Uum monte de pedras é tudo quanto resta do antigo chalé onde viveu a viúva de Eça de Queirós, na praia da Granja, em Vila Nova de Gaia. Há dias, o dono da quinta arrasou as paredes e tentou apagar a memória do lugar. "Agora, choram ágrimas de crocodilo, mas a Câmara sabia de tudo", criticou Afonso Eça de Queirós Cabral, bisneto do escritor de "Os Maias".
Existem silêncios, cumplicidades e desprezo pela forma como foi destruída uma moradia que, embora nunca tenha sido residência de Eça, estava associada ao universo queirosiano. Por lá viveu e morreu Emília de Castro Pamplona (viúva de Eça) e ainda uma boa parte da família do romancista. Pelo chalé, agora reduzido a um monte de pedras, passou muita gente das artes e das letras, entre as quais o escritor Alberto Oliveira e a poetisa Sophia de Melo Breyner Andresen.
Com a casa arrasada, ficou um monte de críticas "Há mais de 30 anos que estava tudo abandonado e a Câmara de Gaia sabia disso. Esteve a saque. Há cerca de 10 anos, desloquei-me à quinta e a desilusão foi grande. Uma parte do telhado já estava destruída. A Câmara só não interveio mais cedo porque não quis. Agora, é provável que lamente a sua demolição, mas não comove ninguém", acusou Afonso Cabral.
O vereador do Ambiente da Câmara de Gaia, Mário Fontemanha, tem outra leitura dos acontecimentos e aponta o dedo aos actuais proprietários como autores de "acto premeditado" da demolição. "Foi da noite para o dia e pelas informações que tenho só os apetites imobiliários terão levado à destruição da casa", disse.Em declarações ao JN, Mário Fontemanha criticou a postura "pouco séria" dos donos e prometeu fazer avançar uma notificação camarária para apuramento das responsabilidades. "A Câmara irá obrigar os proprietários a proceder à reconstrução da casa. As pedras estão lá. A demolição foi ilegal", considerou o autarca.
Segundo o JN apurou, a antiga casa da viúva de Eça foi comprada pelo empresário Santos Silva, da Jofilhos-Sociedade de Construções Lda, com sede em Arcozelo, mas, através de um funcionário, mandou dizer que "por agora" não prestava declarações".