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SNS perdeu 231 médicos no final da especialidade

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O Serviço Nacional de Saúde (SNS) está cada vez menos atrativo para os médicos que terminam a formação especializada.

No ano passado, 231 recém-especialistas formados no SNS não ficaram vinculados ao serviço público. Melhores condições de trabalho no setor privado e no estrangeiro estarão na base da maior parte das rescisões.

Os dados constam do Relatório Social do Ministério da Saúde e do SNS 2018, divulgado esta semana. O documento revela que dos 1335 especialistas que, no ano passado, terminaram o internato médico em entidades EPE (Entidade Pública Empresarial) e SPA (Setor Público Administrativo) 1104 foram contratados pelo SNS.

A diferença (231) foi superior à verificada nos anos anteriores. Em 2017, 187 médicos não ficaram no SNS após concluírem o internato e, em 2016, foram 220, de acordo com os relatórios sociais dos respetivos anos.

Os números absolutos são expressivos, mas olhando para o quadro geral a taxa de retenção global foi de 83% em 2018, ligeiramente abaixo de 2017 (84%).

Perda de 20% é "excessiva"

Numa análise mais detalhada, pode constatar-se que, no ano passado, o SNS perdeu 49 recém-especialistas em Medicina Geral e Familiar dos 395 que se formaram naquele ano, ainda que em termos globais a taxa de retenção tenha sido das mais elevadas (88%). Em Medicina Interna, 41 dos 188 recém-especialistas preteriram o SNS (retenção global de 78%).

Em especialidades com menos recém-formados, como cirurgia maxilo-facial, o SNS só reteve um dos três especialistas que concluíram o internato (33%). Em Neurorradiologia e Urologia, os hospitais perderam três dos nove médicos que formaram em cada uma das especialidades (67%).

"É uma tendência que infelizmente está a aumentar", admite o bastonário da Ordem dos Médicos, considerando "excessiva" a perda de quase 20% dos recém-especialistas. Para Miguel Guimarães, a ideia de obrigar os médicos a permanecerem alguns anos no SNS após a especialização não faz sentido em democracia e seria pouco útil, já que estamos perante uma geração "mais exigente em termos de condições de trabalho e mais recetiva a procurar alternativas que satisfaçam as suas necessidades". O bastonário considera que "o grande desafio do SNS" é o de manter-se "atrativo para as novas gerações".

Melhores condições de trabalho, remunerações mais altas e tempo para investigação, oferecidas pelo setor privado e por instituições públicas e privadas estrangeiras, estão entre as principais razões para a desvinculação.

Mariana Brandão e Edson Oliveira são dois exemplos [ler textos ao lado]. Mariana é oncologista e deixou o SNS quando terminou a especialidade porque queria acumular a atividade clínica com investigação. Em Portugal, não dava e partiu para Bruxelas. Edson, neurocirurgião, pediu à direção do Hospital de Santa Maria uma redução do horário de trabalho para fazer o doutoramento. Foi-lhe recusado porque tinha implicações nas escalas da urgência.

386 certificados para trabalhar fora - foram pedidos à Ordem dos Médicos, entre janeiro e junho deste ano, quase o triplo em relação ao mesmo período de 2018.

Mais formação - Em 2020, o número de vagas para internato médico será o maior de sempre, anunciou há dias o bastonário. Mas tal não significa que no fim todos fiquem a trabalhar no SNS, avisou.

Especialista em Oncologia Médica, Mariana Brandão terminou o internato no IPO do Porto em 2017. Logo percebeu que para acumular a atividade clínica com investigação, "algo muito comum noutros países", teria de deixar o SNS. Desvinculou-se e partiu para Bruxelas. No Institut Jules Bordet, além da área clínica, faz investigação médica em cancro da mama. Ali encontrou organização, flexibilidade no trabalho e valorização profissional, conta.

Especialista em Neurocirurgia do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, Edson Oliveira pediu uma redução do horário de trabalho para fazer o doutoramento e manter a atividade clínica. A resposta foi negativa porque tinha implicações nas escalas do serviço de urgência e o médico ameaçou rescindir. A custo, "depois de várias investidas" junto da direção clínica, conseguiu uma licença sem vencimento. Ainda assim, não esconde a desilusão e denuncia a falta de legislação que proteja o especialista que quer fazer investigação.

Inês Schreck