São médicos e estão dos dois lados. Uns enfatizam que se trata de um problema de saúde pública e de direito das mulheres à escolha. Outros salientam que a vida humana não deve ser interrompida e compete-lhes defendê-la. O que significa objectar consciência e não realizar interrupções voluntárias da gravidez, caso a lei seja alterada.
Os "Médicos pela Escolha" são um movimento formal, que agrega profissionais da saúde em torno da causa da despenalização da interrupção voluntária da gravidez. "Somos médicos, por isso não" é um grupo cívico constituído exclusivamente por médicos e estudantes de Medicina que faz campanha pelo "são".
A forte presença de médicos nas acções de sensibilização dos movimentos está marcar a campanha deste referendo. Todos esgrimem argumentos que dizem ser científicos, mas, à mistura, há motivos de ordem social, razões de carácter social, fundamentações jurídicas e até imperativos éticos e morais. Quem defende o "sim" bate-se pelo direito da mulher decidir e de realizar o aborto em condições de segurança. Para acabar com o "grave problema de saúde pública que é o aborto clandestino" e o "vexame" de ver uma mulher sentar-se no banco dos réus a responder pelo crime de ter interrompido a gravidez, como sublinha o médico legista Pinto da Costa, mandatário do movimento "Médicos pela Escolha".
Já os adeptos do "Não" insistem na inviolabilidade da vida intra-uterina. Tanto que, se o "sim" ganhar e a lei mudar, os médicos que estão contra a despenalização do aborto, a pedido da mulher, deverão recorrer a uma prerrogativa que a lei lhes faculta a objecção de consciência. Dizem que o seu compromisso deontológico de defesa da vida não lhes permite interromper a gravidez.
Essa é a intenção dos cerca de 500 médicos que já subscreveram o manifesto do "Somos médicos, por isso não", garantiu ao JN Roberto Roncon, interno de Medicina Interna e membro da comissão executiva daquele grupo de médicos. Como não se trata de um movimento formalmente constituído para a campanha do referendo, a recolha de assinaturas continua e os seus promotores esperam que o número de atinja o patamar do milhar até dia 11.