Sociedade

Cânticos de culto africano dissipam ecos de violência

Cânticos de culto africano dissipam ecos de violência

Em plena Quinta da Fonte, conhecida pelos episódios de violência, ouvem-se vozes de paz. Pertencem aos membros da Igreja Kimbanguista, cujo único local de culto em Portugal se situa naquele bairro social de Loures.

Num domingo de manhã, quem entra na Quinta da Fonte tem a sensação de que a noite de sábado ainda não acabou - a música vinda do rés-do-chão de uma das torres que caracterizam o bairro faz-se ouvir perfeitamente na rua.

No interior da igreja kimbanguista da Quinta da Fonte, a única do país, perto de 40 pessoas, de todas as idades, estão vestidas a rigor para o culto dominical. As cores dominantes são o verde (cor da esperança) e o branco (cor da pureza) e estão presentes um pouco por toda a parte, desde as paredes da igreja ao traje dos membros da comunidade, que se descalçam todos à entrada. As camisas dos homens e os véus das mulheres fazem referência ao "Papá" Simon Kimbangu, que criou a Igreja em 1921, no Congo Belga (actual República Democrática do Congo).

Os cânticos, em português, francês e dialectos africanos, inspiram-se em passagens bíblicas. "Te seguirei em qualquer momento para alcançar a salvação", diz uma das músicas. No interior da igreja, toda a gente canta quase todos tocam um instrumento, como a flauta, o trompete ou outro instrumento de sopro.

Em Portugal, a Igreja Kimbanguista conta com perto de 80 membros, a maioria vindos de Angola, mas também do Congo Democrático e do Congo-Brazzaville. Segundo o Pastor Maurício Nascimento, representante máximo do Kimbanguismo em Portugal, a maioria das pessoas que frequentam o culto e as actividades da comunidade são da Quinta da Fonte, mas também há quem venha de mais longe, como da Amadora, do Cacém ou mesmo da Margem Sul do Tejo.

Jennifer Lopes só tem 18 anos mas é das mais activas na comunidade - canta no coro, toca flauta e batuque. O dinamismo do culto é aquilo que mais a seduz no kimbanguismo, que professa desde criança. "Quando se vai à Igreja Católica, por exemplo, não há tanta interacção. Aqui, há muitas actividades."

Nsimba Alberto, 33 anos, mora em Alcântara (Lisboa) mas vai à Quinta da Fonte diariamente de quarta-feira a domingo, seja para tomar parte no culto seja para participar ensaios de canto e de trompete. Nascido na República Democrática do Congo mas criado em Angola, o electricista vive em Portugal há 17 anos e já percorreu várias igrejas. Acabou por voltar à Igreja Kimbanguista, que frequentava desde os 12 anos.

"Tal como a escola é uma formação material, a Igreja é uma escola espiritual. O que aprendo aqui tenho de pôr em prática no dia-a-dia e marcar a diferença", diz Nsimba Alberto. Foi precisamente ao observar o exemplo do marido, Maurício Nascimento, que Rosa Kilombo, 51 anos, se deixou "conquistar" pelo Kimbanguismo. Criada no convento católico das Madres, em Angola, a empregada doméstica destaca, de entre as práticas do Kimbanguismo, o contacto com as Escrituras. "Em dez anos no Convento das Madres, nunca peguei na Bíblia Sagrada. Agora já a conheço e posso falar sobre ela em qualquer lugar".

A fé ajuda os kimbanguistas a não sentir medo face a episódios de violência, como os tiroteios de Julho. "Confio no Papá Simon Kimbangu. A fé está acima de tudo", diz Rosa Kilombo. Moradora na Quinta da Fonte, a mulher do Pastor Maurício Nascimento garante que os kimbanguistas fazem o que podem para chegar aos jovens do bairro.

No entanto, o sucesso não tem sido grande. "Muitos vizinhos espreitam mas não entram. Convidamos toda a gente e ninguém aparece", lamenta.

Recomendadas

Outros conteúdos GM

Conteúdo Patrocinado