Opinião

João Gonçalves

De Costa a Costa

Os "programas eleitorais" são cardápios de boas, más ou melhores intenções, em geral piedosas, que só os jornalistas da política e da economia lêem por dever de ofício. Ocupam, por isso mesmo, algumas páginas maçadoras dos jornais. Se, à apresentação do "programa" juntar-se um espectáculo multimédia para as televisões, o "programa" tem direito a directos e a inflamações histriónicas adequadas a um qualquer talk show, aproveitando-se os melhores momentos proporcionados pelo chefe, e por quem o chefe define como co-protagonista do evento, terminando em geral com o "one man show" do líder. A moda consiste em o líder aparecer sozinho no palco, como uma vulgar estrela pop ou eclesiástica evangélica, com o microfone oculto no cabelo ou, em casos desesperados de incompatibilidade com o "progresso", de microfone na mão à Marco Paulo ou à Rui Rio. O texto, se ele for marrão, está na mona e nuns papelinhos discretos nas mãos que desenham no ar o maravilhoso futuro que o "programa" traz. Se não for, há um teletexto para o qual ele olha disfarçadamente por entre as palmas dos figurantes e militantes. Para resumir, os "programas eleitorais" são coisas que normalmente se abandonam no dia a seguir às eleições por causa de outra coisa designada por "realidade", seja ela a propriamente dita, outros partidos, um PR que leva a sério o que faz e, a mais relevante de todas, o poder e a sua manutenção. O PS, quando está no poder, é inexcedível e inimitável neste género de circo político-mediático. Foi assim com Guterres da "razão e coração", com Sócrates da "força e confiança" e com Costa do "fazer ainda mais e melhor". É, pois, de esperar o pior. Sob a capa de "uma abordagem judicial integrada", Costa, no seu espectáculo do Pavilhão Carlos Lopes, defendeu a criação de tribunais especiais para julgar o crime de violência doméstica. Mas, como sabe que são inconstitucionais, concluiu como um vulgar "democrata iliberal" agora tão em voga desde a América Latina ao Leste europeu: se é inconstitucional, muda-se a Constituição para passar a ser. Costa só não foi ministro das Finanças como o seu homónimo Afonso da "República Velha". De resto, é um fenomenal epígono do caudilho que defendia haver "maus" e "bons" portugueses, e que o país "não pertencia igualmente a ambos". Sabemos como Afonso tratou, com método, quem não pertencesse. Também à República dele ocorreram tribunais especiais, os "tribunais de honra" invariavelmente condenatórios, e uma legislação penal ideológica e persecutória. Não convinha repetir.

A sua Opinião

Vai a algum festival de verão este ano?

ANYmal, o robô todo terreno de quatro patas

O ANYmal tem o aspeto de um cão robótico inofensivo. A forma como anda é engraçada e os seus gestos (se é que se pode aplicar esse termo a uma máquina com as suas características, já que não tenta imitar os comportamentos humanos) não são intimidantes.Apesar disso, há quem o tenha considerado assustador e houve até uma página sobre tecnologia que o incluiu entre os robôs mais "aterrorizadores". A culpa não foi dos criadores, a empresa suíça ANYbotics, centrada numa robótica útil, mas sim de um episódio da serie Black Mirror (concretamente, o quinto episódio da quarta temporada, cujo título é "Cabeça de Metal") em que um grupo de engenhos robóticos semelhantes a cães dominam a espécie humana pela força e a deixam à beira da extinção. O lema da ANYbotic, por sua vez, é: "Permitimos que os robôs cheguem a qualquer lugar". Talvez seja uma forma de manifestarem confiança numa tecnologia que não para de crescer e que deveria servir apenas para nos facilitar a vida. E é precisamente isso que se pretende com o ANYmal, um quadrúpede com capacidades impressionantes."Um robô comum tem rodas, o que é bastante bom" - assegura Peter Fankhauser, um dos cofundadores da empresa. "Tem inúmeras funções e bateria suficiente para operar durante horas. Porém, não pode ser usado à chuva nem em lugares com escadas. Por outro lado, os drones funcionam muito bem, trabalham de vários ângulos e proporcionam imagens incríveis. Contudo, a autonomia e a capacidade de carga são limitadas. O nosso robô é uma combinação de ambos. Desloca-se em qualquer tipo de terreno e, ao mesmo tempo, é capaz de transportar cargas significativas e a sua bateria tem bastante autonomia. Dura três horas e, como é autónomo, é capaz de regressar sozinho e recarregar-se numa estação.A versatilidade do ANYmal faz dele o robô perfeito para uma grande variedade de tarefas industriais, em interior ou exterior, para trabalhos de distribuição, de resgate, trabalhos agrícolas, florestais ou até para entretenimento. As quatro patas permitem-lhe caminhar, correr, saltar, escalar ou... dançar. Embora a mobilidade seja, obviamente, um dos pontos fortes do robô, é o restante equipamento que lhe permite ser uma ferramenta tão poderosa. Graças aos seus vários sensores, câmaras e aplicações, o ANYmal é capaz de traçar mapas, detetar mudanças de temperatura ou variações sonoras, o que lhe permite aplicar diferentes soluções no espaço em que se encontra a trabalhar.Embora, nesta fase, o ANYmal ainda seja uma versão beta, os seus criadores esperam comercializá-lo em breve. Para isso, estão concentrados em melhorar a sua robustez e algumas das suas competências.Além disso, a ideia é que funcione com API aberta, que permita aos clientes programá-lo para que possam adaptar-se a distintos tipos de tarefas. Porém... que não se gere o pânico, porque ninguém tenciona criar um exército de assassinos dispostos a espalhar o caos pelo mundo.Entrevista e edição: Maruxa Ruiz del Árbol, Noelia Núñez, David GiraldoTexto: José L. Álvarez Cedena

A Inteligência Artificial irá criar 58 milhões de postos de trabalho

Entre a desconfiança, a piada fácil e o medo absoluto, a extensão da inteligência artificial a todas as vertentes da nossa vida não deixa ninguém indiferente. Antes de morrer, o físico britânico Stephen Hawking afirmou que “o desenvolvimento de uma inteligência artificial completa pode significar o fim da espécie humana”. Outras figuras de relevo da área da tecnologia, como Elon Musk ou o cofundador da Apple, Steve Wozniak, comungam dessa preocupação. E, se as opiniões dos que estão destinados a abrir caminho neste terreno são tão pouco tranquilizadoras, ninguém pode censurar aqueles que, de posições mais desfavorecidas, olham com receio para umas máquinas que, a curto prazo, podem vir a pôr em causa o seu posto de trabalho. Também não ajudaram os filmes em que os robôs se lançavam à conquista do mundo, aniquilando ou escravizando a humanidade. A propósito deste ódio — menos irracional — o professor da universidade de Loyola, em Chicago, Steve Jones, afirmava num artigo para a revista Forbes que a população tem “a sensação de que há uma força não humana, chamada tecnologia, que é uma ameaça”. Jones assegurava existir o risco real de aparecer um movimento neoludita que, à imagem e semelhança dos Britânicos do século XVIII, encete uma luta contra as máquinas por porem em perigo o seu emprego. Um movimento que — realça Jones — não acredita que a política e a economia sejam as vias para lidar com o inevitável avanço das novas tecnologias.Nuria Oliver, prémio nacional de Informática 2016 e diretora de pesquisa de ciência de dados na Vodafone, crê que a inteligência artificial "terá um enorme impacto positivo na sociedade". E dá como exemplo o campo da saúde, onde as possibilidades que as novas tecnologias oferecem em áreas como a sequenciação do genoma humano ou a análise radiológica comparativa eram impensáveis há poucos anos. A inteligência artificial e os robôs serão, garantidamente, protagonistas daquilo a que já se chama quarta revolução industrial. Não obstante, Oliver está consciente do receio que esta difusão rápida das máquinas em tão pouco tempo desperta, particularmente no que diz respeito ao emprego: "todos os estudos antecipam uma transformação radical que vai implicar a extinção de milhões de postos de trabalho; no entanto, serão criados muitos mais. Segundo o Foro Económico Mundial, criar-se-ão 58 milhões de postos de trabalho”. Este otimismo que abre um leque de possibilidades deve ser acompanhado de uma adequada política educativa, visto que ser utilizador de tecnologia não é o mesmo que entender como funciona, e atualmente as crianças não são preparadas para virem a ocupar esses novos postos de trabalho que serão exigidos nos próximos anos. Oliver vê na evolução das máquinas uma grande oportunidade que não devemos deixar passar: "É muito importante que vejamos a inteligência artificial como uma oportunidade para melhorar a sociedade, para sobrevivermos enquanto espécie. No entanto, temos de nos preparar e de nos formar, para que isso posso ser uma realidade”. Entrevista e edição:  Azahara Mígel, Maruxa Ruiz del Árbol, David Giraldo Texto: José L. Álvarez Cedena