Quando, no passado dia quinze, o meu artigo habitual de Domingo foi impresso, faltava-lhe um parágrafo que, quase no final, fazia uma referência ligeira ao tema central do dia, as eleições autárquicas em Lisboa; o parágrafo "sacrificado" dizia apenas o seguinte "Tenho esperança que, ao fim do dia, quando Lisboa tiver eleito o seu novo executivo camarário, tenha sido dado um passo fundamental nessa direcção (a da construção da nossa própria agenda). É que faz falta, em qualquer país, uma capital bem organizada, competente e dinâmica. E, ponderada a situação nacional, tal é verdade em Portugal por maioria de razão; é que, dado o centralismo absurdo em que vivemos, a desregulação lisboeta tem sido excessivamente visível e os seus custos financeiros e políticos insuportavelmente gravosos; para além de que estou convencida que a normalização da capital permitirá libertar energias para que o Governo se dedique com mais empenho ao resto do País."
Não me pareceu nem parece que destas frases se possa inferir qualquer favorecimento especial de qualquer dos candidatos; pelo contrário, elas traduzirão, quando muito, uma manifestação de interesse e apelo ao voto; não me parece que a "desregulação lisboeta" seja matéria subjectiva nem que haja dúvidas de que, fosse qual fosse o vencedor, o acto eleitoral se destinou a "normalizar" a capital, não fosse essa a razão última da sua convocação. Aceitei, pela primeira vez, o "corte" pelo simples facto de nele não dizer nem nada de muito substantivo nem algo que não pudesse abordar hoje sem complicações adicionais; não escondo, no entanto, que começa a ser preocupante este temor quase supersticioso que perpassa não só pelos "media" mas pela sociedade em geral. É que, se do excesso de zelo temeroso sobre "palavras-chave" se começar a chegar às ideias, o assunto pode mesmo virar sério...
Mas regressemos a Lisboa e à mensagem do meu "ex-parágrafo". Com a distância do tempo, sabemos que os lisboetas se desinteressaram do acto eleitoral; lá terão tido as suas razões entre férias, praia ou motivações mais profundas (desde a agudização do individualismo à desilusão com a política e os seus protagonistas...). Curiosamente, a esse desinteresse corresponde a atenção preocupada da "província" (ou, pelo menos, de alguns dos seus habitantes, entre os quais me incluo), por dois motivos principais.
O primeiro é que, ao contrário de muitos dos meus conterrâneos, penso ser importante que Portugal tenha uma capital linda, eficaz, competitiva e dinâmica que possa condignamente representar o País; o que seria a França sem Paris, a Inglaterra sem Londres ou a Itália sem Roma? O segundo aspecto, mais complexo, refere-se à fronteira de responsabilidades e competências entre a Lisboa-cidade e a Lisboa-capital, sobretudo na medida em que deixe de ser claro onde acaba o nível municipal e começa a responsabilidade da Administração Central por garantir padrões de qualidade e dignidade adequados à sua capital. Ora, é esta confusão histórica que, num país centralista e sem poderes democráticos alternativos que combatam esta fluidez permanente de competências, se torna uma das causas de desentendimentos e de quebra dos laços afectivos de muitos dos cidadãos não residentes em relação à cidade-capital, da qual, no fundo, todos gostam.
Na prática, nos tempos mais recentes, as acusações, as zangas e, sobretudo, a desregulação administrativa e financeira a que, a partir de Lisboa, o País assistiu em horário nobre não teriam tido o mesmo grau de complacência quer da parte da comunicação social quer das instituições competentes, tivesse ela ocorrido em qualquer outro município do País. Em Lisboa, qual criança super-protegida por uma mãe hiper-protectora, há sempre a sensação de que, no fim, "alguém há-de pagar" e "a vida continua". E a verdade é que, enquanto o município se desregula e a dívida aumenta, a acção do Governo que nos representa a todos, entre os automatismos interiorizados pela máquina administrativa e a vontade de valorizar a capital, vai garantindo a "animação" da cidade e protegendo os seus cidadãos das consequências mais gravosas dos impasses e incompetências municipais. De facto, se no passado o governo se substituiu à Câmara no abastecimento de água à cidade através da EPAL ou nos sistemas de transportes urbanos através do Metropolitano, na requalificação ribeirinha através da Expo e APL, mais recentemente são as opções sobre a política científica e tecnológica, operações como a da colecção Berardo ou as estratégias da promoção turística "nacional" as formas tidas por mais interessantes de materializar essas práticas. E, quanto à dívida..., "alguém há-de pagar"...