Aestratégia da SAD do F. C. Porto, que não recorre da punição, anteontem aplicada pela Comissão Disciplinar da Liga (CD), parece dividir os adeptos azuis e brancos. O JN auscultou vários notáveis do universo portista e, entre a razão e o coração, há quem não compreenda como é possível não prosseguir até às últimas consequências. Outra corrente subscreve que a honra do F. C. Porto estará sempre defendida, na pessoa de Pinto da Costa, que vai recorrer da pena de dois anos de suspensão. O Apito Final trouxe fracturas pouco habituais numa massa adepta tradicionalmente unida a uma só voz.
Se apresentasse recurso no Conselho de Justiça da FPF, o F. C. Porto correria o risco de começar a próxima época com seis pontos negativos. A razão desportiva imperou, uma situação inexplicável para o empresário Manuel Serrão. "Devia ter existido recurso. Não pode ficar no ar a ideia de que o F. C. Porto aceita o castigo", argumenta. Uma eventual subtracção de pontos, com efeitos na época 2008/09, "é igual ao litro", atendendo à diferença de valores entre os dragões e os adversários. "Face ao que veio a público, existem todas as condições para recorrer de uma sentença completamente desajustada", conclui.
A perda de pontos, de facto, não preocupa nenhum dos seis portistas ouvidos pelo JN. Mas isso não impede, por exemplo, Manuela Aguiar de subscrever a decisão das cúpulas azuis e brancas. "Acho que não se deve recorrer. Para pensar o contrário, seria preciso acreditar nesta justiça desportiva", faz notar a vereadora da Câmara Municipal de Espinho. Manuela Aguiar, que tem formação jurídica, defende que o recurso do presidente do F. C. Porto basta para afastar qualquer tese de reconhecimento de culpa. "Não vale a pena provar a inocência duas vezes. Como o presidente recorreu, não vejo necessidade de mais nenhum recurso, pois ele é o único visado. Existe uma total identificação entre o F. C. Porto e Pinto da Costa, pelo se tratou de uma medida muito inteligente", analisa, lançando críticas às sentenças aplicadas pelo órgão liderado por Ricardo Costa. "Ao longo dos anos, o F. C. Porto sempre foi alvo de tratamento diferenciado pelas instâncias desportivas. Somos filhos de um Deus menor. A nossa honra não precisa de ser lavada, até porque não me passa pela cabeça que as acusações correspondam à verdade", vinca Manuela Aguiar. Enquanto adepto, Carlos Magno não se importaria que a equipa começasse o próximo campeonato com pontos negativos "Talvez até servisse de estímulo". Mas não arrisca tomar posição face à estratégia da SAD: "Precisava de conhecer melhor o processo". Em sentido oposto, e parco em palavras, Lourenço Pinto argumenta: "O recurso seria algo salutar e compreensível".
Membro do Conselho Superior do clube e do Conselho Geral da SAD, Pôncio Monteiro compreende a decisão numa perspectiva de "defesa dos interesses" do F. C. Porto. "Desta forma, não se dá oportunidade àqueles que contestam a superioridade do F. C. Porto de beneficiarem", explica, visto que a margem pontual permite lidar com o castigo com toda a tranquilidade. É evidente que, pensando apenas com o coração, "o comportamento seria outro".
O vocalista dos GNR, Rui Reininho, não está nada incomodado com o facto de a imagem poder sair beliscada. "Qual imagem?", questiona-se o conhecido músico, num registo sarcástico. "Em nada afecta, visto que não temos imagem. As nossas vitórias são sempre de rodapé. Por mais que o F. C. Porto ganhe, nunca passa da segunda página. O que interessa é o novo timoneiro", argumenta Reininho, aludindo às movimentações do Benfica para encontrar treinador e considerando o castigo ridículo. "É de morrer a rir! Às tantas, quando formos receber a taça de campeões à Liga, só nos vão dar metade", atira.