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Contagem dos casos de coronavírus em Portugal

Opinião

Paula Ferreira

Paula Ferreira

O medo não pode ter tudo

Somos humanos na exata medida em que nos relacionamos, estabelecemos relações sociais. Nunca tivemos dúvidas desta circunstância que nos diferencia dos restantes seres. Mas as coisas estão a mudar. O vírus, que nos apanhou de surpresa, mais do que a ameaça do risco de morte, parece roubar-nos a humanidade, uma longa história de partilha de afetos. Empurra-nos para a solidão, para um egoísmo securitário. Quantas vezes dou comigo, hesitante, sem saber o que fazer, sem ter a certeza se deva procurar aquela pessoa querida ou se ao fazê-lo estarei a causar um problema - a ternura a tornar-se ameaça.

João Gonçalves

João Gonçalves

O problema presidencial - 1

Estamos a menos de seis meses de eleições presidenciais. O que talvez mereça uma reflexão mais prolongada para não estar sempre a bater no ceguinho, a saber, o lamentável governo socialista e a não menos lamentável complacência geral com o "confinamento democrático". Como dizia em despacho escrito um antigo ministro do regime anterior, deixemos que o tempo se encarregue de resolver o problema. Para um adepto do sistema constitucional francês em vigor, o da Constituição de 1958, falar do nosso pseudo-semipresidencialismo não é fácil. Porque entre 1976 e 1982 foi uma coisa, e daí em diante outra. Durante o primeiro mandato Eanes, e em menos de metade do segundo, o chefe de Estado tinha sobre os governos a mesma autoridade política, e o mesmo poder, do Parlamento. Isto é, o PR podia livremente demitir o primeiro-ministro sem ter de dissolver a Assembleia. Não foi inteiramente por acaso que passaram oito por Ramalho Eanes, um deles, Soares, três vezes. Quando Eanes chegou à recandidatura, apresentada em Belém nos primeiros dias de Setembro de 1980, carregava a cruz desta gente quase toda ressentida. Tirando dois ou três, nenhum lhe perdoava a "interferência" nos seus gloriosos governos. Foi preciso um acordo assinado com o PS de Soares - designadamente quanto a Eanes comprometer-se a não dissolver a AR, havendo condições parlamentares de manutenção do governo, e a não acumular o cargo presidencial com a chefia das Forças Armadas - para a direcção do partido figurar na comissão de honra. Também havia legislativas no mês seguinte. E Soares, erradamente, supôs que podia, como a AD, alardear "uma maioria, um governo, um presidente", respectivamente com uma geringonça apelidada (por Guterres) de "Frente Republicana e Socialista", com o PS e duas coisinhas anãs, efémeras, chamadas ASDI, pela "direita", e UEDS, pela "esquerda". O "mau negócio", como Soares o classificaria depois, deu menos deputados ao PS que o partido sozinho em 1979. A invocação do nome de Eanes, em vão, obrigou-o a declarar-se o "presidente de todos os portugueses" (o lema da campanha) cuja vitória "não seria a derrota de ninguém". Em quatro recandidaturas de incumbentes, de 1980 a 2011, a de Dezembro de 1980 foi a única politicamente mais dilemática e problemática. Talvez venha por aí a segunda. (Continua).