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O espelho do nosso mundo

Publicado

F. Cleto e Pina
 

Estreia hoje em Portugal, um dia antes de chegar aos EUA, "Simpsons - O filme", um projecto "velho" de dez anos, finalmente concretizado. Nele, pouco depois do início, Homer Simpson, que assiste no cinema a uma película protagonizada por Itchy e Scratchy, a versão 'gore' de Tom e Jerry que Bart e Lisa adoram, interroga-se desabridamente "Por que é que estou a pagar para assistir a uma coisa que posso ver de borla na TV?". Mas se a mesma pergunta chegar a aflorar as mentes de quem for ver o filme, depressa a esquecerão - tão divertido é o produto final, capaz de arrancar sonoras gargalhadas devido ao seu forte imprevisto e nonsense.

Por isso, dirão os fãs, valeu a pena esperar para assistir às desgraças quotidianas da mais conhecida família da TV no grande ecrã, onde Homer, Bart, Marge, Lisa e Maggie ganham nova dimensão, literalmente falando, mas também fruto de uma animação mais cuidada, que os feios bonecos amarelos já mereciam, depois de quase uma centena de distinções televisivas conquistadas ao longo de uma carreira ímpar no pequeno ecrã desde 1989.

Tudo começa quando Homer provoca (mais) um enorme desastre ambiental em Springfield, o que leva a Agência de Protecção Ambiental (EPA) norte-americana a isolar a cidade dentro de uma redoma de vidro, cumprindo uma estranha profecia do avô Simpson, logo no início, quando entra em transe na igreja. Conseguindo à justa fugir ao linchamento pelos seus concidadãos, Homer e família refugiam-se no Alasca, onde a aparente harmonia reencontrada se transformará em separação, o que levará Homer a uma atribulada peregrinação e busca interior, de que sairá pronto a redimir-se e a assumir - como raras vezes sucedeu - as suas responsabilidades.

A história, bem construída (a equipa teve 11 argumentistas, incluindo James L. Brooks e Matt Groening), transporta para o cinema o ritmo próprio da série televisiva, com as habituais inflexões iniciais e vários relatos cruzados, e preenche agradavelmente os 85 minutos que dura, tendo mesmo algumas cenas de antologia - como o longo percurso de skate de Bart, totalmente nu, pelas ruas da cidade imaginária de Springfield.

O filme, realizado por David Silverman (co-autor de "Monstros e companhia") conta também com o habitual cortejo de referências, mais ou menos explícitas, como o naufrágio do "Titanic", a idílica cena Disney em que Branca de Neve, esgotada, se deita nas camas dos anões sendo coberta pelos animais da floresta, ou a sátira ao documentário ambientalista de Al Gore "An inconvenient truth" ("Uma verdade inconveniente"), transformado em "An irritating truth" na dissertação de Lisa, mal recebida pelos seus concidadãos.

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