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Lugares vagos

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O andar dos tempos não se compadece com o que vai perdendo valor de uso e, simultaneamente, com o que, de qualquer modo, não possui ou não revela capacidades para se reconverter. As cidades, sobretudo as cidades de hoje, são pródigas em exemplos disto mesmo. Não só por causa do tempo que, em tudo, vai deixando as suas marcas, mas, também, por causa dos fenómenos associados ao crescimento urbano que vão atirando para outros lugares, coisas e pessoas, esvaziando espaços antes plenos de vida e relocalizando actividades em novos espaços antes libertos.

Os exemplos mais típicos desta obsolescência, que atinge o espaço edificado da cidade, é o das grandes fábricas ou armazéns que vão sendo absorvidos pela cidade que cresce e se adensa em seu redor, provocando a sua asfixia e criando dificuldades crescentes à sua utilização. Regra geral, o que fica deste inexorável fluir do tempo, são imensos "espaços vagos", seja sob a forma de terrenos ao abandono, seja sob a forma de massas imensas de construção ou das duas coisas ao mesmo tempo, cujo fim é, quase sempre, a sua captura pelos apetites da especulação imobiliária oportunista que se esquece ou não considera mais do que a disponibilidade material imediata desses mesmos espaços.

Este problema é geral e quase todas as cidades os sentem em maior ou menor grau. Por isso, o tema dos "lugares vagos" ou dos "lugares vazios", criados por este abandono, é um tema caro aos governantes das cidades, aos urbanistas, aos arquitectos e a todos quantos se interessam pelas questões urbanas. De entre esses espaços, têm tido, ultimamente, maior visibilidade, os espaços portuários, quer porque a sua localização e extensão representa uma barreira praticamente intransponível na desejada aproximação à água e, portanto, uma limitação muito significativa ao seu uso como espaços de lazer, quer porque o seu estatuto jurídico-administrativo os subtrai ao controle urbanístico municipal sendo, por isso, um entrave muito significativo ao planeamento urbano.

Nas cidades em que foi possível desafectar essas extensas áreas do uso exclusivo das autoridades portuárias, nasceram espaços "civis", muitas vezes de grande qualidade urbanística e arquitectónica, com uma intensa vida urbana dedicada ao lazer, ao convívio e à cultura e atraindo, por isso, actividades muito diversificadas, a ponto de se poder falar, em muitos e felizes casos, de novos centros de cidade, os centros de cidade da contemporaneidade por excelência.

Mas não são apenas os espaços portuários ou ribeirinhos, que atraem programas como os atrás referidos. Com efeito, cidades que nem sequer dispõem de rio ou de mar, têm também preocupações com estes "espaços vagos" promovendo com frequência a instalação, nesses velhos e amplos edifícios, de bibliotecas, museus, centros culturais ou centros de simples estar e conviver. Esses edifícios, para além duma grande disponibilidade de espaço livre, caracterizam-se por serem de grandes dimensões, de grandes vãos livres e, portanto, de grande transparência interna, sem paredes ou colunas que condicionem o uso do seu espaço interno e são, frequentemente muitos bonitos.

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