Como se esperava, vem aí (mais) betão. A resposta ao atraso estrutural do país, às dificuldades no emprego e às assimetrias regionais deu nisto obras públicas, enormes investimentos, infra-estruturas. O Estado assume o comando da dinamização da economia. Uma lista pletórica se anuncia: ele são auto-estradas, pontes, TGV, barragens, aeroporto. Para trás fica o conhecimento, a qualificação das pessoas e a valorização do território, a sustentabilidade e outras muletas discursivas hoje suplantadas. Para amortecer, mesmo temporariamente o desemprego, para aproveitar a ligeira folga orçamental e o novo quadro de apoio europeu, para ganhar eleições e fazer esquecer tristezas, eis que se escolheu…o cimento.
Muitos irão saudar, neste eterno retorno a uma das constantes da política portuguesa, a "modernização" do país, na vaga de fontismo anacrónico. Mas outros, desmancha-prazeres, notarão o carácter efémero dessa festa e o gasto de recursos em prioridades erradas.
Soube-se que a área de Lisboa é já a região europeia com maior densidade de auto-estradas, e que o país inteiro se prepara para encabeçar a lista das nações com mais dessas vias rápidas…que no entanto não detiveram, antes pelo contrário, o despovoamento do interior, e o êxodo imparável para as imensas aglomerações urbanas do litoral.
As regiões europeias mais ricas, no entanto, nem de longe esquadrinharam desta forma o seu território com auto-estradas, e os "exemplos económicos" que gostamos de evocar (Irlanda, Finlândia, Suécia) apostaram antes na educação, ciência e formação das pessoas e resolveram os problemas de transporte com ferrovia convencional, a mesma que Portugal despreza e condenou a uma quase irrelevância. Mas nada disto impressiona os nossos decisores.
Parece que mesmo o facto de toda a anunciada parafernália infra-estruturante configurar, contas feitas, um aumento decisivo das emissões poluentes (que o país está obrigado a conter, sob pena de graves problemas futuros) não merece, dos governantes, mais do que um bocejo.