JN

O ministro que faz sombra

Por João Céu e Silva
O ministro que faz sombra

É o ministro sobre quem dizem querer ser o próximo candidato da direita à Presidência da República. Evita a polémica como nenhum outro governante e prefere correr o mundo a «vender» Portugal em vez de se comprometer com a austeridade exagerada. Ao cumprir um ano como parceiro de coligação do governo PSD/CDS, Paulo Portas dá uma entrevista exclusiva à Notícias Magazine, na qual não evita responder às grandes questões sobre a relação com Cavaco Silva, Passos Coelho, Vítor Gaspar e os ministros que eclipsou com a sua diplomacia económica. Um conservador que afirma cultivar o jogo em equipa mas que só aparece na fotografia oficial quando é obrigado

Paulo Portas sai do hotel de jeans e polo verde de mangas curtas. É sinal de que a visita oficial à República Popular da China terminou e que o código de vestuário ficou aliviado de fatos e gravatas. Pela frente, antes das quinze horas de voo até Lisboa, tem a travessia do Rio das Pérolas no jet-foil que liga Macau ao aeroporto de Hong Kong. São 40 minutos sobre um mar escuro. Paulo Portas será o único membro da comitiva que teve tempo para retemperar forças com um duche e perfumar-se: chega em último à fila de carros que esperam pelo ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros.  

O tom de voz é mais baixo, menos oficial e nota-se que está relaxado. Não que os dias anteriores o enervassem, afinal o parceiro de coligação que permitiu à direita sentar-se no poder está como peixe na água no cargo de ministro e adora o stress da política. Ao longo de um dia de múltiplos encontros muda de fato pelo menos três vezes, com as gravatas a condizer. Mas também se pode vê-lo de calções às dez a noite no hall do hotel de Pequim, apanhado pelo assessor para afinar a agenda do dia seguinte enquanto se encaminhava para uma sessão no ginásio. Dizem que a mãe tem alguma mão nos bastidores deste guarda-roupa, mas o estilo é de quem faz a sua própria escolha, ou já teria sido proibido de usar as camisas brancas, desabotoadas até ao meio do peito, que só devido ao porte aristocrático não fica popularucho.  

Mal o jet-foil abandona o cais macaense, o assessor Miguel Guedes levanta-se do seu lugar e chama o jornalista da Notícias Magazine para a entrevista. «É agora!», diz com urgência. Portas está no espaço da primeira classe que lhe foi reservado e que o mantém isolado dos restantes passageiros curiosos. Por muito que as ordens de Passos Coelho sejam de evitar privilégios, houve várias etapas nestes oito dias em que o ministro a isso foi obrigado. Não passa pela cabeça das autoridades chinesas colocarem o VIP ocidental no meio do povo. Os seguranças destacados pela República da China não o largam 24 horas por dia, nem quando vai à casa de banho! O maior problema destas visitas oficiais são os momentos em que lhe apetece um cigarro e é proibido dar gosto ao vício. Na China as coisas são mais fáceis porque, mesmo não havendo espaço para fumadores, os funcionários trazem logo um cinzeiro mal veem o ministro pegar no maço.  

O ministro Paulo Portas não tem pressa em dar início à entrevista. Aliás, raramente tem urgência em chegar a horas e só agora, porque tem as obrigações de governante, é que prescinde de ser atrasado crónico. Mesmo assim, na China, onde um atraso protocolar de um minuto cria incidentes, o ministro ainda provocou várias dores de cabeça ao protocolo com as suas demoras em aparecer e entrar dentro dos carros oficiais liderados por batedores que percorreram as avenidas de Xangai vazias de trânsito para Portas e a comitiva. Diga-se que todos os carros em que o ministro andou tinham sempre na matrícula os números que os chineses creem dar sorte: 8 ou 9. Superstição alargada aos andares dos hotéis, onde nunca existem os pisos 4 ou 13. 

Lá mais para a frente, quando as perguntas apontarem para a política nacional, o ministro de Estado dirá que não responde. Invoca a experiência de já ter sido jornalista e de saber como se faz a cama ao entrevistado. Fará dois apartes: «Estou muito contidinho» e «Não vale a pena que não darei qualquer título forte». Opta por referir como os portugueses têm visões distorcidas da China, apontando o exemplo do Tibete pelo modo como o Dalai Lama o promove ou até pela influência da leitura da aventura do Tintim na formação de uma opinião. Enquanto prova bocados de bolos visivelmente calóricos oferecidos pela solícita empregada chinesa e comenta a falta de tempo para ir ao ginásio tirar o acrescento à figura de tanta comida de avião. As cores e a filigrana dos cremes ainda o fazem dizer: «Será que o sabor é tão bom como o aspeto?» Portas hesita perante o pecado porque a dieta a que se obriga eliminou certos prazeres e já não come panados e alimentos com açúcar. Mesmo assim, dáuma garfada no bolo. Nos banquetes oficiais ainda se pode defender deixando no prato alguma da comida, como fez há poucas horas, no jantar que lhe foi oferecido na Torre de Macau, onde o bolo de chocolate ficou no prato. 

Portas também passa fome nos banquetes porque faz questão de ser uma espécie de anfitrião na sua festa, e senta-se em todas as mesas para avaliar o sucesso da missão. E enquanto refere os valores da portugalidade, Portas não evita a utilização de muitos conceitos estrangeiros. A relação entre os dois países deve ser win/win (ganham ambos) e ter um ritmo step by step (passo a passo). Os chineses retribuem-lhe na mesma moeda e em vez de lhe darem as boas-vindas em chinês escrevem nos placardswarmwelcome ou bem-vindos.  

É verdade, Paulo Portas recusa-se a comentar no estrangeiro a política nacional. Nem sequer em off. Parece que vão longe os tempos em que se faziam notícias e criavam polémicas com as afirmações do líder político, mesmo que o seu rosto deixe transparecer que se divertiria a comentar os casos da coligação em que se tornou ministro de Estado por conta de tanto voto que lhe foi dado. Uma das poucas exceções verificou-se nos últimos dias, quando a bomba-relógio que é a manutenção de Miguel Relvas como braço político de Passos Coelho dava mostras de explodir, mesmo assim com contornos de diplomacia, ao pedir contenção ao primeiro-ministro nas declarações públicas. 

Para Paulo Portas os tempos ainda são de se manter na sombra, longe dos holofotes da crise que queimam em lume brando os seus colegas de governo. Prefere assumir-se como comandante da nau que descobre novos mercados para as exportações. O que gosta de comentar agora é o enorme campo da diplomacia diplomática, repetindo exaustivamente que os empresários representam atualmente para Portugal o papel dos navegadores dos Descobrimentos ou que o diálogo é melhor política do que o confronto. A alta temperatura na China permite-lhe até fazer um trocadilho com a época de ouro portuguesa, dizendo que o calor faz o papel do Velho do Restelo. Mesmo assim põe a comitiva a percorrer metade de uma caótica Xangai só para ir comer um cachorro quente à primeira das 23 lojas que os lisboetas do Largo do Rato, Tomás Fróis e Luís Cancela, pretendem abrir naquela cidade. «É sobre isto que devemos falar!», diz, enquanto saboreia a sopa picante servida na loja portuguesa chamada It"s Hot. Quer saber como vai o negócio, se os 140 mil alunos que estudam nas faculdades das redondezas ali vêm e se os funcionários dos escritórios desta espécie de Tagus Park já descobriram o made in Portugal. Faz questão de tirar uma fotografia com os cozinheiros e as empregadas orientais. Pelo meio recorda que só em 1890 é que o país teve um ministro dos Negócios Estrangeiros na China e cita Confúcio: «Tudo tem a sua beleza mas nem todos a conseguem ver.» Também brinca com a pouco recomendável tradução do nome de Portugal para chinês: «pú táo ya».  

O negociador  

Paulo Portas saboreia o doce gelatinoso oferecido no jet-foil enquanto se dispara a primeira pergunta, precisamente se a visita oficial à China confirma o papel fundamental da diplomacia económica. «Sendo a China o potentado económico que hoje é; face aos investimentos que fez em Portugal no ano passado; havendo um aumento tão significativo das exportações portuguesas para este país e estando a internacionalização da economia portuguesa a precisar de uma enorme flexibilidade, acho que a visita foi do ponto de vista político bem sucedida e, de um ponto de vista económico, manifestamente bem sucedida.» 

Resposta politicamente correta, à medida da pergunta. Segue-se então a provocação. Nem toda a gente gosta deste seu protagonismo, até se escrevem artigos que dizem que quer passar a perna a Passos Coelho com esta via da diplomacia económica. Portas sorri e mantém o mesmo tom de voz. «Eu não me preocupo muito com os reparos que vão de um extremo ao outro e que, normalmente, não são muito razoáveis. É evidente que o ministro dos Negócios Estrangeiros, cuja primeira responsabilidade é melhorar a perceção internacional de Portugal e a segunda é fazer diplomacia económica consecutiva e consequente, tem de passar uma parte do tempo fora. Tomara eu poder não o fazer.» Note-se que Portas raramente passa uma semana em Portugal e até estranha quando isso acontece, como aconteceu na semana do debate da Nação

«A única coisa que me interessa é saber se as autoridades com quem falo, em nome de Portugal, recebem bem a nossa mensagem e se ficam abertos caminhos de cooperação entre países. Se as empresas que vêm nas delegações conseguem transformar os contactos em contratos e os contratos em negócios. O mais importante destas viagens é o seguimento que se faz delas. Eu sou muito preocupado nessa matéria. O AICEP faz uma avaliação das viagens e procura ver o que podia ter corrido melhor. Eu tenho para mim que há sempre um conjunto de áreas económicas e empresariais que ficam reforçadas nestas comitivas, até porque faço também o meu próprio seguimento.»

A resposta confirma o que um dos empresários que integram a delegação que visitou a China já dissera. Para Vasco Pereira Coutinho, essa é a diferença entre o ministro Portas e os que o antecederam. «A diplomacia económica é boa para os empresários porque abre portas que sem uma presença interessada do governo se manteriam fechadas.» Até porque, explica o empresário com vários interesses na China, sem o apoio do Partido Comunista Chinês não há viabilidade para as empresas portuguesas. «Se o partido disser acabou, é o fim das nossas relações comerciais.»

Não por acaso na agenda do ministro Portas esteve um encontro com o responsável pelo Gabinete Internacional do Partido Comunista Chinês (PCC), Wang Juarui. Ou o facto de o partido de que é líder ter sido convidado informalmente a estabelecer relações de amizade com o PCC antes da viagem, condição fundamental para que fosse recebido pelo governante e para que as relações entre os dois governos se cimentassem ainda por via de encontros com o vice-primeiro-ministro, o ministro do Comércio e o seu homólogo chinês. A coincidência de o edifício do PCC ficar perto da Praça Tiananmen não é tema de conversa para Paulo Portas, que prefere aproveitar bem a etapa pagã incluída no programa oficial: a visita ao Templo do Céu. É aí que os visitantes costumam iniciar as suas visitas a Pequim, orando para que tudo corra bem. Em vez de se recolher em preces, o ministro corre - metade da visita oficial é feita em passo de corrida atrás dele - para ver o amplo espaço por inteiro. Vai absorvendo as informações da guia e repete-as como se fossem do seu património cultural aos membros da comitiva que ainda desconhecem os pormenores que já lhe foram revelados. Há igualdade na relação China/Portugal? Para o ministro os números são claros: «A China é um país de 1300 milhões de pessoas enquanto Portugal tem dez milhões, mesmo que seja uma nação de 15 milhões - em tempos de crise os portugueses que estão no exterior são um suplemento de alma e uma força organizada de defesa da reputação do país. O que tem de acontecer é as relações serem mutuamente vantajosas, até porque a situação que um mercado destes nos proporciona é de um enorme potencial. É preciso medir o equilíbrio do ponto de vista do que são as nossas prioridades e das que são as deles, fazendo uma gestão vantajosa para ambos nos campos em que for possível.»Quando faz contas à população daquele país, Portas antevê logo os negócios possíveis. Como é o caso da intenção da empresa State Grid, que adquiriu parte da REN, em oferecer uma ou duas garrafas de vinho português a cada um dos seus empregados: «Se isso acontecer, como a empresa tem um milhão e 300 mil funcionários, Portugal exportaria logo uns três milhões de garrafas!»

A relação entre Portugal e a China é explicada por um outro empresário que vai na comitiva, que deseja manter o anonimato. E que distingue o que Paulo Portas não pode destrinçar sem ser indelicado para com os anfitriões: «Os chineses estão a medir-nos como parceiros.» A escolha de Portugal como parceiro estratégico da China não acontece por acaso: «Precisam de ter uma parceria que seja de fácil miscigenação porque têm dificuldades no relacionamento com as culturas diferente. É óbvio que se tiverem portugueses numa administração partilhada com angolanos, terão em nós um apoio que os beneficia. E isto é bom para a economia portuguesa e ótimo para a posição de Portugal perante a Europa. Os chineses não precisam de nós como veículo para a sua expansão planetária, dá-lhes é jeito ter os portugueses no jogo.»

O protagonismo

Ninguém teria dúvidas em antecipar o desejo do líder do CDS em estar nos gabinetes onde se cozinha a política externa de Portugal e muitas vezes se pressiona a interna - não esquecendo que, no passado recente, foi o ministro Luís Amado quem atirou, das Necessidades, as setas mais venenosas em direção a São Bento.

Os empresários reconhecem que Portas é mais pragmático em questões de economia e menos preocupado com o papel político. O próprio nega. «A diferença é que dou valor à diplomacia económica, o que já muitos diplomatas faziam, mas com um grau de prioridade máxima. Dei-lhe esse estatuto articulando-me com o ministro da Economia, porque tenho a responsabilidade pela agência do investimento e do comércio externo. Nas embaixadas, 70% delas já têm planos de negócios aprovados. E esta é uma experiência totalmente inovadora e vantajosa porque em muitos mercados importantes para Portugal não é apenas a lei do mercado que funciona. E se as empresas portuguesas não tiverem acesso ao contacto político em igualdade de circunstâncias saem perdedoras. Isto faz toda a diferença. Só contrariaremos uma situação dificílima de endividamento e de dependência do exterior se conseguirmos ancorar a nossa economia nas exportações.»

Essa intromissão nas águas de outros ministérios, como é o caso do da Economia, tem sido polémica. «Articulo-me com muita frequência com os outros ministérios, a começar pelo da Economia», responde o ministro. «Há muito trabalho em conjunto feito pela secretaria de Estado do Turismo, que depende do ministro da Economia, e na área dos produtos agroalimentares, com o Ministério da Agricultura! Não é possível fazer diplomacia económica isolado do resto dos departamentos do governo, pelo contrário, ela só é eficiente se for conjugada.»

Em ambos os casos há, no entanto, uma afinidade ideológica, já que tanto a secretária de Estado do Turismo, Cecília Meireles, como a ministra da Agricultura, Assunção Cristas, são membros do CDS. «Nunca faço essa confusão, até porque sou muito institucionalista. Uma coisa são as minhas funções de partido, que não têm absolutamente nada a ver com o Estado, e outra as funções como ministro dos Negócios Estrangeiros. Nestas, tenho de ter uma relação excelente com todas as instituições e departamentos, para além de existir um dever de colaboração ativo com os outros ministérios e autoridades cujo pensamento político é diferente do meu. Se quero promover ativos imobiliários junto de investidores estrangeiros, tenho de falar com presidentes de câmara que provavelmente não pensam como eu! Mas, como é o meu dever, faço-o com todo o gosto. Sou uma pessoa bastante enérgica e acho que a diplomacia económica precisa desse suplemento de energia.»

Mas não será por acaso que no que toca a relações dentro do governo, para além os «seus» ministros, Pedro Mota Soares e Assunção Cristas, o independente Vítor Gaspar seja dos que com quem mantém uma relação mais curial. «Eu não consigo imaginar um ministro das Finanças que não seja rigoroso, porque o dever dele é ser assim. Faz parte da job description. Nós somos ambos ministros de Estado, o que significa que temos uma responsabilidade acrescida, e eu procuro uma articulação bilateral e global com o ministro das Finanças que signifique para assuntos que são importantes para o país a máxima eficácia. Acresce que o ministro das Finanças tem duas qualidades que acho muito importantes quando se exercem responsabilidades muito difíceis: inteligência e sentido de humor.»

A coligação

O ministro considera que não fez política de terra queimada sobre as promessas eleitorais que o levaram até ao governo. Pede para se voltar um ano atrás e ver que fez uma campanha eleitoral «extraordinariamente realista». Como o memorando de entendimento estava assinado, acrescenta, «eu disse mil vezes na campanha eleitoral que quem propusesse nestas circunstâncias, por exemplo, antes do período de assistência financeira determinadas reduções da carga fiscal estava a enganar as pessoas». Considera que «cumprido esse programa no essencial, temos então que preparar o país do ponto de vista institucional e ter o maior cuidado com aquilo a que chamo a ética social da austeridade, protegendo as pessoas mais vulneráveis e mais pobres, bem como ter a preocupação dominante da equidade, ou seja, o esforço maior tem de ser feito pelo lado da despesa e não da receita. Não pode ser a sociedade a financiar o Estado, tem de ser o Estado a disciplinar-se. Em terceiro lugar, o Estado deve preocupar-se em dar o exemplo.»

Portas afirma procurar seguir estes princípios mas quando se lhe contrapõe que o PSD não o fez, a resposta é sucinta: «Isso foi julgado pelos portugueses há um ano. Eu gostaria de ter tido mais força mas não a tive. Procuro, dentro da que me deram, exercer uma boa influência geral. Sou muito preocupado com o cumprimento de deveres e padrões de eficácia, de competência e de integridade naqueles que, em nome do CDS, exercem responsabilidades.» Nas próximas eleições autárquicas «serão feitas listas próprias e de coligação que as estruturas do partido considerem melhores do ponto de vista do desempenho local e do interesse de um determinado município.»

Sobre a coligação governativa, tendo em conta as diferenças ideológicas com Passos Coelho, Paulo Portas garante que elas são conciliáveis: «Uma coligação é um exercício de compromisso. Os objetivos e os valores em comum têm de ser mais importantes do que as diferenças.» Explica, no entanto, que uma coligação é «um exercício de compromisso e não uma fusão, ou seja, significa que cada qual põe em conjunto capacidades para objetivos que são mais importantes e que mantém a sua identidade e personalidade». Confrontado com a realidade histórica de em coligações com o PSD o CDS ser abafado, Portas refere: «O país tem uma emergência para resolver - e está mais perto de a resolver do que há um ano -, que é um problema de viabilidade financeira. Nós fomos chamados a governar o país num momento em que a principal questão que se coloca aos decisores políticos é saber se conseguimos garantir a viabilidade financeira de Portugal! E, neste cenário, eu tenho de estar absolutamente concentrado e focado no que são deveres institucionais e em dar o melhor que posso nesta circunstância. Desde a primeira vez em que fui ao Parlamento que digo que a minha prioridade é fazer tudo o que puder para melhorar a perceção internacional de Portugal.»

A União Europeia

O dirigente do CDS já colocou uma pedra sobre algumas das suas anteriores posições sobre a União Europeia. Quando se lhe diz que está agora mais europeísta do que nunca, aproveita para retocar a fotografia. «Nessa matéria, a chave de leitura no CDS é o realismo. O partido fez a sua evolução em matéria de política europeia em 2000, senão ficava fora da realidade quando a moeda única se tornou um facto. Essa evolução levou a um debate interno dentro do partido pelo que não existe esse conceito do «está agora». Quantas vezes complicaram títulos nos jornais a dizerem que eu era «eurorrealista»! Só posso dizer é que isso já foi há dez anos e que no entretanto houve uma evolução do pensamento europeu, tal como houve uma grande evolução da Europa!»

Para o ministro que tutela a diplomacia, a situação da União Europeia é crítica. «É evidente e consensual à direita, ao centro e à esquerda que não é possível ter a mesma moeda sem existir uma coordenação de políticas económicas. Todos ganharam consciência com esta crise prolongada na Europa de que é preciso dar respostas mais robustas à crise financeira. Isso significa mais Europa e não menos! Do que a Europa tem falta neste momento é de respostas - mesmo que as esteja a construir sucessivamente - no plano da união bancária e monetária, da coordenação económica e de integração política, para que seja mais forte.»

Quando se repetem as acusações de incapacidade de Durão Barroso para conduzir estas reformas, o ministro Paulo Portas considera que se «o problema residisse só numa pessoa, estava a Europa muito feliz». Aponta a China como paradigma da nova realidade económica planetária como solução: «Olhe-se para a Ásia e o que a pujança desta economia está a fazer para mudar a balança de poder no mundo. É a alteração dos vencedores económicos e se a Europa não toma cuidado fica impossibilitada de ser competitiva!»

Ao lembrar-se que a colagem de Portugal às políticas da chanceler Angela Merkel já vêm do tempo do ex-primeiro-ministro José Sócrates e que se mantém com Passos Coelho, Paulo Portas responde que essa é uma leitura muito redutora da situação: «Temos um programa de assistência que é um compromisso internacional subscrito pelo Estado português. Eu estava na oposição quando foi subscrito, mas apoiei-o por patriotismo, daí que não seja um problema estar ou deixar de estar com a senhora Merkel. Os mandatos políticos são a coisa mais provisória que existe mas a palavra dos estados não o é. Não preciso de julgar o comportamento de nenhum outro país para valorizar a forma como os portugueses têm agido, porque a atitude que escolheram foi completamente diferente da de outros! Quando se dizia que o FMI e a União Europeia iriam precisar de um caso de sucesso, ele pode ser Portugal. A verdade é que a visão do mundo sobre nós já não nos relaciona com a Grécia.»

Paulo Portas discorda quando se carateriza como demasiado cordato o comportamento dos portugueses: «Não! Os portugueses têm um enorme bom senso e sabem que alguma coisa deve ter acontecido de muito grave com o país para que fosse preciso bater à porta dos credores a semanas de não haver dinheiro para pagar pensões nem salários. É um comportamento próprio de uma nação antiga, que reflete o facto de que quando está em causa a nossa bandeira e a reputação é muito pouco importante saber de que partido é que somos.»

Não será coincidência estas palavras regressarem à entrevista, é que nos dias da visita oficial à China, Paulo Portas ouviu-as de três altos responsáveis naquele país. Tanto o vice-primeiro-ministro Li Keqiang, como o seu homólogo Yang Jiechi e o responsável do PCC fizeram questão de destacar o cumprimento de Portugal no plano de ajustamento e de confrontar o esforço reformista português como exemplo para a União Europeia.

O presidente

Pode dizer-se que a relação entre Paulo Portas e o Presidente da República é um assunto tabu. Vêm de longe as mágoas de Cavaco Silva em relação ao antigo diretor de O Independente, devido às sucessivas primeiras páginas do jornal sobre os governos do atual presidente. Pergunta-se ao ministro se concorda com as várias críticas públicas de Cavaco Silva à falta de equidade na austeridade exercida pelo governo PSD/CDS, situação que o recente acórdão do Tribunal Constitucional veio reavivar e que o próprio ministro também corroborou ao afirmar-se contra mais cortes.

Paulo Portas trata a questão com pinças e não há balanço marítimo do jet-foil que o faça desviar-se da rota: «O presidente da República tem sido muito claro na defesa do cumprimento do memorando de entendimento. O país tem presidente da República, governo, Assembleia da República e tribunais, por isso o melhor a fazer é jogo de equipa - nisso sou o primeiro - por que é o País que está em causa.» Insiste-se nas diferenças entre as afirmações do presidente e a atitude do governo, caraterizando-as como sendo fruto de pensamentos diferentes para gerações diferentes, ao que responde: «Sou totalmente favorável à colaboração institucional entre governo e Presidente da República porque ninguém substitui a esfera de ninguém. É preciso respeito pelas competências orgânicas de cada qual e, no caso da política, ainda mais porque obviamente o presidente da República é bastante relevante nesta matéria.»

Ainda se tenta questionar o papel do PS nesta legislatura mas não há seguimento: «Estamos no estrangeiro.» Segue-se outra pergunta que ficará por responder, a de se na primeira remodelação deste governo, o CDS irá ganhar mais peso... «Estamos no estrangeiro», repete. As máximas de Paulo Portas são «vamos falar disso em Lisboa». Confirma-se que veio ao de cima o estatuto de antigo jornalista que, como explica a ex-advogada do ex-diretor de O Independente, a amiga e deputada do CDS, Teresa Caeiro, sobre o atual ministro de Estado: «Tem uma visão estratégica muito apurada, uma capacidade de ver muito à frente e bastante perspicácia para distinguir o essencial do acessório, para além de possuir uma capacidade de liderança que mobiliza todos os que o rodeiam.» Caeiro ainda se recorda dos tempos em que o grupo parlamentar do CDS cabia num táxi e que todos faziam de tudo no partido para dar conta do recado: «É um sacerdócio trabalhar com ele porque pode telefonar a meio da madrugada para afinar um pormenor ou esclarecer uma dúvida, mas é gratificante.»

Para finalizar o capítulo Presidência da República, é impossível contornar o rumor que circula na política portuguesa cada vez com mais insistência. O de que vai ser candidato a presidente da República? A resposta vem com o sorriso mais aberto de toda a entrevista: «Ai minha nossa senhora! Logo aqui no rio das Pérolas... O máximo que posso dizer é que vou ser candidato a camponês no rio das Pérolas...» Logo acrescenta, então com um ar muito sério: «Estou a brincar. Não é mesmo nisso que estou a pensar!»

Uma coisa é certa, houve quem contabilizasse as viagens oficiais de Paulo Portas neste primeiro ano no governo e se lembrasse de uma anedota sobre Mário Soares e Deus. Em que Este se queixava de chegar a qualquer lado sempre depois de o Presidente da República lá ter estado. Refira-se que quando Passos Coelho for à China em 2015, Paulo Portas já lá esteve...

As nossas Revistas

Semanalmente o JN publica as revistas Notícias TV e Notícias Magazine. Acompanhe aqui os seus principais destaques

Notícias TV
Notícias TV às Sextas
Notícias Magazine
Aos Domingos nas bancas
Multimédia
Blogues
Inquérito

Programas

Omar




Continente Uva d'Ouro - JN 300x100

Cofidis 300x100 21-26 julho
Últimas
+Lidas
+Comentadas
+Pesquisadas
 
 

Serviços


TEMPO Dados fornecidos por Wunderground
  • 24ºC
  • 16ºC
  • HOJE
  • 22ºC
  • 17ºC
  • AMANHÃ

 

destaque conselhoeditorial
banner Barómetro Tomar o pulso ao país
Economia Social


Controlinveste Conteúdos, S.A. Todos os direitos reservados
Termos de Uso e Política de Privacidade |  Ficha Técnica |  Quem Somos |  Contactos |  Webmaster This website is ACAP-enabled