No dia seguinte às eleições em Espanha, a 29 de abril, fui a Madrid depor no "El procés catalán" no Tribunal Supremo. Em defesa do meu colega de 10 anos no Parlamento Europeu Raul Romeva, hoje preso e acusado dos crimes de rebelião e sedição.
Que implicam violência - a que ele nunca recorreu e sempre combateu, sendo pela resolução pacífica de conflitos. Em especial do que dilacera Catalunha e Espanha, por obstinada recusa de negociação.
Convém lembrar - como fiz em Tribunal - que o conflito escalou ao ser posto em causa (pela Direita do PP) o Estatut de Autonomia da Catalunha, negociado pelo Governo de Zapatero (PSOE) e aprovado pelas Cortes de Espanha e pelo Parlamento da Catalunha em 2006. Evoquei também o contraste daquele dia 1 de outubro de 2017 em que Portugal votou tranquilo nas autárquicas, enquanto televisões do Mundo projetavam a violência policial espanhola a impedir cidadãos na Catalunha de votar no referendo sobre independência.
Europeísta e federalista, não sou pela independência da Catalunha e discordei de um referendo sem acordo com Madrid. Mas não se pode ignorar que foi o Governo de Espanha (PP) quem recusou a negociação, quem suspendeu a autonomia com a declaração do art.º 155 e a prisão dos líderes catalães. De uma Espanha arrogante e centralista, resistente a evoluir para um quadro federal democrático que valorize a pluralidade das identidades nacionais plasmadas nas autonomias.
A Espanha ultranacionalista perdeu, felizmente, as muito participadas eleições de 28 de abril. Para isso concorreu o encosto de PP e Ciudadanos às teses dos franquistas do VOX, fazendo a questão catalã tema central da campanha.
Por estranho que pareça, deparei-me com o VOX na audiência do "El procés", onde até podia ter-me interrogado (mas não o fiz), graças ao estatuto de "acusación del pueblo" que o tribunal lhe concedeu, apesar do aproveitamento propagandístico para efeitos eleitorais.
28 de abril permitiu uma "geringonça" protagonizada pelo PSOE, com apoio do Podemos e de partidos autonomistas. Esperemos que assim se retome o diálogo para a salvação da Espanha resolvendo a questão catalã. Diálogo que deve implicar a ERC (Esquerda Republicana) e o Partido Socialista da Catalunha, que cresceram nestas eleições graças à moderação que advogaram.
O PSOE já admite que "El procés" acabe em indultos. A 28 de abril o catalão Raul Romeva foi eleito senador de Espanha. A 26 de maio Oriol Junqueras (líder da ERC, também sob idênticas acusações) deve ser eleito, de novo, para o PE. Um Governo progressista não pode dar de Espanha a triste imagem de ter um senador e um eurodeputado como presos políticos.
*Eurodeputada