O litro de leite vai passar a custar, dentro em breve, mais 4 a 5 cêntimos no produtor - uma variação de mais 12% a 17%, face ao preço do trimestre passado -, o que terá como consequência um aumento provável de 10% no preço final ao consumidor. A situação resultará da conjugação de uma série de factores conjunturais, até porque a escassez de leite não é exclusivo nacional (ver caixa ao lado). Todavia, os produtores entendem que há, pelo menos, um motivo nacional para o desinvestimento no sector e apontam o dedo ao Ministério da Agricultura.
"Há um problema relativo ao enquadramento legal das explorações de leite, dado que não chegou a ser implementado o diploma, de 2005, que regulamentava todos os parâmetros para a obtenção do licenciamento, e ainda estamos à espera do novo diploma, em estudo, para que se façam então os investimentos necessários", explica Fernando Cardoso, secretário-geral da Federação das Cooperativas de Produtores de Leite e Lacticínios (Fenalac).
O investimento nas explorações está, portanto, "congelado", na expectativa das regras que o ministério há-de ditar. Simultaneamente, a falta de dedicação de "algum apoio à adaptação ao novo regime, por parte do Plano de Desenvolvimento Rural para 2007-2012", revela, na opinião do representante dos produtores, que "a área não é estratégica", quando até seria necessária outra visão para o problema do leite na União Europeia.
"As quotas não são o problema actualmente, pois até estamos 5% abaixo da quota nacional e com uma lacuna de 77 milhões de toneladas", reconhece Pedro Pimentel, secretário-geral da Associação Nacional dos Industriais de Lacticínios (ANIL). Elencando todos os factores mencionados pelo representante dos produtores, e particularmente preocupado com o reflexo da subida de preços da matéria-prima na indústria, o dirigente aponta ainda o dedo às "ajudas desligadas" que a União Europeia concede, desde o passado dia 1 de Abril, aos produtores de leite, mesmo que não produzam.
"Há uma verdadeira guerra no campo por todos os litros de leite, que tem vindo a agravar-se semana a semana, porque a escassez é enorme, os produtores não conseguem garantir a entrega a longo prazo e a indústria está a trabalhar com reservas a zero", revela Pedro Pimentel.