"Não há em Portugal procissão assim". António Francisco Coentrão levanta-se da cadeira em sinal de respeito, à passagem do andor de Nossa Senhora da Bonança. Durante toda a vida, "andou ao mar" no bacalhau, depois na sardinha, já no seu "barquinho". Hoje, lá andam os filhos e os netos, nas embarcações "Da Mata". No rosto, António Coentrão tem a expressão de fé da comunidade piscatória das Caxinas, Vila do Conde, a devoção imensa de quem, à mercê do mar - umas vezes pai, sustento da casa, outras padrasto, que leva os entes mais queridos, como há 13 anos lhe levou o filho -, busca no céu a esperança. Este ano, inevitavelmente, a comunidade lembrou os seis "filhos" que o mar levou, em Dezembro, no naufrágio do "Luz do Sameiro". António é apenas um dos cerca de 50 mil (nas contas da paróquia) que, ontem, assistiram a uma das maiores procissões do país, na Festa do Senhor dos Navegantes, nas Caxinas. Todos os anos, a procissão traz às Caxinas milhares de fiéis da Zona Norte, muitos emigrantes e até estrangeiros de férias na região. Os festejos em honra do padroeiro espelham a devoção dos pescadores, numa procissão composta por 16 andores e mais de 400 figurantes que, durante duas horas e meia, percorre pouco mais de dois quilómetros.
"É uma enorme manifestação de fé", explica o pároco das Caxinas, Domingos Araújo, lembrando a singularidade da procissão pela imponência dos figurantes e, sobretudo, dos andores, que ultrapassam por vezes os mil quilos, carregados aos ombros por mais de duas dezenas de pescadores, num sinal de "gratidão e fé" ao Senhor dos Navegantes.
"A procissão já tem muitos anos, mas era mais pequenina", explicou António Coentrão, que, aos 88 anos, vê a procissão "desde que se lembra". Depois, explica, parou, durante 16 anos, com a construção da igreja nova - que este ano celebra 22 anos -, voltando a ser retomada há 19.
Pescadores dão "salário"
Desde o início dos festejos que todos os anos os barcos das Caxinas dão à paróquia "Os Quartos do Senhor" - um quarto do que recebe, durante um ano, cada um dos tripulantes do barco. A embarcação que der o maior "quarto" tem a "honra" de escolher o andor que quer transportar. Este ano, a "honra" foi para o "Ajudado por Deus". (ler caixa). Entre os figurantes, seguem mais de 400 filhos da terra, cumprindo promessas ou por simples devoção. "Vou em todas as procissões aqui na zona. Venho mesmo por gosto", explica a jovem Elisabete Fernandes, de 23 anos, que, apesar do calor, foi a Nossa Senhora de Fátima da procissão.