O anúncio do cessar-fogo foi feito pelo Conselho de Segurança israelita, este sábado à noite, mas o Hamas recusou. "Nunca aceitaremos a presença de um soldado [israelita] em Gaza qualquer que seja o preço", disse Fauzi Barhum, porta-voz do movimento.
"Estes dois rapazes, indisputavelmente, estão tão inocentes quanto estão mortos". Foi com esta frase forte que John Ging comentou o ataque de Israel, ontem, a uma escola das Nações Unidas na vila de Beit Lahiya, no Nordeste da Faixa de Gaza - que matou dois irmãos de 5 e 7 anos e feriu mais 14 pessoas, incluindo a mãe dos dois rapazes, que perdeu as pernas no bombardeamento. "Tão inocentes quanto mortos", repetiu à Reuters o responsável da UNRWA, agência operacional das Nações Unidas para povos refugiados, recuperando outra pergunta: "Matar crianças não é um crime de guerra?".
A escola de Beit Lahiya - a quarta da ONU atingida por Israel desde 27 de Dezembro - foi um dos 50 alvos do 22.º dia de hostilidades militares sobre o enclave costeiro de Gaza. Desde o início dos ataques ao território de 1,5 milhões de habitantes, já foram mortos 1201 palestinianos, segundo o Ministério da Saúde em Gaza, citado pela AFP. Entre esses 1201 mortos, 410 são crianças. O número de feridos ultrapassou neste fim-de-semana os cinco mil; entre esses feridos há 1630 crianças. Do lado israelita há a registar três civis e 10 soldados mortos. As ocorrências foram registadas no perímetro de alcance dos morteiros islâmicos do Hamas (40 quilómetros até à fronteira com a Faixa).
Ao 22.º dia, Israel fez saber que vai abrir os seus hospitais aos feridos palestinianos e que o país está preparado para cessar o fogo. O anúncio viria de Ehud Olmert, primeiro-ministro de Israel, numa decisão unilateral entendida como mais uma demonstração de força, porque não procurou o entendimento com o oponente, o Hamas, que administrava Gaza. Recorde-se que o movimento islâmico propunha tréguas de um ano contra a retirada sionista.
Proclamado o cessar-fogo - com a ONU a exigir a apresentação de um calendário de retirada -, as tropas de Israel irão manter-se a curto prazo no território palestiniano. Pelo menos até estar acordado o controlo sobre a fronteira de Rafah, zona do sul encostada ao Egipto. O governo judeu procura agora assegurar com este país o regresso ao acordo de 2005, que atribuía responsabilidades de vigia partilhada à União Europeia e à Autoridade Palestiniana.
Será pela fronteira de Rafah que começará a entrar o maior fluxo de ajuda humanitária. Israel, no entanto, segundos várias agências, fará depender esse calendário de bens essenciais da libertação de Gilad Shalit, soldado judeu refém do Hamas.
Neste últimos dias, multiplicam-se os esforços diplomáticos para se conseguir a efectivação das tréguas, mantendo sempre no horizonte a importância da próxima terça-feira, dia em que os Estados Unidos juram um novo presidente, o 44.º. Barack Obama, recorde-se, nunca se pronunciou sobre a guerra em Gaza - mas fez saber que, quando assumir a presidência, daqui a 48 horas, vai ter "muito a dizer" sobre o conflito.
Hoje, a atenção diplomática centra-se em Sharm el-Sheikh, estância turística do Mar Vermelho que acolherá uma "conferência de reconstrução", como lhe chamou Hosni Mubarak, presidente egípcio. O encontro, co-organizado pelo presidente francês Nicholas Sarkosy, incluirá Mahmoud Abbas, presidente palestiniano, e Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU. Diversos diplomatas ocidentais, sobretudo britânicos, alemães, espanhóis e turcos estão presentes.