Quem, na passada terça-feira, dia 30 de Janeiro, abriu a página 47 do jornal "Público Local - Porto Norte" ou a página 23 do "JN - Porto" e não morreu de susto, é porque já nada lhe poderá causar dano! Os títulos das "notícias" eram simples "Centro Cultural de Gaia fica pronto até Agosto de 2009", no Público e "Hotel, lojas e 13 cinemas no centro cultural em 2009", no JN. Em ambos os casos, imagens virtuais do futuro "centro cultural", testavam a resistência dos leitores; a do JN era a cores e a imagem do futuro era acompanhado pela evocação do ainda presente e, felizmente, existente edifício da Real Companhia Velha.
Resumo do acontecido e motivação das ditas "notícias" a Câmara de Gaia comprou, em 1999, o dito edifício junto ao cais de Gaia e decidiu dedicar a compra e a coisa à cultura. Para o efeito, teve a (peregrina) ideia de abrir um concurso público internacional para a "concepção, construção e exploração" dum centro cultural no referido edifício. E se bem o pensou, não foi assim tão bem que o fez, já que recebeu apenas uma única proposta que propunha a demolição do tal edifício e o simples aproveitamento do terreno, assim tornado campo devoluto.
O caderno de encargos do concurso, assim como o respectivo programa, não são do conhecimento geral mas presume-se que o vencedor antecipado - condição pouco saudável que caracteriza as situações de concorrente único - cumpria com agrado e, pelo menos, os principais itens impostos pelo dono da obra, entre os quais teria de estar, ao menos como estranha possibilidade, a destruição do velho armazém! Sim, que manter um pedaço de fachada e uma insólita chaminé, convenhamos que não é outra coisa se não destruição e será tudo menos ter percebido a cidade, a sua fisionomia, a sua paisagem e a sua história, ou seja, o espírito do lugar!
Então, que conceito de cultura se exprime nesta única proposta e, por isso, naturalmente vencedora? "Um hotel, 13 salas de cinema, auditórios, estabelecimentos comerciais e espaços para o ensino ligados às artes" de acordo com o JN ou, "um espaço multiusos destinado a eventos culturais, auditórios para salas de cinema, espaços comerciais e de ensino ligados à cultura (galerias e escolas de arte, livrarias, discotecas, etc.), bares e cafetarias, um parque de estacionamento subterrâneo e, em princípio, um hotel", segundo o Público.
E tudo isto sobre oito mil metros quadrados de terreno e vinte e cinco milhões de euros, depois de literalmente assassinado o sereníssimo edifício da Real Companhia Velha do qual não vai restar mais do que um resto de fachada e a antiga chaminé! A propósito porque será que as chaminés são assim tão queridas?