No passado dia 2, dei conta do "susto" que apanhei com as notícias da assinatura do "contrato de constituição do direito de superfície do espaço das antigas instalações da Real Companhia Velha" entre a Câmara Municipal de Gaia (CMG) e a Novopca, para a "concepção, construção e exploração" por cinquenta anos (?) do futuro Centro Cultural de Gaia. As notícias eram desenvolvidas e eram acompanhadas de imagens virtuais do que se "esboçava" para o local. Escrevi então que só "não morreu de susto" quem "já nada lhe pode causar dano". Mantenho o que disse e ainda hoje fico impressionado não só com a proposta arquitectónica mas, também, com toda a "arquitectura" do "projecto". Dada, no entanto, a natural limitação de espaço deste "Passeio Público", deixei para posterior oportunidade outras reflexões.
Acontece, porém, que o senhor vice-presidente da CMG, Marco António Costa, veio, três dias depois, neste mesmo JN, perorar sobre o meu comentário de que, naturalmente, não gostou. Tal como eu, está no seu direito, mas confesso que apanhei outro susto, agora com a grosseria da prosa. Apesar disso, fique descansado que não vou entrar pela via do insulto pessoal que utiliza porque, para tanto, precisaria de descer do patamar cívico e profissional de que não abdico! Aos cidadãos desta cidade não importam as questões pessoais. Por isso, vamos ao que interessa
A "praça" - qualquer "praça" ou "passeio público" - de que o senhor vice-presidente não gosta porque "tem comentadores, opinadores e quejandos que sem conhecerem em concreto os dossiês… tomam posições inflamadas e muito críticas…", só pode pronunciar-se sobre o que lhe é dado conhecer. Ora, a única informação que foi prestada foi a publicada e o facto de não conhecer "no concreto os dossiês" só acontece porque quem os podia (e devia) disponibilizar não o fez. Ora, esse alguém é a própria CMG.
Depois, senhor vice-presidente, só faltava que o projecto (a que, aliás, o senhor chama "esboço") não tivesse mão de arquitecto! Só que isso não o torna imune à crítica. A crítica é um direito e, por mais que lhe custe, é um acto de cultura. Limitei-me a exercê-lo com educação, mas com a intensidade ou, se preferir, com a "violência" que o objecto da crítica me merecia e merece a verdade é que, com ou sem arquitectos, a proposta é, em si mesma, uma violência muito maior do que a minha crítica, já que, com ela (proposta) se mata, de um só golpe, a imagem, a paisagem, a tipologia, a morfologia, a memória, a história e tudo o que fez e faz das encostas do Douro, o "património" que é "da humanidade" e não apenas de Gaia, do Porto ou de qualquer vereação ou presidente de circunstância. Aliás, não é o próprio PDM de Gaia que, no seu artigo 42.º, classifica o local como "Área de Paisagem Protegida das Encostas do Douro"?
Sobre a questão que parece preocupar o senhor vice-presidente, de haver "quem queira impor o seu gosto estético a todos os outros" (!), só conheço uma proposta e essa é única e é a do único concorrente que se apresentou! Por outro lado e ao contrário do que pensa, não tenho inveja de nada nem de ninguém exerço a profissão há mais de 40 anos e nunca tive nem procurei os favores da Administração Pública; além do mais, sou professor de Arquitectura há mais de 35 anos e não sou masoquista!