era bem melhor que não houvesse mesmo nada. Sobretudo quando se fala só por falar, como parece ser o caso. Foi a reflexão que me suscitou a notícia do JN de há oito dias, inserida na sua página 31, que dava conta da intenção de "dezassete deputados" do PS de quatro distritos do interior (Vila Real, Bragança, Viseu e Guarda) proporem o que designam por "medidas contra a desertificação que fez perder 120 mil pessoas em 25 anos". Então, pensaram estes distintos representantes do povo que, para isso, não havia melhor do que tirar pessoas e actividade de onde elas estão há muitos anos (para não dizer séculos) e desviá-las para onde nunca estiveram e se duvida que possam ou devam estar. O raciocínio é simples (para não dizer básico) o Douro produz vinho na Região Demarcada para isso e, portanto, tudo o que com essa produção se relaciona deve também lá estar! Daqui até proporem que se retirem de Gaia as empresas que comercializam 89% do Vinho do Porto e se levem para a Régua ou lugar equivalente foi apenas o passo de um anão! O problema não começa nem acaba aqui, mas seria interessante que os senhores deputados explicassem melhor o que os leva a propor que um buraco se tape com a manta que, logo de seguida, destapa outro. Claro que este é o problema de quem só tem "mantas curtas", mas se às "mantas curtas" juntarmos também as "vistas curtas", então é que não vamos mesmo a lado nenhum. Nem nós nem o Douro!