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S. Brás

Publicado

Hélder Pacheco, Professor , e escritor
 

O coronel Owen, no seu relato sobre o Cerco do Porto, aponta como 8.ª Bateria das linhas que o protegiam uma colocada "em S. Brás para para defender o Lindo Vale". Também Alberto Pimentel a situa próxima do Monte Pedral, "centro da linha, sob o auxílio da bateria de S. Brás, que protegia aquele Vale". A bateria ficava no ponto mais alto da rua do mesmo nome e Eugénio Cunha e Freitas considera que, quando esta foi aberta, teria recebido o nome daquele reduto liberal. O mais provável, porém, é que rua e bateria colhessem a designação de anterior devoção religiosa ali existente, dedicada a um santo popular na região do Porto pelas virtudes curativas dos achaques da garganta.

De qualquer modo, interessa para aqui o facto de, ao longo da segunda metade do século XIX, na nova artéria de expansão da cidade para Norte, a partir de Santo Ovídio, se terem implantado residências da pequena e média burguesia portuense e, pelas proximidades do grande pólo fabril de Salgueiros, inúmeras ilhas (ou, nuns casos, bairros). Não admira, de igual modo, o aparecimento de manifestações de uma certa cultura popular, operária, característica daquele Porto profundo que o tempo e as mudanças sociais vão desvanecendo.

Dos bairros, destacavam-se o da Coreia e o dos Verdetes, este há muito demolido, que adquirira o nome da alcunha de uma família da zona. E, de entre as figuras típicas e apreciadas da rua, destacava-se (nos anos 20 ou 30) a bruxa de S. Brás, Armandina de seu nome.

Era uma mulher baixa, vestida de preto, muito respeitada pela vizinhança do bairro da Lapa e redondezas. Tinha a casa sempre cheia de clientes e um dos serviços mais comuns que lhes prestava era espantar o diabo, ao sábado à noite, do cemitério da Lapa (que confina com a zona baixa da rua). Para tal operação arranjava um galo e pedia ajuda a catraios, que lhe serviam de assistentes, pagando-lhes vinte e cinco tostões pelo serviço.

Nada mal para a época. Estes lançavam o galo de um sítio alto, em momento previamente combinado, e o bicho esvoaçando no escuro, para as almas incrédulas, passava pelo mafarrico a fugir dos poderes da bruxa. Depois, os miúdos percorriam o bairro à procura do bicho, e quem o encontrasse chegava a casa com um inesperado pitéu para o almoço familiar de domingo.

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