Política

"Não fujo da sombra de Mesquita"

"Não fujo da sombra de Mesquita"

Continuar, na Presidência da Câmara de Braga, a obra de Mesquita Machado, que acompanhou nos últimos anos - em empresas municipais e como vereador -, é o objetivo de Vítor Sousa, 53 anos, e líder do PS local.

O PS ganhou as últimas autárquicas em Braga por pouco, tendo como candidato Mesquita Machado (MM). Juntando o desgaste do poder aos seus fracos níveis de notoriedade e o caso dos TUB (Transportes Urbanos de Braga), não é grande o risco de o PS perder a Câmara?

Não. O PS tem um percurso forte nestes 30 anos, assente num líder único, mas também num projeto em que participei muito. A minha garantia é continuá-lo.

Não teme que o caso TUB o persiga na campanha?

Se temesse não tinha assumido este desafio.

A sua candidatura dividiu muito o PS de Braga. A fação afecta a António Braga pode ser decisiva no resultado eleitoral?

O PS é um partido de valores nos quais se enquadram os militantes. As disputas internas são naturais. O PS não tinha, durante quase três décadas, vivido um momento assim - eu e António Braga protagonizamos uma história única no PS local, mas os nossos percursos são suficientes para nos mostrarmos unidos nesta batalha.

Essa união pode envolver o convite a Braga para a lista, ou está fora de questão?

Nunca nada está fora de questão.

Não viveu tempo demais na sombra de MM?

Não. Estou na política por valores e não pela funalização. Os valores que MM deixa não me levam a querer fugir dessa sombra. Sou um garante daquilo que é a herança do trabalho de MM e do PS.

Não foi por ter uma notoriedade baixa que antecipou para tão cedo a apresentação da candidatura?

Não tenho esse reflexo que diz no que toca à notoriedade. Estou certo de que vamos ter uma disputa de projetos, de ideias para Braga. Isso obriga-nos a ter um período para ouvir a cidade.

Se lhe pedisse uma diferença política substantiva em relação a MM diria que tende a ouvir mais as pessoas?

MM só se perpetuou três décadas na CMB porque teve essa capacidade de ouvir.

MM merece uma estátua?

Merece. Quem conheceu Braga há 30 anos vê que hoje a cidade é atrativa e pujante.

Diz que se revê no legado de MM. Completamente? Certa vez colocou dúvidas sobre o Estádio Municipal. Já as dissipou?

Revejo-me completamente. Não pus em causa a obra do estádio, é um ícone; a opção, talvez, na altura, poderia ter sido outra, mas foi a opção feita e revejo-me nela.

E nas outras? Faria algo de diferente?

MM é um obreiro que se dirigiu muito para aquilo que era o material, porque assim o exigia o concelho. Mas também foi muito vocacionado para o imaterial. O Parque de Exposições de Braga (PEB), por exemplo, surgiu na década de 80, quando poucos municípios tinham a perceção de alavancar uma estrutura que dinamizasse a actividade económica concelhia. E assim aconteceu.

Se está tudo resolvido, o que lhe resta resolver?

Continuar o trabalho na área social; direcionar a preocupação para o emprego; na área cultural, ter em atenção o pujante movimento associativo; e afirmar Braga como motor da região.

Vai herdar duas obras em curso de vulto: o Parque do Monte do Picoto e o Parque Norte. Vai continuar com o plano, tal como está, no Monte do Picoto, sabendo que vai comprar uma guerra clara com a diocese?

Não chegamos a nenhum acordo, mas isso não é nenhuma guerra com a diocese.

Na entrevista de MM ao JN, foi claro: defendo Braga mesmo contra os interesses da Igreja no Monte do Picoto. Sublinha?

Com certeza que sublinho. O papel de um autarca é defender Braga, contra os interesses de quem for.

E o Parque Norte? Avança com o hotel e parque aquático ou vai rever a ideia?

Avanço, assim haja condições. Preferiria outra opção, à data, que seria avançar, em vez da piscina olímpica, com o pavilhão multiusos. Mas este equipamento pode impulsionar uma área de lazer importante, transformando-a numa Bracalândia aquática.

Se ganhar, privatiza empresas municipais, como os TUB, que dão grande prejuízo, ou o PEB?

Não. Há serviços básicos para o cidadão que não devem ser privatizados. Excepto uma empresa, cujos estatutos foram agora aprovados e que tem um horizonte de operação distinto, que é o PEB. Não admito privatizá-lo, mas pode ser uma alavanca, como nos anos 80, para a internacionalização da marca Braga, com a realização de congressos, por exemplo. Defendo que o PEB deve abrir o capital à participação das estruturas associativas do concelho, como a Associação Industrial do Minho e a Universidade do Minho.

É a favor da limitação de mandatos?

Sou. Mas avaliando do ponto de vista daquilo que é a democracia, acho que é uma imposição forte.

Ou seja, nunca estaria 36 anos no poder, como MM?

Não.

Agregação de freguesias: é a favor ou contra?

Sou contra. Quem fez esta lei não teve uma abordagem séria. Quem está distante das pessoas não conhece o papel que os autarcas das freguesias rurais desempenham, sem qualquer custo e resolvendo muitos problemas que saem da sua esfera de competências. Acho que é perder-se um dos grandes capitais de Abril. Quem conhece o papel de uma Junta de Freguesia e o põe em causa com esta reforma não conhece essa realidade. Isto é afastar cada vez mais os cidadãos do Estado.

Imagino que não seja adepto da fusão de municípios...

Também aí terá de ser um processo que nasça debaixo para cima. Nunca o contrário. v

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