Sociedade

Chuva dos últimos dias não significa "um inverno extraordinário"

Chuva dos últimos dias não significa "um inverno extraordinário"

Alexandre Tavares, um investigador da Universidade de Coimbra que trabalha na área dos riscos naturais, considera que a intensa pluviosidade das últimas semanas não representa "um inverno extraordinário". A diferença, considera o investigador, está nas "perceções diferenciadas" que a pessoas têm da realidade.

Os impactos negativos da pluviosidade "são exatamente os mesmos" do passado, mas atualmente as pessoas "constroem perceções diferenciadas" da realidade, declarou Alexandre Oliveira Tavares, citado pela Agência Lusa.

"Não se morre hoje mais, nem menos, do que há anos atrás", afirmou o professor da Universidade de Coimbra (UC), doutorado em Engenharia Geológica, que tem vindo a trabalhar na área dos riscos naturais.

Na década de 40 do século XX, por exemplo, "morria-se tanto como se morre agora" devido a catástrofes associadas a situações de agravamento das condições meteorológicas, que causam cheias e deslizamentos de terras, entre outros problemas com impacto na comunidade.

No passado, sublinhou, essas ocorrências verificavam-se mais em concelhos rurais do interior, enquanto atualmente são registadas sobretudo em áreas urbanas do litoral, com destaque para a Área Metropolitana de Lisboa.

"Não partilho da ideia de que estamos na presença de um inverno extraordinário", disse.

Enquanto investigador do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, Alexandre Tavares coordena um projeto que visa disponibilizar dados relativos a "eventos de origem hidro-geomorfológica com consequências danosas" em Portugal continental.

No âmbito do projeto "Disaster", que envolve investigadores de outras universidades portuguesas, foi já realizado, com base na consulta de 16 jornais, o levantamento dos desastres hidrológicos (cheias) e geomorfológicos (deslizamentos) ocorridos desde 1864.

Com consequências "mais gravosas", quanto a perda de vidas humanas e danos materiais, "há uns 'picos' que se vão repetindo" nos últimos 150 anos, disse à Lusa.

"Temos hoje uma sociedade muito mais resistente (desde as cheias devastadoras de 1967, na Grande Lisboa), com mais respostas do ponto de vista operacional e uma capacidade muito mais efetiva" no ordenamento, afirmou.

Alexandre Tavares admitiu que a sociedade reflete uma certa "perda de memória" relativamente às consequências trágicas de alguns invernos do passado, mas também a antigas rotinas de prevenção, como a limpeza regular dos rios e ribeiros.

Na sua opinião, importa "ritualizar práticas resilientes" que agilizem "respostas adequadas" da parte das instituições e dos cidadãos em geral.

"Vamos ter de fazer uma reaprendizagem coletiva do espaço público que habitamos e onde trabalhamos, em termos do que são as nossas memórias próximas", acentuou.

O investigador do CES defendeu "uma melhoria dos sistemas de aviso e alerta" das populações. "É aqui que se minimizam as perdas materiais e humanas", acrescentou.

Alexandre Tavares integra o Grupo de Investigação de Modelação Geológica e Ordenamento do Território, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC.

No Centro de Estudos Sociais, participa ainda no Observatório do Risco - OSIRIS.

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