Opinião

Editorial: Um Governo maior será um Governo melhor?

Nada de verdadeiramente surpreendente avulta da formação do novo Governo. De resto, António Costa já avisara ao que vinha. Na definição do rumo que o país levará na próxima legislatura, a bússola apontou sempre no sentido da continuidade. Mas essa opção, sendo o reflexo de uma estratégia de estabilidade que, agora mais do que nunca, o primeiro-ministro quer preservar, também pode ser entendida como um sinal de que o líder do Executivo não quis arriscar para além do necessário. O PS ganhou ascendente no universo eleitoral, mas saiu menos confortável da tentativa gorada de reeditar uma "geringonça" de papel assinado. Este elenco governativo é, também, resultado dessa tensão.

Manuel Serrão

Livre é só RIR até dizer Chega

Comungo com o senhor presidente da República da mesma preocupação com o aumento da abstenção verificado nas últimas legislativas. Mas já não partilho a sua estupefação por isso ter acontecido nas eleições com o maior leque de opções de voto possíveis, 21 ao que parece. Mais uma vez aqui a quantidade não foi nem é sinónimo de qualidade. É por isso que conhecido o panorama também não acredito nas teses de que estamos no advento de uma iminente pulverização partidária.

A sua Opinião

O que mais o surpreendeu nos resultados das Legislativas?

O estúdio de efeitos especiais que criou a personagem Benjamin Button

Muitos dos filmes que melhores (e também piores) momentos proporcionaram aos espectadores têm como elemento comum a utilização dos efeitos visuais ou efeitos especiais para criar a ilusão de mundos ou criaturas imaginárias. Por vezes belos, por vezes terríveis, mas sempre – mesmo com recurso a tecnologias muito rudimentares – assombrosos. Já num ano tão longínquo como 1933, Merian C. Cooper conseguiu aterrorizar meio mundo com o seu King Kong, o gigantesco símio que se tornou, desde então, um ícone da cultura popular. Diz-se mesmo que, numa primeira edição do filme, o público desmaiava ou saía espavorido da sala perante algumas cenas que foram posteriormente eliminadas. Na verdade, a lenda soa melhor do que a realidade, dado que, ao que parece, as míticas cenas foram cortadas por Cooper por um motivo muito mais prosaico: abrandavam o ritmo da história. Outros pioneiros, como George Pal ou Ray Harryhausen, conseguiram criar autênticas fantasias visuais com marionetas, desenhos, miniaturas, látex, maquetas e explosões. Hoje em dia, todos estes truques foram substituídos por software muito sofisticado e por potência de computação, mas há algo que permanece: a imaginação para fazer parecer real algo que não existe. Darren Hendler, diretor do Digital Human Group na Digital Domain, dedica-se há 25 anos aos efeitos especiais no cinema, tendo participado em alguns dos maiores sucessos de bilheteira das últimas décadas. Pelas suas mãos – e pelos seus computadores – passaram monstros e personagens que fazem parte da nossa memória cinematográfica. Precisamente para se manter na vanguarda da indústria, o seu trabalho teve de evoluir: "Nos dois últimos anos, centrei-me mais na parte tecnológica do cinema, no que é possível fazer, e, sobretudo, na chegada da aprendizagem automática e no modo como podemos transformar o que fazemos e levá-lo mais longe."As proezas tecnológicas da Digital Domain incluem ter tornado credível um Brad Pitt idoso na notável fantasia de David Fincher "O Estanho Caso de Benjamin Button" ou ter permitido que Josh Brolin desse alma a Thanos, um personagem incontornável da saga Vingadores, graças aos sofisticados sistemas de captura de movimento com que registaram todos os gestos do ator. Porém, uma das mais comentadas contribuições do estúdio para a história recente do cinema foi, sem dúvida, ter "ressuscitado" uma Carrie Fisher jovem para fazer uma aparição estelar em "Rogue One: Uma História de Star Wars". Por trás do rosto de Fisher, escondia-se a atriz norueguesa Ingvild Deila, que garante ter enfrentado o desafio de interpretação de uma forma "muito mais técnica" do que o habitual, concentrando-se "nas coisas que Carrie fazia com os olhos ou no modo como mexia a boca."A possibilidade de voltar a contar com rostos icónicos da história do cinema graças à tecnologia, apesar de os atores ou atrizes já terem falecido, abriu um debate na indústria que, pelos vistos, não terá fim tão cedo. Entretanto, Darren Hendler acredita que as possibilidades dos efeitos visuais continuarão a crescer: "Vai demorar algum tempo até alcançarmos os 5% que faltam para que alguém possa entrar em cena e interpretar em direto uma pessoa diferente." Quando esse limite for superado, todos teremos de começar a preparar-nos para a invasão de ressuscitados que nos cairá em cima.Entrevista e edição: Zuberoa Marcos, Noelia Núñez, Douglas BelisarioTexto: José L. Álvarez Cedena

Computação quântica, uma peça-chave da cibersegurança global

Em plena Segunda Guerra Mundial, Alan Turing e a sua equipa foram recrutados pelos serviços secretos britânicos para tentar vencer a poderosa máquina Enigma. Idêntica a uma máquina de escrever, o exército de Hitler utilizava-a para encriptar as suas mensagens e ataques durante a guerra. A configuração da Enigma era mudada todos os dias e o seu mecanismo, formado por vários rotores modificáveis, permitia 159 triliões de combinações possíveis a cada 24 horas. Dez homens dedicados a ela todo o dia demorariam 20 milhões de anos a decifrar o código. Turing, pai da computação atual, percebeu que a única forma possível de vencer uma máquina era com outra máquina. Foi por isso que criou Christopher, a primeira máquina batizada como "Bombe", capaz de decifrar todos os códigos encriptados pela Enigma.Hoje, quase 70 anos depois desta façanha que mudou o curso da História, todo o mundo está empenhado na corrida pela liderança da próxima fase da computação: a quântica. Uma tecnologia cujo interesse, para além de tentar compreender em que consiste, assenta nas suas poderosas aplicações. As que mais interessam às diferentes potências mundiais vão desde a encriptação de comunicações ao desenho de novos fármacos personalizados, passando pela possibilidade de desenvolver uma inteligência artificial mais intuitiva e precisa.Nessa corrida encontra-se a Europa – algo atrasada em relação à China e aos EUA –, que lançou em 2018 a Quantum Flagship, uma iniciativa da União Europeia para a investigação na área quântica com um orçamento de mil milhões de euros ao longo de 10 anos. Carlos Abellan, cofundador da QuSide, empresa dedicada à cibersegurança e integrada na Quantum Flagship europeia, garante que "a Internet quântica será o culminar de uma série de tecnologias que estão em desenvolvimento." Diz-se que será impossível piratear a rede quântica e que esta viajará à velocidade da luz, mais ainda faltam alguns anos para o comprovar. "Há quem diga que, dentro de dez anos, teremos um computador quântico, mas já o diziam há dez anos. O que sei é que haverá um computador quântico num prazo mais curto, mas não tem de ser um computador quântico universal”, refere Abellan. Universal ou não, a primeira geração de computadores quânticos será capaz de realizar certas ações mesmo antes de alcançar o seu pleno desenvolvimento. Ações como a encriptação de mensagens, algo que, se Turing ressuscitasse, seria um desafio ainda maior do que decifrar a Enigma.Entrevista e edição: Azahara Mígel, Noelia Núñez, Mikel Agirrezabalaga Texto: Azahara Mígel

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