
Fernando Mendes fala da sua infância, da influência que o pai, o ator Vítor Mendes, teve na sua carreira ("foi uma cunha que tive"), das dificuldades por que passou quando era novo e de como vingou na televisão tornando-se líder de audiências com 'O Preço Certo', RTP1. O ator, que não se considera apresentador, admite que tem uma pessoa especial na sua vida e que tem medo que num futuro próximo fique sem trabalho.
Estreou-se no teatro ainda jovem. Qual foi a quota de influência de seu pai na longa carreira que tem hoje?
Teve toda a influência. Se o meu pai não fosse ator, eu, se calhar, também não era. Ele habituou-nos a todos, a mim e aos meus irmãos, a ir ver teatro de revista, que é o que faço desde que nasci. Íamos para o Parque Mayer desde miúdos. Os anos foram passando, todos os domingos íamos à matinée, porque estudávamos durante a semana. Nós até gostávamos de nos deitar tarde, mas não podia ser, e começámos a gostar. A razão de estar aqui hoje é a cunha do meu pai, que era ator. Sem outras palavras, é a chamada cunha.
É uma referência para si?
É, completamente. Infelizmente, perdi-o muito cedo, tenho saudades, aprendi muito com ele, como pai e como ator. Se ele não fosse ator, não estava aqui, se ele fosse polícia, se calhar eu era polícia...
Em que momentos pensa mais nele?
Este espetáculo que estou a fazer agora, o Mendes.come, tem que ver com a minha carreira e o final da peça retrata a minha infância. Passam imagens minhas, da minha mãe, do meu pai e aí lembro-me todos os dias, porque faço o espetáculo todos os dias. No Norte do País, é engraçado quando aparece a imagem dele, as pessoas aplaudem muito. Ele era muito querido no Norte.
É um momento de emoção para si?
É. Quando estou a vestir-me para esta parte final, ainda hoje me arrepio. No dia a dia lembro--me quando passo em sítios onde estivemos juntos...
Estreou-se em palco seis meses depois de ele morrer. Tem pena que ele não o tenha visto seguir a arte que tão bem sabia fazer?
Claro que tenho. Eu disse-lhe que ia ser ator numa altura em que ele já estava doente e não nos passava pela cabeça que ia morrer tão cedo. Ficou num misto de emoções: contente mas ao mesmo tempo preocupado, porque naquela altura não era fácil ser ator, não havia muita televisão, os ordenados eram baixos. O meu pai não ganhava muito, e sustentar quatro filhos não era fácil... Houve as duas emoções, a alegria de eu continuar uma carreira começada por ele e, ao mesmo tempo, preocupação.
E ele tinha razão?
Não foi fácil ao princípio.
Quando sentiu que já não era o filho de Vítor Mendes e sim o Fernando Mendes?
Durante cinco anos fui o filho do Vítor Mendes. Então quando me estreei era mesmo o filho, não me saí muito bem. Tive umas palmazitas, e o público tinha saudades... mas era o filho dele. Passando cinco anos, já tinha mais experiência. O teatro de revista é uma escola muito grande e tive a sorte de ter trabalhado com grandes atores, a maior parte já não está viva.
Quem foram?
Henrique Santana, Francisco Nicholson... Eles perceberam que eu tinha alguma coisa para dar e puxaram muito por mim. Isso foi muito importante. Ainda fiz umas coisinhas na televisão, mas durante cinco anos não era o Fernando Mendes, era o filho do Vítor Mendes.
O que aprendeu com o seu pai?
Antigamente, não havia muito diálogo entre pais e filhos como há agora. Mas nós aprendemos sempre a boa educação, e aprendemos a viver com o que tínhamos. Lá por os nossos amigos terem dinheiro, roupas caras, piscina, para ele o mais importante era ter dinheiro para almoçar, jantar e para nos educar. Tento incutir isso aos meus filhos. Não havia mesmo conversas sobre sexo, drogas... nada.
Passou dificuldades?
Acredito que ele sim. Ele não nos disse, mas éramos quatro irmãos, o meu pai não ganhava nada de especial, a minha mãe também não ganhava muito. Para nos dar de comer, roupa e pagar a escola, percebeu-se que era um período difícil da vida dele. Infelizmente, ele morreu quando estava a haver mais trabalho, a televisão estava a ter mais projeção. Mas nunca nos faltou nada. Ele tinha muitos amigos que tinham fábricas e, de vez em quando, ia buscar roupas para nós. E nós tínhamos de as vestir mesmo que não gostássemos.
"O pior da infância foi a escola"
Que recordações tem da sua infância?
A minha infância foi ótima. Agora olho para a infância de hoje e vejo tudo agarrado aos computadores, telemóveis... Eu jogava ao berlinde. Como vivia num bairro na Parede, jogava futebol todos os dias entre os prédios e até partíamos os vidros.
Ainda pensou seguir a carreira de futebolista?
Houve uma altura que pensei. Mas depois cansava-me muito (risos). Isto foi na altura da novela Gabriela. Os meus amigos iam lá para casa porque nós não podíamos sair à noite. Desde os 10 aos 16 anos a minha vida era sempre essa. Andava de bicicleta. Nós tínhamos uma bicicleta só para os quatro irmãos, tínhamos de arranjar forma de andarmos todos, era como os antibióticos, de tantas em tantas horas era a minha vez. Não fazíamos férias para fora, íamos para a Parede. Quando não tínhamos dinheiro, usávamos Coca-Cola (risos). Quando estava fresca, bebíamos, quando estava quente púnhamos no corpo para bronzear. Foi giro.
Era bom aluno?
Não fui nada de especial. Estudei em Paço de Arcos no primeiro ano, na segunda classe fui para a Parede e lá, tive uma professora que odiei. Ainda é viva porque os bons morrem sempre primeiro. Ela também não gostava muito de mim, levava reguadas, ficava de castigo. Em vez de aprender, acho que desaprendi. E anda hoje não sou grande fã da escola.
Chumbou algum ano?
Chumbei na quarta classe, no segundo ano do ciclo e tenho o oitavo ano mal tirado porque também achei que não tinha jeito para aquilo e por isso não valia a pena continuar. Infelizmente, o meu pai morreu e depois surgiu a oportunidade de ir trabalhar. O pior que tive na infância foi mesmo a escola.
Era uma criança sossegada ou, pelo contrário, fez muitos cabelos brancos aos seus pais?
Era sossegadíssimo. Dizia muitas asneiras a jogar à bola porque também ouvíamos os outros a dizer. Mas fora isso era o menino da mamã, com medo de tudo. E fui assim durante muito tempo. Mesmo depois de me estrear, estava sempre doido que aquilo acabasse para apanhar o comboio da uma e meia. Hoje é impensável, quando acabo um espetáculo vou a alguma lado beber um copo para descontrair. Mas sempre fui calminho.
Lembra-se do seu primeiro ordenado?
Lembro. Eram nove contos (45 euros). Mas, como era o filho do Vítor Mendes, disseram-me que de vez em quando me davam 13. Até hoje estou para receber os 13 (risos). Mas eu não me estreei logo como ator. Eu era ajudante de contra-regra, trabalhei nos bastidores do teatro durante muito tempo. Eu tinha 17 anos, fui para o teatro a 3 de setembro e subi ao palco no dia 15. Até esse dia pregava pregos, engraxava sapatos, ia ao Bairro Alto muitas vezes comprar tintas, pincéis, parafusos. A única vez que faltei foi por ter muitas bolhas nos pés ao ponto de não conseguir andar. Eles deram-me a oportunidade de à noite ser ator. Mas não deixei de trabalhar nos bastidores.
E a sua mãe o que fazia?
Nessa altura estava reformada, tinha trabalhado na Singer. Eu também lá trabalhei, um mês, na secção de impressos.
"Sempre quis ser um ator popular"
Está há dois anos com o Mendes.come. É a prova de que continua a ser acarinhado pelo público?
Sim. Eu devia ter mudado a peça, mas gosto muito dela. Andamos pelo País inteiro há dois anos e achei que devia acabá-la num sítio onde há muita gente. E o Algarve costuma ter muita gente, principalmente nesta época. Em agosto acabo. Não vou de férias porque começo O Preço Certo.
Em tempos de crise não se queixa com falta de trabalho...
Felizmente sou daqueles atores que têm trabalho. O Mendes.come é uma aposta minha e hoje sente-se que é um risco. As pessoas gostam, gostam de mim, abordam-me na rua, mas se não têm dinheiro para a casa, para o carro e para a comida, muito menos têm para o teatro.
Já nota menos pessoas nas salas?
Já se nota menos gente, mas aqui nesta sala. Em Lisboa e no Porto, não.
Qual é o segredo para tanto tempo de espetáculo? Não há muitos espetáculos que fiquem tanto tempo em digressão.
É ter a sorte de ter um programa diário, O Preço Certo, em que posso também divulgar o que vou fazendo. Este é um país pequeno, mas não é assim tão pequeno. Para o ano, quero montar outro espetáculo do mesmo género. Somos 15 pessoas a trabalhar, são poucas, mas ao mesmo tempo são muitas porque já pesa.
Já sentiu necessidade de reduzir pessoas?
Ainda não, mas no futuro vamos ver... Mas espero que não.
É um bom patrão?
Sou um gajo porreiro. Gosto de os tratar bem a todos os níveis. Agora estamos aqui no Algarve, temos a ajuda do hotel Interpass, no Vau, Portimão, temos o restaurante Dona Barca, que também é muito bom. Isso para mim é importante, além de serem bem tratados. Tenho uma equipa ótima e gosto muito deles.
E como o vamos ver no próximo espetáculo?
Com todo o respeito que tenho pelos novos autores, acho que vou voltar às coisas que já fiz. Não gosto muito de falar de política nos meus espetáculos. Se bem que a revista vive muito disso, da crítica, da política, mas eu não gosto muito de entrar por aí.
No mundo artístico, cada vez mais, está-se a recuperar o que já foi feito no passado. Porquê?
Porque antigamente havia grandes autores, o que não quer dizer que agora não haja. Havia grandes talentos e na música também, temos o exemplo do José Cid. Hoje também se fazem grandes músicas. Os textos antigos do teatro revista eram muito bons, eu era miúdo e lembro-me de alguns sketch que o meu pai fazia...
Fez um espetáculo no Olympia de Paris. Como correu essa experiência?
Foi ótima. Fui eu que quis fazer, um dia passei lá à porta e fui perguntar. Tudo lá custa uma fortuna, mas, pronto, fica para a nossa história.
Encheu a sala?
Não enchemos, a sala leva 2200 pessoas e nós tivemos talvez 1700. Mas a vida em França é muito cara. Eu saí para ir buscar umas pessoas amigas e o senhor que estava à porta não me queria deixar entrar. Tive de lhe explicar no meu francês foleiro quem era (risos). Trabalhar naquela sala mete respeito.
Compensou?
Sim, mas compensou mais ir lá e ficar registado.
Quanto tempo ficou a dar autógrafos?
Dei alguns, não como o meu amigo Tony Carreira, mas dei alguns. E depois tive o apoio da RTP, que foi muito importante.
Quanto custa fazer um espetáculo lá?
Não custa menos de 45 mil euros. E eu disse--lhes que se era esse o valor por mês, era muito caro (risos)...
E quando está em digressão pelo País, fica a falar com o fãs?
Sim. Acontece. Mas depende dos sítios. Vê-se muita malta nova e isso é novidade. Via os pais, os avós, que são o meu público-alvo. Mas fico contente. Se calhar também veem O Preço Certo, têm algum carinho por mim.
Nestes 32 anos de carreira, qual o momento mais marcante?
Talvez a estreia porque, além de ter sido um desastre, foi realmente o sonho de ser o que gostava de ser. E depois a Prova dos Novos que era eu, o José Raposo, a Maria João Abreu, a Marina Mota e o Carlos Cunha. Éramos todos muito novos, em 1986, estivemos no Teatro de Variedades talvez 14 meses. E depois veio a televisão, que tem de facto uma força espantosa. Fiz um sketch num programa com o António Sala, Carlos Paião e senti logo na abordagem na rua.
"Não sou um grande ator"
Com 32 anos de palco, podemos dizer que estamos perante um grande ator?
Não, sei que não sou um grande ator. Nada disso. Aliás, nunca quis ser um grande ator, o sonho que tinha era ser um ator popular e acho que o consegui, e é por aí que vou. Quero fazer o melhor que sei e posso, ser popular é melhor, mas também dá trabalho. Se houver algum segredo é ser eu próprio, não fugir muito de mim próprio... e se calhar consigo transportar isso para a plateia. É ser simpático, bonacheirão, sei que a gordura também ajuda a ser bonacheirão (risos). Mas tenho de ter cuidado.
E é um grande apresentador?
Não. Eu não sou um apresentador.
Está há mais de dez anos à frente de O Preço Certo e não é apresentador?
Não. Quando me convidaram, eu pensava que era para os apanhados. Disse que não era apresentador e que não devia ser eu a apresentar o programa.
Quem o convidou?
Foi a própria RTP que me convidou, quem teve a ideia foi o Manuel Moura dos Santos. E era o Nuno Santos que estava como diretor. Fiz o casting um bocado à minha maneira, foi o Luís Andrade que viu e disse que tinha de ser eu a fazer. E depois percebi que não podia ser um apresentador com muita seriedade. Comecei a apresentar à minha maneira, tenho o público ao pé de mim, saem umas graçolas, umas com mais piada, outras nem por isso.
Afinal, qual é o segredo para tantos anos em antena?
É esse. E o concorrente ajuda muito. Se for de puxar por mim ou vice-versa... melhor.
Fica nervoso?
Já não tanto. No primeiro, quando aquela porta se abriu, perguntei à senhora se estava nervosa. Ela disse que sim e eu acrescentei "também eu". Foram 50 minutos que nunca mais acabavam. Agora, há sempre qualquer coisa, não vou dizer que não, mesmo nos espetáculos também. Eu odiava fazer diretos e agora fazemos diretos à vontade.
Gosta do formato de O Preço Certo?
Gosto. Mas às vezes cansa-me um bocado porque já o estou a fazer há muito tempo. Só às vezes, porque noutras dou por mim a dizer que isto é mesmo giro de fazer. Prefiro estar a fazer isto do que outra coisa e estudar muitos textos.
Uma novela, como fez Cinzas?
Não. Não quero.
Seria espectador de O Preço Certo se não fosse o apresentador?
(pausa) Não sei. Aquela é a hora que me estou a preparar para ir jantar. Talvez. De vez em quando, vejo e divirto-me mais naquele tipo de piada que não tem piada.
E a sua mãe vê?
A mãezinha vê e percebe todas as piadas. E depois diz "ai, estás muito gordo", e que me estiquei um bocadinho. As pessoas levam coisinhas para ela, rendinhas...
Confesse-nos lá, onde põe tanta coisa que recebe diariamente?
Está a gravar isso? (risos) Nós somos 60 pessoas lá dentro. E muitos pedem isto ou aquilo. Depois, tenho um amigo que mora em Tercena que tem um estaleiro onde guardo a maior parte das coisas que me dão. Coisas lindíssimas, estátuas de pedra, rendas... As pessoas dão-me as coisas com muito carinho. Há muitas instituições que nos pedem livros e nós damos. Não deitamos as coisas para o lixo.
Nem os galhardetes?
(risos) Isso é que já não há sítio para os pôr. E as bandeirolas... Eu até digo que aquilo é bom é para fazer espetadas.
"Acho muito estranho isso das audiências"
Habitualmente, O Preço Certo caía no verão para os Morangos, mas recuperava entre outubro e abril. Este ano, com a mudança do sistema de medição de audiências, o programa perdeu mais de 200 mil espetadores e foi ultrapassado pela TVI e pela SIC, que voltou a liderar o horário. Acredita nas audiências?
Eu acho isso muito estranho. Um programa que era visto e, de repente, deixa de ser visto.. Eu ando pelo País em digressão e as pessoas dizem-me que veem o programa, por isso há qualquer coisa aí nas audiências que não está bem explicado. Não me meto nesses assuntos, eu quero é que as pessoas continuem a ver porque isso traz publicidade ao programa. Mas acho muito estranho as audiências caírem assim tanto no nosso programa. No nosso e no Telejornal, que também era líder.
Gosta mais de apresentar ou representar?
Como disse que não sou apresentador, gosto mais de representar, de fazer teatro. Agora, a televisão é importantíssima para dar visibilidade.
Sei que recebe muitas cartas de espectadores a pedir ajuda, e que já o fez do seu próprio bolso. Porquê?
Já e não preciso de estar a dizer a quem, a que horas, nada. Agora, não posso ajudar toda a gente, há pessoas que pensam que os prémios do programa são meus, mas aquilo são contratos que a empresa faz. Faço muitos espetáculos de beneficência para ajudar.
É um homem rico?
Não, longe disso. Como nasci neste meio, sei que pode não haver amanhã e tento organizar-me.
Acredita mesmo que o amanhã para si pode não existir nesta profissão?
Acabar, acabar não, porque eu pego nas malas e ando pelo país. Mas a vida dá grandes voltas e acredito que as coisas podem correr mal. E eu tenho de pensar nessas voltas porque tenho dois filhos, família. Não quero acabar nas revistas como o coitadinho que não tem isto ou aquilo. Tenho uma vida organizada.
Mas tem uma vida confortável...
Tenho, mas trabalhei para isso. O Preço Certo acaba para o ano.
Acaba mesmo?
Vamos ver, o contrato é até para o ano. Depois não sei, as coisas hoje não estão para brincadeiras, está tudo caro. Mas sim, tenho uma vida simpática.
"Sou fiel à RTP. Eles não me chateiam, eu não os chateio"
Sente-se bem pago na RTP?
Sim, apesar de o meu ordenado ter sido reduzido. Mas foram todos.
Nunca foi sondado para ir para outros canais?
Fui, mas sempre fui bem tratado pela RTP. Eu não os chateio, eles não me chateiam. Os números estão lá, as audiências também... estou ali bem. Não vou dizer que um dia mais tarde não possa aceitar...
Mas é fiel à RTP?
Sou, eles tratam-me bem, e eu a eles, e não tenho tido razão de queixa. Acho que eles me tratam melhor a mim do que eu a eles.
Tem dúvidas que o contrato não vai ser renovado?
Falta um ano e meio, não quero pensar nisso por enquanto. Se calhar, daqui a seis meses respondo melhor a isso. Mas àquela hora não estou a ver grandes coisas que possam resultar na RTP. O Hugo Andrade sabe o que faz, e eu admiro-o muito. E não é graxa porque eu também era amigo do José Fragoso.
Teme outro reajustamento no ordenado?
É possível. Se isso acontecer, cá estaremos nós para conversar. Quando houve o primeiro, eu já estava à espera. É sempre um desconto, mas a vida continua.
Se renovar o contrato, gostava de continuar com O Preço Certo ou fazer outro programa?
Se fosse para fazer algo que não fosse O Preço Certo, teria de ser algo do mesmo género, ou então o que estou a fazer com o Nicolau Breyner. Não me estou a ver a fazer outra coisa.
"O Preço Certo é mais para o povo"
Fala-se muito da privatização da RTP. Tem alguma opinião?
Estou calmíssimo, também não percebo muito disso. Deixo-me estar.
Com a privatização de um canal, a RTP fica apenas com um canal generalista em sinal aberto. Acha que O Preço Certo caberá na grelha desse canal único?
Eu acho que O Preço Certo caberia até no canal da Mancha, cabe em qualquer canal. O Preço Certo é aquele tipo de programa que abrange toda a gente, mas é mais para o povo.
Acha que vai ser possível conciliar um programa popular como o seu com alguns programas da RTP2, por exemplo?
Isso acho que não. São coisas completamente diferentes. Mas, havendo apenas um canal, acho que não vai ter apenas programas culturais. Espero que não.
O Preço Certo é serviço público?
Acho que sim. Há muita gente que diz que não é, mas quem o diz são pessoas de outro canal. Trazer aquelas pessoas todas, diverti-las, entramos em várias casas do nosso país diariamente com todas as ofertas que são mostradas por quem lá vai. Eles trazem gastronomia, artesanato, mostram a cultura das suas terras. Não é serviço público? Acho que é.
Com quem gostava de trabalhar dos novos talentos no humor, como o Ricardo Araújo Pereira, ou o Bruno Nogueira?
Gostava de trabalhar com alguns, sim. Mas são todos bons. Apesar de não ser o meu tipo de humor, gostava de trabalhar com eles.
O que lhe falta fazer?
Acabar esta entrevista, ir tomar um banho (risos). Não sei, nunca fui muito de pensar nisso. Sempre tive trabalho. Nunca tive uma personagem que gostasse de fazer... As coisas foram acontecendo e assim está ótimo. Falta-me emagrecer mais um bocadinho.
"Não tenho complexos de ser gordo"
Usa várias vezes a expressão o Gordo. Não tem mesmo complexo com o seu peso? O José Carlos Malato, por exemplo, decidiu fazer dieta e emagreceu.
Nunca tive problema nenhum. Eu era muito magrinho quando me estreei no teatro, pesava 60 quilos. E, depois, fui engordando até que percebi que estava a ficar gordo de mais. Tenho 50 anos e já me custa fazer certas coisas, movimentar-me, atar os sapatos... mas não tenho complexos de ser gordo, na praia faço topless e tudo (risos). As pessoas chamam-me gordo sem problema nenhum. Até porque fui eu que deixei que mo chamassem.
Mas não faz qualquer dieta?
Sei que devia emagrecer mais um bocadinho. Ando na clínica do doutor Fernando Póvoas há muitos anos. Ele até diz que eu sou a vergonha da clínica dele (risos). Somos amigos.
Não tem problemas de saúde?
Faço análises regularmente e as minhas análises estão melhores do que as dele. Brinco, brinco, mas estou sempre a controlar a saúde. Fiz agora um exame ao coração e estava tudo bem. Queria emagrecer um bocadinho para me sentir melhor, para não me cansar tanto. Mas não tenho complexo de ser gordo, antes pelo contrário.
Mas evita comer alguma coisa?
(pausa) Evito... o quê? Não sei. Evito não misturar a batata com o arroz, ponho num prato à parte (risos).
Está sempre a brincar, o Fernando é mesmo assim?
Às vezes também tenho os meus momentos mais tristes e comovo-me com facilidade. Tenho dias.
Como é que as pessoas o abordam?
Bem, também já tive pessoas a dizer-me que me achavam mais simpático. As pessoas querem que eu esteja sempre bem-disposto e a dizer "espetáculo"... já me mandaram fazer o pino. Veem com muito carinho.
Como é a sua rotina? O que faz nos tempos livres?
Tento dormir muito porque os gordos precisam de dormir muito e de descansar... Almoço, mas pouco, lá está, como mais ao jantar. Sempre que posso, pego no carro. Vou aqui, vou acolá, gosto de praia e de campo, mas gosto mais de piscina, incomoda-me a areia da praia. Tenho de limpar os pés e não consigo chegar-lhes facilmente.