Engavetado durante, pelo menos, mais um ano - o orçamento da Câmara Municipal do Porto para 2007 não prevê qualquer dotação para a obra -, o projecto de reabilitação da Rua de Miguel Bombarda, no Porto, teima em não sair do papel, mas já deixou de figurar entre as prioridades da dezena e meia de galeristas. Os seis anos de espera vã instalaram a descrença quanto à concretização de um plano, da autoria do arquitecto Filipe Oliveira Dias, que pretende dotar a conhecida rua das artes de uma zona pedonal e de mobiliário urbano, orçado em 706 mil euros.
"Já perdi a conta aos anos de que se fala desse projecto... O plano só vai ser colocado em prática quando a população do Porto mostrar interesse na sua concretização", defende Ana Hobler, da Galeria ArtHobler, para quem o encerramento ao trânsito nem é a questão fundamental "Importante é pôr fim ao aspecto abandonado da rua, tornando-o mais acolhedor".
Sem novas da Câmara do Porto "há vários anos", é através dos jornais que os galeristas têm sido informados sobre os avanços e os recuos - mais estes do que os primeiros - do ambicioso plano de requalificação. Gustavo Carneiro, da Quadrado Azul, crê que nem seria preciso um investimento avultado da autarquia para dar um novo fôlego à rua que tem como patrono o médico psiquiatra e republicano falecido em Lisboa há 97 anos. "Se nos apoiassem na divulgação, já seria uma grande ajuda", diz.
Hoje, dia das inaugurações, a previsível multidão que deverá acorrer à 'Miguel Bombarda' e arruamentos circundantes não será suficiente para ocultar os graves problemas estruturais da zona, com destaque para o estacionamento caótico, a má iluminação e até a falta de limpeza. Artur Miranda, da Sala Maior, confessa mesmo que "muitos dos turistas que cá vêm, atraídos pelos artigos em revistas prestigiadas, não escondem um sentimento de desilusão ao verem que a famosa rua das galerias se resume a isto". Para o mesmo responsável, "a Câmara não só nunca soube tirar partido de uma realidade que aconteceu de forma alheia à sua acção, como insiste em não perceber a elevada rentabilidade a todos os níveis que poderia retirar se olhasse de outra maneira para este fenómeno".
Mas o sentimento de desalento patente em vários galeristas não exclui o dinamismo. Hoje mesmo, um novo espaço - intitulado Galeria de Arte da Miguel Bombarda - abre as suas portas. E logo com uma mostra de impacto inegável uma reunião de esculturas, aguarelas e desenhos de Álvaro Siza representativos das diversas fases da carreira do mais renomado arquitecto português.