Opinião

Valter Hugo Mãe

Míriam Leitão e Sérgio Abranches

Para o presidente do Brasil, a diferença entre verdade e mentira existe apenas na sua vontade. A facilidade com que declara o absurdo é total, fazendo da política uma atividade de casino, uma aposta na sorte de haver quem acredite em qualquer coisa. Bolsonaro desafia o cargo que ocupa porque rasurou completamente o código deontológico a que está vinculado. Não se apresenta como presidente de todos os brasileiros (intimidando e investindo sobre aqueles que se lhe opõem política e ideologicamente) e não se vinculou à verdade, elementar missão que lhe cumpre.

Joana Marques

Fátima, Futebol e Festivais

Não há como fugir-lhe, seremos sempre o país dos três F. Ainda que as vogais e consoantes à frente do F possam mudar. Neste momento diria que somos a nação de Fátima, Futebol e... Festivais de verão. E mesmo Fátima só não está em perigo de ser substituída por Facebook porque o próprio Facebook já foi trocado pelo Instagram. Assim ficaria o país do I e dos dois F, o que não soa tão bem. Ficávamos "IFF", o que faria de nós, em inglês, o país do "se". Não deixa de ser verdade. É a velha história do "se cá nevasse fazia-se cá ski" (sempre quis citar os Salada de Frutas neste espaço de opinião). A verdade é que acaba sempre por não nevar e, mesmo que nevasse, não estaríamos prontos para o ski, como não estamos prontos para os incêndios que surgem sempre na mesma altura do ano. Teríamos de improvisar, fazendo uns skis artesanais que funcionariam tão bem como o SIRESP. Mas esqueçamos essa outra tradição estival que é deixar arder preciosos pedaços de terra e foquemo-nos na mais inofensiva: os festivais de verão. Podemos até não ter verão, pode haver chuva, granizo e, quem sabe, a tal neve que há tanto esperamos, para poder esquiar... mas teremos sempre festivais. Eles estão para os portugueses como Paris está para Rick e Ilsa, no Casablanca. Não deve haver, por esse Mundo fora, um país que tenha mais festivais de música per capita. Se começássemos a dar mais valor a esse índice do que ao PIB, abandonávamos logo a cauda da Europa. Aliás, faríamos esse percurso rumo ao topo às cavalitas de alguém, que é o meio de transporte mais usado em festivais. E felizmente só aí. O que seria os rapazes terem de alancar com as namoradas aos ombros nas filas da Loja do Cidadão... Com tanto evento, depois do velho "pobres mas honrados" poderíamos ser os "pobres mas divertidos". Croka"s Rock em Oliveira do Arda, Woodrock na Praia de Quiaios, Zigurfest em Lamego... os festivais de verão devem ser a única área em que conseguimos, efetivamente, descentralizar. Isto já para não falar do Bardoada e Ajcoi, no Pinhal Novo. Quis dar mais destaque a este porque acho que o nome merece! Temos muitas terras sem parque infantil, como acontecia outrora em Sobral de Monte Agraço, e ainda mais sem maternidades, mas certames e festivais não nos faltam! Há dias houve uma grávida do Algarve que teve de ir até Beja para dar à luz e daí foi enviada para Évora. É o chamado "vá para fora cá dentro" que deve ser especialmente enervante quando se pretende que uma criança que está dentro há nove meses vá para fora. Mais valia ter aguentado mais um mês e desfrutar dos festivais. Até porque agora já há alguns com zonas para grávidas! São verdadeiras cidades, faz lembrar os cruzeiros, mas com menos idosos. Será que já criaram áreas para idosos também? Se existir, é para lá que quero ir. Tenho tanta paciência para festivais como uma senhora de 90 anos. Acho que é poeira a mais, calor a mais quando se chega, frio a mais quando se vem embora, gente a mais, euforia a mais, filas a mais, para receber brindes a mais, que vão completar os "looks festivaleiros" que as pessoas pensam estar "demais" mas só nos levam a pensar "menos, por favor". E lá pelo meio há música, claro, mas muito longe... a não ser para quem foi para a porta do festival às 3 da tarde e correu para junto do palco, aguentando estoicamente e sentindo aquela adrenalina "será que é desta que fico aqui esmagado contra as grades, ou é só mais um dia em que passo 12 horas sem urinar?". Quem fica mais para trás, e vê os artistas, a verdadeira razão do festival existir, na linha do horizonte, como se fossem do tamanho de um Pollypocket, tem de se entreter com outros passatempos. O mais comum, e também o mais desafiante, é o "encontra um amigo também". Dos milhares de pessoas que encontramos no recinto, há pelo menos metade que passa a noite ao telemóvel a tentar localizar um amigo. "Estou atrás da Super Bock, à esquerda, de frente para o palco", grita o Raul. Não se ouve bem porque há uma banda qualquer a fazer barulho. De repente replicamos as conversas do verão de 93, junto à Bola da Nivea. Quando finalmente o encontramos, está a soar o último acorde da última música... e lembramo-nos que nem gostamos assim tanto do Raul. É um chato e vamos ter de esperar por um táxi durante 2 horas com ele...

Pedro Ivo Carvalho

Trump trata o ódio com amor

Não parece possível retratar, em simultâneo, a omnipresença e o vazio na capa de uma revista. Mas a mais recente edição da "New York Magazine" conseguiu-o: "Uma edição inteira com nada sobre Trump" foi o título escolhido, ilustrado com um apetecível e mordiscado gelado. Uma edição inteira a ignorar Trump usando Trump como isco. É retorcido, mas traduz de forma exemplar o quão avassaladora se tornou a presença no espaço público e mediático do milionário convertido em estadista. Podemos não querer ouvir falar dele, mas ele impõe-se, nem que seja pelo ridículo. É, aliás, desta equação que se alimenta o seu projeto de poder. Visibilidade a todo o custo.

A sua Opinião

Vai a algum festival de verão este ano?

ANYmal, o robô todo terreno de quatro patas

O ANYmal tem o aspeto de um cão robótico inofensivo. A forma como anda é engraçada e os seus gestos (se é que se pode aplicar esse termo a uma máquina com as suas características, já que não tenta imitar os comportamentos humanos) não são intimidantes.Apesar disso, há quem o tenha considerado assustador e houve até uma página sobre tecnologia que o incluiu entre os robôs mais "aterrorizadores". A culpa não foi dos criadores, a empresa suíça ANYbotics, centrada numa robótica útil, mas sim de um episódio da serie Black Mirror (concretamente, o quinto episódio da quarta temporada, cujo título é "Cabeça de Metal") em que um grupo de engenhos robóticos semelhantes a cães dominam a espécie humana pela força e a deixam à beira da extinção. O lema da ANYbotic, por sua vez, é: "Permitimos que os robôs cheguem a qualquer lugar". Talvez seja uma forma de manifestarem confiança numa tecnologia que não para de crescer e que deveria servir apenas para nos facilitar a vida. E é precisamente isso que se pretende com o ANYmal, um quadrúpede com capacidades impressionantes."Um robô comum tem rodas, o que é bastante bom" - assegura Peter Fankhauser, um dos cofundadores da empresa. "Tem inúmeras funções e bateria suficiente para operar durante horas. Porém, não pode ser usado à chuva nem em lugares com escadas. Por outro lado, os drones funcionam muito bem, trabalham de vários ângulos e proporcionam imagens incríveis. Contudo, a autonomia e a capacidade de carga são limitadas. O nosso robô é uma combinação de ambos. Desloca-se em qualquer tipo de terreno e, ao mesmo tempo, é capaz de transportar cargas significativas e a sua bateria tem bastante autonomia. Dura três horas e, como é autónomo, é capaz de regressar sozinho e recarregar-se numa estação.A versatilidade do ANYmal faz dele o robô perfeito para uma grande variedade de tarefas industriais, em interior ou exterior, para trabalhos de distribuição, de resgate, trabalhos agrícolas, florestais ou até para entretenimento. As quatro patas permitem-lhe caminhar, correr, saltar, escalar ou... dançar. Embora a mobilidade seja, obviamente, um dos pontos fortes do robô, é o restante equipamento que lhe permite ser uma ferramenta tão poderosa. Graças aos seus vários sensores, câmaras e aplicações, o ANYmal é capaz de traçar mapas, detetar mudanças de temperatura ou variações sonoras, o que lhe permite aplicar diferentes soluções no espaço em que se encontra a trabalhar.Embora, nesta fase, o ANYmal ainda seja uma versão beta, os seus criadores esperam comercializá-lo em breve. Para isso, estão concentrados em melhorar a sua robustez e algumas das suas competências.Além disso, a ideia é que funcione com API aberta, que permita aos clientes programá-lo para que possam adaptar-se a distintos tipos de tarefas. Porém... que não se gere o pânico, porque ninguém tenciona criar um exército de assassinos dispostos a espalhar o caos pelo mundo.Entrevista e edição: Maruxa Ruiz del Árbol, Noelia Núñez, David GiraldoTexto: José L. Álvarez Cedena

A Inteligência Artificial irá criar 58 milhões de postos de trabalho

Entre a desconfiança, a piada fácil e o medo absoluto, a extensão da inteligência artificial a todas as vertentes da nossa vida não deixa ninguém indiferente. Antes de morrer, o físico britânico Stephen Hawking afirmou que “o desenvolvimento de uma inteligência artificial completa pode significar o fim da espécie humana”. Outras figuras de relevo da área da tecnologia, como Elon Musk ou o cofundador da Apple, Steve Wozniak, comungam dessa preocupação. E, se as opiniões dos que estão destinados a abrir caminho neste terreno são tão pouco tranquilizadoras, ninguém pode censurar aqueles que, de posições mais desfavorecidas, olham com receio para umas máquinas que, a curto prazo, podem vir a pôr em causa o seu posto de trabalho. Também não ajudaram os filmes em que os robôs se lançavam à conquista do mundo, aniquilando ou escravizando a humanidade. A propósito deste ódio — menos irracional — o professor da universidade de Loyola, em Chicago, Steve Jones, afirmava num artigo para a revista Forbes que a população tem “a sensação de que há uma força não humana, chamada tecnologia, que é uma ameaça”. Jones assegurava existir o risco real de aparecer um movimento neoludita que, à imagem e semelhança dos Britânicos do século XVIII, encete uma luta contra as máquinas por porem em perigo o seu emprego. Um movimento que — realça Jones — não acredita que a política e a economia sejam as vias para lidar com o inevitável avanço das novas tecnologias.Nuria Oliver, prémio nacional de Informática 2016 e diretora de pesquisa de ciência de dados na Vodafone, crê que a inteligência artificial "terá um enorme impacto positivo na sociedade". E dá como exemplo o campo da saúde, onde as possibilidades que as novas tecnologias oferecem em áreas como a sequenciação do genoma humano ou a análise radiológica comparativa eram impensáveis há poucos anos. A inteligência artificial e os robôs serão, garantidamente, protagonistas daquilo a que já se chama quarta revolução industrial. Não obstante, Oliver está consciente do receio que esta difusão rápida das máquinas em tão pouco tempo desperta, particularmente no que diz respeito ao emprego: "todos os estudos antecipam uma transformação radical que vai implicar a extinção de milhões de postos de trabalho; no entanto, serão criados muitos mais. Segundo o Foro Económico Mundial, criar-se-ão 58 milhões de postos de trabalho”. Este otimismo que abre um leque de possibilidades deve ser acompanhado de uma adequada política educativa, visto que ser utilizador de tecnologia não é o mesmo que entender como funciona, e atualmente as crianças não são preparadas para virem a ocupar esses novos postos de trabalho que serão exigidos nos próximos anos. Oliver vê na evolução das máquinas uma grande oportunidade que não devemos deixar passar: "É muito importante que vejamos a inteligência artificial como uma oportunidade para melhorar a sociedade, para sobrevivermos enquanto espécie. No entanto, temos de nos preparar e de nos formar, para que isso posso ser uma realidade”. Entrevista e edição:  Azahara Mígel, Maruxa Ruiz del Árbol, David Giraldo Texto: José L. Álvarez Cedena