
Faz parte do restrito clube dos comentadores políticos que os portugueses escutam e que se mantém livre pensador. Feroz, não se incomoda quando o acusam de ser pago para escrever porque essa foi a sua opção de vida. No momento em que publica uma seleção dos seus escritos políticos desde 2005, Miguel Sousa Tavares garante que não toma calmantes para dormir mas desconfia do caminho proposto pelo governo para recuperar o país. Não aceita enquadrar-se ideologicamente, mas exclui a direita por uma questão genética. Mesmo que se tenha casado com uma mulher dessa área política e garanta estar feliz.
Se há palavra que Miguel Sousa Tavares gosta de pronunciar é «liberdade». Repete-a várias vezes numa conversa com vista para a Lisboa sobre o seu mais recente livro, A História Não Acaba Assim, um volume tirado à força do seu passado de comentador político e que reúne uma quarta parte dos seus textos publicados nos últimos sete anos.
Ziguezagueando entre o comentário político e a escrita de romances, Miguel Sousa Tavares não é o mesmo de há uma década. Abandonada a advocacia em troca do jornalismo há mais de vinte anos, o sucesso do romance Equador fê-lo entrar numa nova etapa de vida. O livro seguinte, Rio das Flores, confirmou o registo literário que o fez superar um milhão de exemplares vendidos, várias traduções e prémios, carreira literária que vai ter continuação num novo romance a ser lançando nos próximos meses. Uma narrativa da política nacional contemporânea que se inicia nos tempos pós-Revolução dos Cravos e termina trinta anos depois.
O cenário político do novo romance termina no período em que este volume de Escritos Políticos se inicia, livro que a editora da qual é sócio minoritário, o Clube do Autor, tenta publicar há mais de um ano. No entanto, a profusão deste género de edições fez que o comentador atrasasse a decisão até há bem pouco tempo, para não se ficar pelas análises sobre o período do socratismo e poder abordar já um ano de passismo. Estes ismos já o tinham levado a uma experiência anterior semelhante, com a publicação de Um Nómada no Deserto e Anos Perdidos, livros sobre o cavaquismo e o guterrismo, mesmo que a observação da realidade dos últimos sete anos o tenha obrigado a extremar a sua opinião política.
Não lhe é difícil eleger num ápice Cavaco Silva como o pior governante da democracia ou de citar Ramalho Eanes para confirmar a eterna vocação dos portugueses em adiar o país. Nem de dar a Mário Soares o melhor estatuto entre os políticos portugueses, devido à responsabilidade nas maiores mudanças no país e de nos ter dado a liberdade e a Europa. Sobre o 25 de Abril, mantém a opinião de que se tornou o dia primeiro da sua vida, porque não esquece o tempo em que ainda viveu duas décadas sempre sobre a ameaça de, recorda, «ver entrar às sete da manhã homens vestidos de preto para prenderem o pai por ter ideias políticas diferentes».
Pega numa fotografia do dia 26 de abril de 1974, que retrata o momento da libertação dos presos políticos detidos em Caxias, onde foi com o pai, Francisco Sousa Tavares, e com os históricos Jorge Sampaio, Salgado Zenha, Pereira de Moura ou Rogério Paulo. Era o «Dia inicial» como escreveria num poema a sua mãe, Sophia de Mello Breyner Andresen, logo seguido de um outro dia que o perturbou: «Quando vi cinco ou seis milhões de portugueses na rua no primeiro 1.º de Maio em liberdade fiquei surpreso por ver que os cinco mil que eram contrários ao regime se transformaram em tantos de um dia para o outro.» Não tem dificuldade em afirmar que essa conversão foi feita «com cuspo», situação que se assemelha com a realidade dos últimos tempos, em que o país confundiu liberdade com bem-estar económico: «Infelizmente, os portugueses não dão grande valor à liberdade e quando vejo concursos que elegem o Salazar como o português mais importante de sempre o que sinto é vontade de vomitar.» Explica que não é por escolherem aquele governante, mas por existirem pessoas que pensam assim como, aponta, «o fadista João Braga que há dias insultava a memória, a verdade dos factos e a dignidade das pessoas. Os joões braga deveriam ter vergonha de fazer apologia do 24 de abril ao defender uma vida em ditadura».
Quando se lhe pergunta se esse amor à liberdade não foi legado pelos pais, Miguel Sousa Tavares confessa alguma influência, porque faziam questão de manter um clima de debate constante em casa, mas que houve outro fator fundamental: «É instintivo, vem dos oito anos em que estudei nos jesuítas e onde aprendi o que é o direito de revolta salutar.» Os religiosos, confirma, ensinaram-lhe isso e outra coisa: «O ser ateu, contra os ensinamentos deles.» Depois, acrescenta, «foi toda a vida assim, a manter a minha liberdade de opinião».
Esta insistência de Miguel Sousa Tavares em falar de liberdade surpreende porque esse é um valor pouco dignificado no Portugal dos últimos tempos. Não insistiria neste tema também se não o considerasse fundamental para uma das suas principais atividades: comentador político. Nem poderia dar início à rotina do seu dia a dia se essa situação não se verificasse e lhe fosse ainda proibido ler jornais ou revistas, nacionais ou estrangeiras, como acontecia antes do 25 de Abril, já que todas as manhãs a primeira coisa que faz é dirigir-se a um café do bairro de Campo de Ourique e sentar-se a ler os jornais do dia. O hábito tem anos e decorre sempre da mesma maneira: chega ao café e senta-se no último lugar do balcão. E é bem conhecido de quem frequenta o estabelecimento, tanto assim que os clientes habituais já se acostumaram à sua presença e deixam-no em paz. Só os que não são do bairro é que vêm falar com ele, dar-lhe uma sugestão de tema para um artigo ou comentar uma prestação televisiva. Há uma outra particularidade nesta convivência: «Por delicadeza, se algum deles ocupava o "meu lugar", quando me veem chegar, levantam-se. Para os clientes, aquele lugar ao canto do balcão é o lugar do Miguel, eu já faço parte da mobília.»
Considera-se um mirone da política portuguesa porque a vê como espetador. Recusa ser ator, mesmo que as tentativas para o levarem até à arena política tenham existido sempre ao longo dos tempos. E o «cuspo» que encontra no reviralho pós-Revolução de Abril também o descobre na atualidade política. Sobre a nova classe que subiu ao poder, poucos se salvam no seu julgamento e na opinião que produz semanalmente, tanto na imprensa como na televisão. Recusa a acusação de que o inesperado direto televisivo que fez nas últimas horas antes das últimas eleições tivesse intenções políticas ou sugerisse apoio à mudança de cor política. É certo que ainda defende a crença na honestidade de Pedro Passos Coelho, mas não lhe perdoa a impreparação para o cargo, que nestes Escritos Políticos surge numa análise muito clara: «Este governo já leva um ano, tempo que dá para ter uma perceção sobre se as coisas vão correr bem ou mal. Eu acho que vão correr mal, daí a importância de se falar nisso.»
Recorda-se que à página 21, ao fazer o balanço do socratismo a 7 de janeiro de 2005, refere que «toda a responsabilidade recai neste momento da vida portuguesa sobre José Sócrates e o PS. O país está maduro para cair de podre ou para ser abanado, de alto a baixo, antes que caia». Pergunta-se se nos encontramos nesta situação de novo e a resposta é clara: «Não, agora já caiu de podre, as coisas pioraram e resta recomeçar. Quando olho para a história recente do que aconteceu em Portugal - tive de pensar bastante sobre que crónicas escolheria para este livro -, vê-se a repetição cíclica de erros e sempre com a mesma reação da opinião pública, como se um erro repetido vinte vezes pudesse estar certo à vigésima primeira.»
Aponta as promessas do PSD feitas em campanha no mês anterior às eleições e o facto de o governo as abandonar todas em menos de trinta dias: «A justificação é a mesma de sempre: a situação que encontraram era pior do que estavam à espera.» Acrescenta: «O que acho notável é que quase passado um ano sobre essa data, José Sócrates continue a ser desculpa para tudo. Notável porque recordo Pedro Passos Coelho a dizer que o PSD sabia muito bem a situação do país e que estava muito bem preparado para governar. Afinal, era mentira. Sabiam da situação mas não estavam preparados para governar, tinham algumas ideias primárias como se viu pelo livro de Passos Coelho - Mudar -, saído pouco antes das eleições, que eram utópicas e teóricas para a realidade que iam encontrar.»
Quanto ao primeiro-ministro, a sua opinião mantém-se: «É uma pessoa séria e bem intencionada, simples e honesto. Isso não é pouco, só que estava impreparado para governar, realidade que se tornou evidente logo aquando da formação de um governo com 11 ministros. Foi uma medida de pura demagogia, porque ter dois ministros com seis pastas não passa de uma brincadeira.»
O retrato que faz da ambição de Passos Coelho é severo: «Ele estava há muitos anos retirado da política e, ainda por cima, nuca tinha governado. Nem uma câmara municipal! Politicamente, foi líder da JSD, deputado e... desapareceu. Em termos civis, acabou de tirar uma licenciatura e trabalhou numa pequena empresa. Não tinha sequer conhecimento suficiente da vida normal dos portugueses para os governar. É claro que vai melhorar, mas quando se aprende a fazer cometem-se asneiras evitáveis.»
Mesmo o facto de ter recorrido a um ministro como Vítor Gaspar não serve de desculpa porque, segundo Miguel Sousa Tavares, «ninguém sabia sequer quem era o escolhido». Explica que Vítor Gaspar «fez muito sucesso ao princípio porque era um caso extraordinário. Um tipo que fala muito devagar, baixinho, que segue um código pré-formatado e funcionário da União Europeia, mas aos poucos vê-se que há muita conversa mas pouca substância». Daí que, refira, ser fundamental para o governo neste momento acreditar que o «milagre ideológico» seja «uma fórmula para chegar a algum lugar». Insiste que o governo ao afirmar que o país começa a recuperar em 2014/15 é um logro porque «o ponto de partida a partir do qual se iniciará esse processo é de uma grande destruição. A questão está em saber quantas empresas acabaram, quantos postos de trabalho se perderam, quantas famílias se dispersaram e quantos jovens foram obrigados a emigrar para que o país recupere». Um custo que, diz, «é demasiado alto para o resultado pretendido».
No seu livro, Miguel Sousa Tavares ocupa a maioria das páginas com os dois governos Sócrates. Não o desculpa dos erros na condução política nem acredita que os portugueses venham algum dia a ter pensamentos mais positivos sobre o ex-governante, a quem chama num dos textos de opinião o «fantasma de Paris» - por ter afirmado que é preciso gerir a dívida. Considera que o seu «erro foi exatamente o de não ter tido a coragem de governar contra o facilitismo geral e a antiquíssima maldição de permitir que Portugal gire à volta do Estado». Para o comentador, se a culpa recai sobre Sócrates é porque «há uma culpa coletiva que ninguém quer assumir: daqueles que iam de férias para o Nordeste Brasileiro todos os anos; dos que se gabavam de bater o recorde de mensagens de telemóvel no Natal e no fim de ano, bem como do excesso de consumo a crédito pelos cidadãos e de uma banca que impulsionou os promotores imobiliários». Não se coíbe em definir, quando este governo diz que vivemos acima das nossas possibilidades, como um período em que existiu «uma bebedeira coletiva que é muito difícil de interiorizar. Como cada um não se quer dar por culpado, arranjaram o bode expiatório ideal: José Sócrates». Do que resulta uma situação que é, no seu entender, mais preocupante: «Os portugueses já perceberam que têm de mudar de vida, mas ainda não entenderam o que é que correu mal.»
Não deixa de alargar o âmbito das razões para a nossa atual situação nos «governos de direita e nas doutrinas liberais em vigor, que nos enfiaram nesta alhada», questionando como é possível que «se tenha recorrido à mesma ideologia para resolver a situação». Por isso, a vitória do socialista francês François Hollande será «a primeira porta entreaberta no sentido de um novo caminho».
Confrontado com a acusação de que às vezes parece ser o único comentador a defender José Sócrates, Miguel Sousa Tavares é muito assertivo: «O que eu digo é que não é o único culpado.» A resposta deixa a porta aberta para se entrar no pequeno mundo dos comentadores que comandam a opinião pública nacional e a sua liberdade para dizer o que pensam: «Os outros comentadores não o fazem porque não são livres.» À questão de como se obtém, então, essa liberdade, Sousa Tavares sorri: «Não se compra nem sai no euromilhões, demora uma vida a conseguir.» Para suportar esta independência, repete o que está impresso na breve biografia numa das badanas de A História Não Acaba Assim: «Eu não pertenço a nenhum partido, religião, clube de futebol, loja maçónica, empresa, sindicato, associação de interesses, nem faço advocacia de negócios. Zero! A minha escolha foi esta, que decorre de uma decisão tomada na altura em que comecei a fazer opinião política: o mínimo que os leitores têm direito de exigir é que eu dê opinião sobre qualquer assunto e a qualquer momento.» Justifica que não fugiu ao tema dos descontos de cinquenta por cento dos supermercados Pingo Doce porque não podia ignorar ou os leitores iriam achar que teria qualquer compromisso com a Jerónimo Martins.
Quanto aos seus parceiros do restrito clube de comentadores políticos, Miguel Sousa Tavares não é suave. Sobre José Pacheco Pereira: «É o primeiro dissidente deste governo. Um militante do PSD altamente crítico, com quem concordo em muito, que já está fora do sistema e não pretende regressar à vida política. Isso dá-lhe uma liberdade de pensamento que não tinha antes.» Sobre Vasco Pulido Valente: «Está fora da realidade e os assuntos que escolhe raramente são pertinentes. Sinceramente, acho que estagnou.»
No que respeita a Marques Mendes e a Marcelo Rebelo de Sousa é mais radical: «É curioso que tenham um destaque na comunicação social que nenhum outro comentador não político tem. É claro que o Manuel Maria Carrilho, por exemplo, que não vale nada como opinion maker, também tinha imenso quando o PS era poder, porque as pessoas estão sempre à espera da dissidência. Mas é absurdo que quem está na política faça opinião política. Quanto ao Marcelo já toda a gente percebeu que potencialmente está na sua agenda vir a ser candidato à Presidência da República e a partir daí qualquer opinião que dê vai ser escrutinada sempre à luz deste enquadramento. Já Marques Mendes, quando agora disse que o PS não vai aprovar o próximo Orçamento - que é uma análise fácil de fazer e o mais provável -, cria um facto político porque é ele a afirmar, se fosse eu já não seria.»
Se acha que, apesar da sua visibilidade, o que diz são opiniões que não têm consequências imediatas no jogo político, Miguel Sousa Tavares não descarta o seu cenário: «Eu tenho um papel político, que é escrever sobre a política. Não quero é atividade política porque nunca o pretendi. Não tenho nada contra quem a exerce e até considero uma atividade nobre. Ainda bem que há gente que nos quer governar, mesmo que esteja convencido de que é o pior emprego que conheço em Portugal: é uma tarefa desgastante, mal paga e de onde raramente se sai credibilizado ou prestigiado.»
No que toca à reação pública ao seu trabalho de comentador, Miguel Sousa Tavares garante que já não se incomoda com o facto de lhe chamarem nomes na internet, tal como laudatório, execrável ou inimputável. Volta a sorrir e a perguntar se estas foram as piores que se encontrou. A razão é simples: «Deixei de ler o que dizem sobre mim na net porque gosto de ser mentalmente saudável e manter uma sanidade básica.»
A preparação dos comentários segue uma dupla rotina, caso seja para a televisão ou para o semanário. No caso da SIC, recebe a meio da tarde o alinhamento das notícias, escolhe três ou quatro assuntos sobre quais quer falar: «Esta opção obriga a estar preparado para temas que só se sabem poucas horas antes.» Quanto ao Expresso, uma página inteira e das mais bem colocadas no jornal, o modo de fazer é bastante diferente: «Antes de chegar a hora de escrever, trabalho mentalmente o texto durante dois ou três dias. Vou tomando muitas notas sobre o que vejo e oiço e na véspera já decidi o tema. No duche de quinta de manhã, começo a escrever o texto na cabeça e à tarde quando me sento a escrita é muito rápida.» Só escreve porque é pago: «Esse é o meu trabalho e não vejo problema em receber por escrever, aliás, tenho nisso muita honra.»
Sobre as crónicas n'A Bola, faz questão de recordar que o convidaram para escrever como adepto do Futebol Clube do Porto: «É isso que faço porque nunca estive ligado ao clube. Não serei isento, mas independente sim. Até porque não sou Dragão de Ouro, nem de prata ou de lata.» Instado a comentar a vitória do Porto no campeonato, só diz: «Faço o mesmo género de discurso que Cavaco fez na Assembleia da República: parecia tudo perdido mas ganhou-se. Mesmo que fosse mais importante ter chegado aos quartos de final da Liga dos Campeões, aonde o Benfica foi e Porto não.»
Entre o que ouve e vê para preparar os comentários estão também as declarações dos políticos. Não fica estupefacto com declarações dos governantes, a não ser se forem discursos de Cavaco Silva: «É para mim o político por quem tenho menos consideração em Portugal desde o 25 de Abril; pelo trajeto político, pela obra que é suposto ter feito e pelo caráter político. Portanto, do professor espero tudo e o seu contrário. É uma pena que Portugal o tenha como presidente.» Quando se contrapõe que foi reeleito pelos portugueses, responde: «Também reelegem o Dr. Jardim na Madeira. Sei que não são comparáveis, mas acho que do ponto de vista intelectual o Dr. Jardim é mais sério, mesmo que não reconduzível como governante.»
No que respeita ao governo, quando se questiona se Miguel Relvas não está a eclipsar-se, a resposta sai-lhe rápida: «Isso é a pior coisa que pode dizer-se do Miguel Relvas. Se ele ouvisse isso ficava transtornado! Pode dizer-se quando muito que está cansado, tanta coisa que faz, mas eclipsado não. Há eclipses do Sol e da Lua mas dele não. Se há coisa que toda a gente percebe é que quem manda no governo é o Relvas. Se falarmos com um embaixador estrangeiro, ele dirá a mesma coisa. Basta-lhes estarem cá oito dias para entenderem logo o que se passa no nosso governo. Afinal, quem criou o Pedro Passos Coelho foi o Miguel Relvas, que passou dois anos a trabalhar as bases do PSD, e quem faz a orientação política deste governo é ele também. É como o Pedro Silva Pereira era para o Sócrates, só que Sócrates tinha muito mais força política do que Passos Coelho.» Na passagem pelos membros do governo, ainda falta o ministro da Economia. O que pensa da proposta da internacionalização do pastel de nata feita por Álvaro? «Já se vende em tantas partes do mundo que devia era pensar no pastel de bacalhau.»
Regressando ao novo livro, Miguel Sousa Tavares revela que cortou três quartas partes do que escreveu: «Selecionei com um critério cronológico e obedecendo aos temas importantes que foram discutidos na devida altura.» Quanto ao próximo romance, o escritor revela que já está muito avançado e, pelo que conta, dificilmente não será uma provocação: «Desenrola-se nas últimas décadas, num cenário político que começa com o MFA.» Não nega que as suas opiniões políticas possam prejudicar a carreira de escritor, mas garante que isso não o trava: «Há muita gente que não gosta de mim e lê, tal como ao contrário, é o preço a pagar por ser livre. As pessoas têm obrigação de fazer a distinção entre o que se pensa politicamente e o que se escreve como ficção. Sou contra a menorização do leitor, até porque existe muita gente de direita que adora o García Márquez.» Quanto à data de publicação, coloca reticências: «Talvez para o final do ano, mas até à última página está sempre tudo em dúvida.»
A fechar a conversa, Miguel Sousa Tavares não se escusa a comentar a unanimidade em torno de Miguel Portas na hora da morte: «Surpreendeu-me muito. Fui à vigília no Palácio Galveias por amizade ao Paulo Portas, de quem sou amigo desde os tempos d'O Independente, e senti-me numa passarela social. O país precisa de heróis!»
«As discussões políticas com a Teresa são saudáveis»
Há três anos, Miguel Sousa Tavares ponderava viver metade do ano em Portugal e a outra no Brasil. Já não pensa isso: «Hoje em dia, a minha situação pessoal mudou.» Explica que se se fosse embora de Portugal, sem problemas de emprego, era virar as costas ao país numa altura errada: «Recordo bem quando toda a direita portuguesa que pôde abandonou o país em 1975. Esta não é hora para emigrar.»
Esclarece a parte política mas não a referência à «situação pessoal», que se deve ao casamento com Teresa Caeiro. Tendo já afirmado que não é de direita, pergunta-se-lhe como é que se concilia no casamento as suas posições com as de uma mulher assumidamente desse quadrante político. «Não me ofende a pergunta porque os sentimentos não têm cor política, embora, obviamente, tenha de haver alguma convergência intelectual entre as pessoas. O que acho sobre a Teresa é que é uma pessoa incrivelmente séria, devotada ao serviço público e tenho aprendido com ela o que se pode sofrer na política sem receber nada em troca. As minhas discussões políticas com a Teresa são muitíssimo saudáveis e nunca conduzem a uma zanga porque ambos respeitamos os pontos de vista do outro. Nunca lhe faço uma pergunta sobre o partido nem ela me conta nada. Sei que fica em apneia à espera dos meus comentários políticos ao sábado, até porque se no tempo do Sócrates convergíamos em quase noventa por cento nas críticas, isso hoje é mais difícil. Como gosto de discutir política, até é um privilégio estar casado com uma pessoa que tem ideias políticas diferentes das minhas. De qualquer modo, isso não é o essencial. E, no que é, estamos de acordo.»
«É abusivo virarem os meus pais contra mim»
O filho Miguel não pretende ignorar o pai Francisco Sousa Tavares ou a mãe, a poeta Sophia, mas detesta que eles sejam invocados para balizarem a sua vida ou para o criticarem: «É abusivo as pessoas pegarem no meu pai e na minha mãe e tentarem virá-los contra mim. O que é que eles sabem de como eram as minhas relações com os meus pais? Quem pode dizer, como já o fizeram, que se a minha mãe fosse viva teria vergonha de mim? Quem se atreve a dizer isto está a insultar a minha mãe e não a mim. Como é que podem descer tão baixo?»
No caso do pai, a canção que os Homens da Luta escreveram - Mudam-se os tempos, mudam-se os Tavares - no seguimento de declarações de Miguel Sousa Tavares sobre ser pouco própria para representar o país num Festival da Canção, também não deixou de irritá-lo: «O problema principal dos Homens da Luta é que eles tentaram cavalgar uma oportunidade política e diziam que, dentro do género, a sua canção se comparava às do Zeca Afonso. É claro que não deixei passar em branco, porque a demagogia é a coisa mais popular que existe e mais irresponsável e mais perigosa.»