Cristina Azevedo

Céu de tempestade

O (quase) verão vai cinzento e o ambiente político não parece exatamente desanuviado.

O pano de fundo desta inquietação latente pode bem ser o espetáculo deprimente das sucessivas reuniões da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) à CGD onde num teatro de sombras se agiganta a má memória enfrentada por perguntas inúteis de consequências devastadoras para a nossa imagem coletiva.

É penoso assistir à defesa atrabiliária de um ex-governador, mas mais penoso ainda é perceber que as armas usadas no arremesso atiram completamente ao lado de tudo o que é importante.

Insistir numa potencial culpa individual sobre o resultado de uma cadeia de responsabilidades é inútil. Mas não é indiferente.

Todos os membros das CPI sabem que o modelo de supervisão estritamente considerado não servia, não serve nem servirá para julgar a bondade de reconfigurações acionistas. Servia à época, quase só, para manter rácios legais de capital e provisões, de acordo, diga-se, com padrões definidos e aceites em convenções internacionais. E falhou, durante a crise, em Portugal como em vários países da Europa.

Por muito que custe, a verdade nua e crua é que o que falhou foi o sistema porque nenhuma das suas componentes pode ou quis ir mais além.

No meio disto, claro, teremos comportamentos criminais a identificar, a provar e a punir.

Insistir nesta forma de esclarecimento parlamentar, com toda a amplificação tantas vezes superficial ou precipitada que lhe assiste, é, sobretudo, levar a níveis assombrosos o achincalhamento e o descrédito das pessoas e das instituições.

O mais visível resultado de tudo o que se tem passado na AR nas últimas semanas é o fornecimento grátis de matéria para programas humorísticos, difíceis de resistir, é certo, mas de graves consequências sobre a responsabilidade e a idoneidade com que todos devíamos assumir a nossa vida coletiva.

Talvez o dr. Vítor Constâncio possa não se lembrar e, lembrando-se, ter zero culpa.

Nós é que não podemos esquecer o que deixamos que acontecesse por tantas vezes nos resignarmos a passar por cima de coisas sérias ao serão, a rir......

* ANALISTA FINANCEIRA

Cristina Azevedo