
A nostalgia africana é comum a quase todos os portugueses que viveram nas antigas colónias. Há dois anos, a Notícias Magazinecriou uma rubrica para contar histórias dessa África que já não existe. Agora, foram editadas em livro.
Maputo era Lourenço Marques, Huambo chamava-se Nova Lisboa, mas Luanda havia de permanecer Luanda para sempre. Para os que lá viveram - e a maioria das histórias de África Eterna, o livro que a Oficina do Livro acaba de lançar a partir de textos publicados na Notícias Magazine, passam-se lá - os dias na capital angolana eram todos descontração e felicidade. Aconteceu o mesmo com os que vieram de São Tomé, Bissau, Porto Amélia (atual Pemba) ou até da África do Sul. Houve um tempo em que a história dos portugueses era calor, humidade e festa. E a verdade é que os que voltaram nunca mais esqueceram África. É desse suspiro, dessa saudade, que nasce esta narrativa.
«Este não é um livro sobre África. É um livro sobre umaÁfrica», diz o prefácio de Catarina Carvalho, diretora executiva da Notícias Magazine. «Esta é a África quotidiana, das pequenas coisas, dos cheiros e das historietas de quem lá viveu.» E voltou, num dos maiores movimentos de refugiados alguma vez contabilizados no globo. Os retornadosforam, provavelmente, a maior revolução cultural que Portugal viveu no século xx. Dois milhões aterraram em Lisboa com uma mão à frente, outra atrás e o cacimbo na memória. Trouxeram de outro continente comportamentos abertos, ombros leves, quizombas em vez de fados.
Durante quase ano e meio, entre junho de 2010 e novembro de 2011, a Notícias Magazineteve uma secção chamada Histórias de África. A ideia era recolher testemunhos de portugueses que tivessem estado em África e descobrir as grandes histórias por detrás das pequenas memórias. «Entrevistámos professores e locutores de rádio, trabalhadores do petróleo e dos diamantes, caçadores e pilotos, treinadores de futebol e marinheiros», conta a jornalista Rita Penedos Duarte, que assina quase vinte das cinquenta histórias de vida que o livro reúne. «A diversidade é tremenda, mas há pontos em comum a unir estas pessoas. A saudade de uma certa liberdade. E os laços verdadeiramente familiares que estabeleciam com outros portugueses que, não sendo do seu sangue, compensavam a ausência dos que tinham ficado na metrópole.»
Susana Torrão foi outra das colaboradoras mais frequentes da Notícias Magazine- e assina 12 perfis neste livro. Para ela, o verdadeiro espanto é «o facto de as pessoas que estiveram em África viverem numa espécie de bolha. Em Lisboa, havia um regime autoritário, nas colónias havia uma guerra terrível mas, ao mesmo tempo, as comunidades que ali viviam tinham um despojamento incrível». Luanda, como Lourenço Marques, ou Bissau, era uma festa. Cidades-fogo-de-artifício rodeadas por fogo de tiroteio.
Pegue-se logo no primeiro exemplo das Histórias de África, a rubrica da Notícias Magazineque inspirou este livro. Em Junho de 2010 as hostilidades arrancaram com Madalena Marques Pinto, que por acaso é assistente editorial da Notícias Magazine. Quando a rapariga tinha 12 anos, foi declarada rainha do Carnaval do Clube de Caçadores de Luanda. Aconteceu em 1972. «Só me apercebia da Guerra Colonial», conta ela, «quando via helicópteros ou militares na rua. De resto, não se falava no assunto e para mim, que era uma criança, era como se não existisse.» Em agosto de 2011, a Oficina do Livro contactou a jornalista Susana Lima por causa de uma outra história, a de Mário Coelho, que adiou até poder o regresso de Angola a Portugal. «Propuseram-me um livro com estas Histórias de África. Depois foi contactar a revista, os autores e avançar.»
As entrevistas somaram surpresas. E também se contam reencontros inesperados, histórias renovadas pela revelação do passado. «Publiquei um artigo sobre uma senhora que viveu em Angola. Para ilustrar a peça, usámos uma foto dela com um namorico de verão que teve nos anos 1960», lembra Helena Viegas. «Dias depois, recebi o contacto de um senhor que queria encontrar-se com a minha entrevistada. Era o tal rapaz da foto, o namorico de verão. Não se viam há anos e reencontraram-se por causa daquele texto.»
Catarina Carvalho, da Notícias Magazine, diz que esta rubrica foi uma caixa de surpresas. «Quando tivemos a ideia desta secção, sabíamos que ela tinha potencial, que podia promover uma boa participação dos leitores - que é uma das coisas mais difíceis de fazer em jornalismo. Mas não esperávamos a chuva de cartas e e-mailsde pessoas a quererem falar de África. Foi uma aproximação muito mais direta do que alguma vez tínhamos pensado.» E agora a proximidade fez-se livro.