Nos últimos meses, os eleitores foram confrontados com um "colossal" aumento de impostos; com o agravamento da recessão; com o número de desempregados a chegar ao milhão; com o falhanço, portanto, das políticas do Governo; e ainda com a contestação nas ruas. Um caldo que deveria conduzir ao castigo eleitoral do PSD e ao reforço do PS. No entanto, a lógica, em Portugal, nos dias que correm, é uma batata.
De acordo com uma sondagem da Universidade Católica para o JN, é o PS quem ainda lidera (31%) as intenções de voto. Mas com o mesmo "score" que obteve em setembro do ano passado, quando ainda não havia Orçamento, nem os seus duros efeitos no empobrecimento geral. O PS não só não é capaz de abrigar o descontentamento popular, como o celebrizado "Documento de Coimbra", que colocou António Costa e António José Seguro no mesmo lado da barricada, foi para o caixote do lixo dos eleitores.
Seguro não "descola" - se a comparação for feita com junho do ano passado, até perdeu dois pontos -, nem mesmo quando se sabe que já interpela diretamente Lagarde e Durão e que endureceu o discurso, exigindo que a avaliação política se sobreponha aos tecnocratas da troika. E se Seguro vence, mas não convence, recupera o PSD, que se aproxima (28%) dos socialistas, subindo quatro pontos face a setembro. Mesmo que o CDS-PP desça dois pontos, o conjunto do Centro Direita está a recuperar.
Ao contrário, a soma da Esquerda, mantendo-se maioritária (51%), perde fulgor. Porque à estagnação do PS soma--se uma ligeira quebra da CDU (tem agora 12%) e uma descida um pouco mais acentuada do BE (caiu três pontos para 8%). Sendo que entre as sondagens de setembro e março o Bloco trocou um líder carismático, Francisco Louçã, por uma liderança bicéfala e com menor músculo político.
Governo deve continuar
A recuperação do PSD na sondagem pode ser explicada pelas restantes respostas dos inquiridos. Se é verdade que 77% continuam a opinar que o Governo é mau ou muito mau, e que as suas medidas não vão tornar o país mais competitivo ou desenvolvido (60%); estão também em maioria os que opinam que a Oposição não faria melhor (61%) e os que não se revêm em nenhuma das medidas que os partidos da Esquerda apresentam (57%).