Infelizmente, há mais "ilhéus" do que pensamos. Claro que como o "chefe" da "jangada atlântica" há poucos. Não é que seja único! Não os outros é que não são tão grotescos e dão menos gozo. Mas ainda está por se perceber por que razão a boçalidade tem tanta entrada na chamada Comunicação Social, sobretudo naquela que, com seriedade, se reclama desse estatuto! É que há limites que mesmo o mais iletrado dos cidadãos tem dificuldade em perceber que se possam ultrapassar impunemente. Diz-se que "tão ladrão é o que vai à horta como o que fica à porta" e, por isso, tão boçal é o que abre o orifício bocal para emitir sons e para soltar enormidades como o que lhe dá a correspondente e incompreensível amplificação.
O problema é, também, o que se faz a coberto do que se diz mas, sobretudo, o que se faz a coberto do que não se diz como se o poder de fazer fosse um direito irrestrito e adquirido só pelo facto de se ocupar uma cadeira mais alta do que a do vizinho.
Ora, o tipo de comportamento público deste género de personagens em meios ditos "interiores" está normalmente associado à noção de poder ilimitado que as ditas criaturas têm sobre tudo o que as rodeia e sobre todos os que lhe estão ao alcance. Todos sabemos que o que dá poder e um poder aparentemente ilimitado é a abundância de meios e, sobretudo, de meios materiais. Por outro lado, esse poder é tanto maior e tão mais inebriante quanto maior é a facilidade com que esses meios são utilizados por quem, de qualquer modo, o pode fazer. E, sobretudo, se esse alguém não tiver de prestar contas seja a quem for e gozar, por isso, da chamada impunidade.
Ora, essa espécie de impunidade é muito mais possível onde escasseiam os meios para o esclarecimento e para a denúncia das acções e das omissões de quem exerce o poder e onde a proximidade e a vulnerabilidade pessoal tornam mais difícil o exercício dos direitos de cidadania porque o risco da simples represália ou mesmo da vingança é mais real e muito mais penalizante porque tudo leva a crer que terá de ser sofrido solitariamente, isoladamente e quase sempre perante o silêncio generalizado dos concidadãos. E podemos até falar da implantação de regimes de medo! Não é segredo para ninguém que esses meios de que falamos significam dinheiro e, sobretudo, dinheiro fácil, que é o que se obtém sem dificuldade, qualquer que seja o método. O que, no entanto, custa sempre a compreender, uma vez que todos sabemos quão difícil é ganhá-lo com seriedade! Mas que o poder do dinheiro é o pior dos poderes não custa nada a compreender.
Agora que em Portugal há muito dinheiro fácil, não restam grandes dúvidas! Se não, como explicar o imenso estaleiro em que Portugal continua transformado, com obras por tudo quanto são ruas ou largos que, subitamente, mudam de rosto, ou por terras e montes que, dum dia para o outro, aparecem rasgados por novas estradas e por novas rotundas onde menos se aconselharia, com cortes selvagens de tudo quanto possa ser obstáculo à satisfação dos apetites pouco confessáveis dos mais imediatos beneficiários que quase nunca são os cidadãos e as suas reais necessidades, que são muito mais de matéria cinzenta do que de material cinzento?