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Transplante renal em dominó juntou catorze pessoas

Transplante renal em dominó juntou catorze pessoas

Tu precisas de um rim, o meu não dá para ti, mas pode dar para outro que conheça alguém com um rim que sirva para ti, quem sabe? Aconteceu em Julho, nos EUA, o maior transplante em dominó de sempre: envolveu 14 pessoas.

Na base de tudo estiveram duas coisas: a solidariedade e sete pessoas com graves doenças renais. Seis delas afro-americanas, condição que, geneticamente, os atirava para uma maior probabilidade de rejeição dos órgãos que recebessem. E cinco delas tinham um irmão, uma irmã, um primo, um marido ou um amigo dispostos a tirá-los de vez do calvário da hemodiálise. Mas não podiam, por incompatibilidade.

A equipa de Keith Melancon, director do serviço de transplante de rins e pâncreas do Hospital Universitário de Georgetowm, em Washington conseguiu cruzá-los e juntá-los a dois dadores altruístas e a dois receptores sem candidatos a doação, numa rede apelidada de "transplante em dominó", agregando pessoas mais compatíveis. Já o tinha feito previamente, mas nunca em tão larga escala.

Mas, tratando-se de afro-americanos - população em maior risco de desenvolver doença renal e anticorpos que levam à rejeição do órgão -, recorreu à técnica que tem vindo a desenvolver há um ano: a plasmaferese. Trocado por miúdos, trata-se de filtrar o plasma do receptor, para reduzir ao máximo os anticorpos.

A rede começou a "tecer-se" no dia 16 de Julho. Jordan, dador altruísta, separou-se de um rim para beneficiar Elizabeth. No dia seguinte, Domenick recebeu o rim de Craig e Oluremi o de Linda, outra dadora altruísta. A 20 de Julho, era a vez de Larry, marido de Elizabeth, doar um rim a Dachia, enquanto Terry fazia o mesmo a Lori. Por fim, a 21, Jacqueline (irmã de Terry) recebia um rim de Bryan (irmão de Dachia) e Elaine (amiga de Craig) era ajudada por Shawn (primo de Domenick). Para Lori e Jacqueline, foi a terceira tentativa.

Confuso? Não. "Conseguimos verdadeiramente ver o melhor lado da humanidade, homens a ajudar homens. É realmente bonito", resume Keith Melancon, que já só tem um paciente internado. "Acho que isto é algo que nunca teríamos tentado há uns anos atrás, porque teríamos julgado que estas incompatibilidades eram inultrapassáveis", admite Jimmy Light, director do serviço de transplantes do Centro Hospitalar de Washington, que se associou ao de Georgetown para a iniciativa. "Mas agora sabemos que estas coisas são possíveis e, agora, virtualmente qualquer pessoa que traga um dador vivo pode ter um transplante".

"Dada a prevalência de factores de risco para doença renal na comunidade afro-americana, é extremamente difícil para alguém encontrar um dador com suficiente compatibilidade que se queira ou possa sujeitar" a uma doação de órgãos, garante Keith Melancon. Só a área de Washington DC tem diariamente seis mil pessoas em diálise e é palco de 200 a 250 transplantes por ano. "Se chegarem a nós com um dador voluntário, podemos usar a plasmaferese para compatibilizá-los com outra pessoa que apresente uma maior compatibilidade". E, assim, duplicar o número de transplantes anuais.

É que, das cerca de 80 mil pessoas à espera de um rim nos EUA, 36% são afro-americanos. Mas estes só conseguem receber 15% dos rins de dadores vivos disponíveis. Por força das incompatibilidades. Para lá de ser de registar pela sua amplitude, o transplante em dominó realizado em Washington abre, assim, caminho à redução das disparidades raciais.

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