Os números de vítimas crescem à medida que o tempo passa. Com os desaparecidos ainda por quantificar, 83 mortos e 350 feridos (42 necessitando de "cuidados muito especiais") compunham o último balanço fornecido pelo Governo moçambicano. Um balanço provisório e, presume-se, contido, a avaliar pelos relatos trágicos que, durante o dia de ontem, foram chegando de Maputo. As explosões da véspera num paiol militar, junto ao bairro de Malhazine, deixaram a capital em estado de pânico e abriram fendas na estrutura política do país, com duras críticas ao ministro da Defesa, Tobias Dai. Portugal, pela voz do primeiro-ministro, já se mostrou disponível para apoiar os sobreviventes.
"É uma tragédia, a situação é desoladora", reagiu a governadora de Maputo, Rosa da Silva, citada pela Agência Lusa, que se deslocou ao Hospital Central da capital, para onde foi transportada a maioria das vítimas. Naquela unidade deram entrada, durante horas a fio, pessoas com membros dilacerados, com traumatismos vários na face e na cabeça. Muitas eram crianças.
A maioria dos mortos e feridos, segundo testemunhou a Lusa, foi atingida com violência por projécteis ou estilhaços do material militar guardado no paiol, cercado por uma série de bairros de lata. Parte desse material - pesado, como obuses e morteiros - não chegou a deflagrar e caiu dentro ou nas imediações de residências. Durante todo o dia de ontem, equipas das Forças Armadas procuraram recolhê-lo e levá-lo de volta para o paiol.
Comissão de inquérito
Este foi o segundo acidente, no espaço de dois meses, naquele paiol. O primeiro, ocorrido em Janeiro, fez três feridos e provocou avultados danos materiais. Mas, na sequência, o Ministério da Defesa assegurou que o equipamento iria ser deslocado para outro local. Uma promessa ontem recordada pelo principal líder da oposição. Afonso Dhlakama, presidente da Renamo, acusou ainda o Ministério de "desinformação", por apontar o calor como a causa das explosões. Em sua opinião, na origem das explosões está a falta de ordem nos quartéis moçambicanos, "onde os militares se misturam com civis, num ambiente sem regras nem regulamentos".