Sociedade

O barbeiro de Veneza

Reformar-se é decisão que não lhe pertence. Nem pensa nisso. Cortar cabelos de homens no Salão Veneza, no Porto, é a vida de sempre. Mesmo aos 90 anos, que chegam no dia 1 de Janeiro.

Passaram-lhe pelos dedos os cabelos de gente tão ilustre como Vasco Santana ou João Villaret. Gente que deixou história nas poltronas bordeaux do Salão Veneza, encaixado a meio caminho entre o mítico Guarani e o não menos famoso Hotel Infante de Sagres, na Baixa do Porto. São velhas de umas sete décadas, as cadeiras, quase tantos quantos os que José Rodrigues leva de profissão e de vida. Com 90 anos a bater à porta e a arte de talhar penteados desde os 17, encolhe os ombros se lhe perguntam quando vai largar as tesouras. "Não me pertence a mim... O que eu penso é trabalhar sempre!"

Até porque, ri, sorrateiro, se estivesse em casa não seria entrevistado. É um facto.

José traça os anos com a humildade de quem veio da terra. Era agricultor em S. João da Pesqueira quando decidiu ser barbeiro. Dois anos de experimentações em cabeças alheias forneceram-lhe o estofo necessário para se lançar à aventura. E desceu o Douro até ao Porto.

Na mala de cartão, trazia a sorte de ter um tio bem colocado. Dono do Salão Veneza, ora nem mais. "Arranjou-me um lugar de barbeiro em Ramalde Igreja e fui andando pelas periferias da cidade". Até que veio parar à Rua do Almada onde nasceu o Veneza. O sonho concretizado.

Outro esperava-o na janela da banda de lá da Rua Dr. Barbosa de Castro. Do quarto da pensão onde vivia, apercebia o lar de uma professora vinda de... S. João da Pesqueira! E cuja irmã, jovem, calceira na terra, elegia o Porto para gastar o Verão. "Em sete meses namorei e casei!" E passou o bicho das tesouras. À mulher e, mais tarde, à filha. A primeira levou-a o tempo, a segunda, essa, já deixou a arte. "Já tem 61 anos!", brinca José, sem pensar nos seus 89.

E se o salão da Rua de Ceuta é o que era há 55 anos, quando se transferiu, cadeiras, espelhos e mármores, da Rua do Almada, os clientes, esses, mudaram muito. Acompanharam os tempos de urbanização de uma cidade que pouco tem já da aldeia que era. Com tudo o que isso implica de fechamento sobre si próprio.

"Noutros tempos, era fácil a gente saber quem eram". Hoje, falam menos. E vêm menos. A crise bate a todas as portas. Dos cinco sócios actuais do Veneza, já só José e Pedro Almeida cirandam por entre o passado de um lugar colado ao presente. E onde só se fala de futebol se o cliente for... portista!

Recomendadas

Conteúdo Patrocinado