Especial

Estrangeiros invadem o futebol distrital

Clubes do interior optam mais por estrangeiros, porque têm dificuldades de recrutamento de jogadores locais.  Filipe Amorim/Global Imagens

De acordo com dados fornecidos pelas associações, existem mais de 500 em Portugal. Sp. Viana do Alentejo só tem dois portugueses.

Portugal é uma porta de entrada na Europa e uma janela que se abre no horizonte de muitos jogadores estrangeiros. O sonho é representado por uma bola e o nosso país uma rota com passagem obrigatória rumo aos "grandes palcos". A contratação de estrangeiros por equipas dos campeonatos distritais tem vindo a ganhar dimensão. Para perceber o fenómeno, o JN contactou todas as associações de futebol, mas só Viana do Castelo, Vila Real, Aveiro, Leiria, Setúbal, Évora e Beja forneceram dados relativos a 2018/19. De acordo com as informações, mais de 500 estrangeiros militam nesses distritais. O JN também fez pesquisas e encontrou clubes com números expressivos: o Olivais e Moscavide (A.F. Lisboa) tem 21 estrangeiros, o São Pedro da Cova (A.F. Porto) 11 - ver página ao lado -, o Cartaxo (A.F. Santarém) dez e o Sp. Viana do Alentejo tem 21 (20 são brasileiros) - e apenas dois são portugueses.

Uns chegam pelas mãos de empresários, outros por recomendação de familiares. Para muitos, o futebol é a única saída para uma vida melhor. A vontade de singrar, associada aos baixos salários - ou, muitas vezes, à falta deles - explicam, em parte, o aumento da aposta dos clubes. Por outro lado, alguns emblemas têm outros problemas. O interior desertificado e a dificuldade em construir um plantel fazem com que Joaquim Saraiva, presidente do Régua, receba estrangeiros - já foram 11 esta época: "A maior parte dos jovens quer ir para a universidade. Temos de procurar alternativas e os estrangeiros são uma boa opção". Em situação idêntica está o Alvarenga, da A. F. Aveiro. Situado numa aldeia com apenas 800 habitantes, conta com 13 estrangeiros, e sente na pele as mesmas dificuldades. "Não é fácil constituir um plantel com um nível competitivo alto, quando vivemos numa aldeia. Providenciamos habitação, alimentação e garantimos uma presença a tempo inteiro nos treinos", diz o presidente Marco Rodrigues. Também na A. F. Aveiro, o Famalicão tem um plantel com 21 jogadores e 18 são estrangeiros, mas o presidente do clube não quis prestar esclarecimentos. Para Rogério Lagarto, presidente do Sp. Viana do Alentejo, "a opção prende-se com questões financeiras" e com "a qualidade dos jogadores" que classifica como "muito boa".

Os atletas oriundos do Brasil, Angola, Guiné-Bissau e Moçambique estão no topo das preferências. Muitos vieram para jogar, mas acabaram "abandonados" pelos empresários. A contratação de estrangeiros é um tema sensível, que envolve diversos fatores a nível humano e económico. No mês passado, o SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras) identificou oito estrangeiros do Palmeiras (A. F. Braga) por se encontrarem em situação irregular. O mesmo sucedeu no Coruchense (A.F. Santarém) com 11 ilegais. Muitos vivem em más condições. Mas continuam a sonhar com o estrelato.

Não há limites nas inscrições

O regulamento competitivo da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), no qual as associações se baseiam, não prevê qualquer condicionante no que respeita ao número limite de jogadores estrangeiros. Neste sentido, a questão regulamentar prevê, apenas, que nos 18 inscritos na ficha de jogo tenham de constar dez elementos formados localmente - três épocas inscritos entre os 12 e os 21 anos - e três sub-21, levando a que os clubes recrutem cada vez mais cedo os jogadores. Não só para que cumpram os requisitos da FPF, como, também, para que sejam mais valorizados numa possível transferência.

Ricardo Rocha Cruz com R.A.S. e F.R.