Em Portugal, 20 euros será o preço médio de um jantar; em Moçambique, 20 euros salvam uma criança. Permitem que tenha um lar, sapatos, escola, duas refeições diárias e que não tenha que morrer de malária - doença de diagnóstico fácil e medicação barata, mas que, em África, continua a ser uma das principais causas de mortalidade infantil. O absentismo não mata, mas condiciona o futuro. Em Moçambique, houve um milhão de crianças que, no ano passado, não se matriculou na escola. Este ano, o número subiu para um milhão e duzentas mil.
Para travar esta escalada, a Ataca, Associação de Tutores e Amigos da Criança Africana, que não tem fins lucrativos e está sediada no Porto, criou o projecto Tutor à Distância. Em menos de dois anos, assegura Tiago Rebelo, vice-presidente, "foi possível apoiar cerca de 200 crianças, nas cidades de Maputo e Quelimane". Para quem está lá, a ajuda é crucial; para quem está cá é simples basta que cada tutor envie, mensalmente, uma verba que oscila entre os cinco e os 20 euros.
Além da contrapartida inquantificável de salvar uma vida, o tutor vai recebendo informação - escrita e fotográfica - sobre o desenvolvimento escolar, social e de saúde do "patrocinado". Escolher a criança a apoiar por fotografia está fora de questão; adoptá-la também. "A adopção não é a situação ideal", explica o responsável. "Tal como não incentivamos o envio de brinquedos. O dinheiro vai para a estrutura onde a criança está integrada, é passível de ser partilhado; um brinquedo não. Não transforma a vida da criança e pode criar conflitos no seio onde está".
Agora, a Ataca tem um novo desafio encontrar 770 tutores [ver site: http://www.ataca.org/] para apoiar igual número de crianças, entre os três e os seis anos, na cidade de Pemba, pequena península a sul de uma enorme baía, em Moçambique, onde é comum a época de chuvas destruir bairros e escolas. A ideia é construir dois infantários novos, reparar os cinco que existem actualmente e ganhar capacidade para pagar a educadores e cozinheiros para poder fornecer três refeições por dia. Em Pemba, dez euros mudam tudo.
"Pergunte-me como vou conseguir. Não sei", observa Tiago Rebelo. Tanto mais que o aumento de tutores implica o reforço de voluntários no local - fazem a ponte entre a criança e o tutor -, logo, um maior financiamento. Não é tarefa fácil para uma associação que tem apenas 30 sócios, cuja quota mensal é de 10 euros.