Nas situações de crise vividas no pós-25 de Abril a recuperação teve, quase sempre, na base industrial da região do Norte a alavanca de que o país precisava. Argumentam os detractores que a desvalorização da moeda terá sido o elemento fundamental por detrás desse dinamismo. Desculpa de mau pagador, quando a restante base económica se encontrava, quase toda, protegida da concorrência internacional.
Nos anos mais recentes, a história parece ser outra, com a economia da região a evoluir abaixo da média do país. Com a globalização e a ausência de mecanismos de protecção cambial, não podia deixar de ser assim as empresas que "vendiam minutos" e não souberam inovar, tinham os dias contados. O aumento do desemprego e, sobretudo, a sua persistência eram uma consequência inelutável, mais a mais com a precária qualificação de base dos trabalhadores envolvidos. Nada disto é novo. Está escrito e foi dito vezes sem fim. Daí até se passar para o discurso catastrófico vai um pequeno passo que muitos não hesitaram em dar. O mito mais recente que construíram foi o da dita balança tecnológica, que não se sabe bem o que representa, mas que seria, pela vez primeira, positiva. Vai-se a ver, e quando se desagrega a balança comercial por sectores, os únicos com um contributo consistentemente positivo são… os tais sectores condenados a desaparecer.
Importa repor a verdade! As empresas desta região mostraram uma capacidade de resistir, se adaptarem e evoluir acima das expectativas. Por esta altura, mesmo os que nunca acreditámos no desaparecimento dos sectores ditos tradicionais, esperávamos um cenário mais negro. Muito do mérito para que tal não tenha sucedido deve-se à iniciativa dos empresários, às diligências das suas organizações representativas e à sensatez dos sindicatos.
Subsiste a dúvida seremos capazes de ultrapassar a fase de economia de resistência? Há condições para levantar voo? Na região estão sedeados o maior grupo económico nacional (Sonae), o maior exportador (Qimonda), os sectores com saldo comercial externo positivo (têxtil, vestuário, calçado, vinho, cortiça), a maior empresa de construção civil e obras públicas (Mota-Engil), a maior empresa de bebidas (Unicer), a maior corticeira do mundo (Amorim), a base para o "cluster eólico" português (em Viana do Castelo), a principal empresa farmacêutica portuguesa (Bial), empresas líderes nos respectivos sectores como a CIN, a Efacec, a Frezite e tantas outras, uma região património da humanidade (Douro) na qual estão alojados dois dos melhores projectos turísticos portugueses (Aquapura e Quinta da Romaneira) aos quais se juntará, muito em breve, o projecto da Unicer em Vidago, o vinho português com maior expressão mundial (Vinho do Porto) e o conjunto de jovens enólogos que mais reconhecimento internacional tem ("Douro boys"), forte influência num dos principais bancos portugueses (BPI), duas unidades fabris do principal grupo de mobiliário mundial (IKEA), uma das maiores fábricas de auto-rádios da Europa (Blaupunkt), a maior universidade (U. Porto) e o maior conjunto universitário do país (Porto, Minho, Católica, UTAD e Aveiro), o museu mais visitado (Serralves), o auditório mais bonito (Casa da Música), um dos melhores clubes de futebol do mundo (FCP), alguns dos solares mais bonitos de Portugal (Vale do Lima), várias das cidades históricas do país (Braga, Guimarães, Porto), a base do barroco e de múltiplos monumentos nacionais, o jornal diário mais lido (JN). E, certamente, muitos outros activos de que o leitor se lembrará. Quantas regiões em dificuldade têm esta base? Repete-se: o que falta? Talvez um "projecto-bandeira" que congregue alguns dos principais actores da região. Por exemplo, uma candidatura à gestão do aeroporto Francisco Sá Carneiro. Assunto que, na sequência do repto lançado pelo Primeiro-Ministro, se sabe tem vindo a ser estudado pela Junta Metropolitana do Porto (JMP) e, relativamente ao qual, o grupo Sonae, pela voz do seu Presidente, afirmou não só estar "a jogo" como aberto à participação de outras entidades da sociedade civil (JMP, Universidades, Associações Empresariais, outras empresas nacionais e estrangeiras). Talvez esta seja a oportunidade de pôr à prova se os genes de iniciativa privada continuam vivos. Talvez este seja o "click" que falta para que a região readquira o protagonismo de que o país carece!
P.S. Ao não renovar o contrato com o hospital Amadora-Sintra, Sócrates invocou uma "gestão pública" que não se sabe muito bem o que seja. Dou um contributo não é, certamente, a falta de transparência com que a ANA gere os aeroportos nacionais.