Desporto

Pedro Carvalho dizia aos 13 anos "que ia ser o melhor do mundo". Hoje quer prová-lo

Pedro Carvalho pode sagrar-se campeão do mundo esta sexta-feira DR

Aos 13 anos, Pedro Carvalho já dizia que ia ser o melhor lutador do mundo. Aos 20, foi para a Irlanda em busca do sonho. Após muitas adversidades, pode tornar-se, esta noite, campeão do mundo na liga Bellator.

"Nunca fugi de um desafio. Aquilo que eu digo é real, vem do coração. Não digo para as câmaras ou para me promover. Eu sou o melhor e acredito mesmo que sou o melhor". É com esta confiança que Pedro Carvalho tem vindo a aumentar a sua notoriedade no mundo do MMA (artes marciais mistas), que culmina esta sexta-feira, com a disputa do título.

Aos 24 anos, o português de Guimarães foi um dos selecionados para participar num torneio da divisão de peso-pena organizado pelo Bellator, em que o vencedor não só sai com o título de campeão, mas também com um prémio de um milhão de dólares (perto de 900 mil euros).

O seu adversário é o brasileiro Patrício "Pitbull" Freire, atual campeão da categoria, e, se o vencer, Pedro pode sair da Mohegan Sun Arena, em Uncasville, Connecticut, EUA, como o novo rei dos peso-pena. Apesar de ainda estar nos quartos de final, pode tornar-se no campeão caso enfrente e vença quem detem o título atualmente. Mesmo em caso de vitória, o torneio continua para as fases de meia-final e final.

Amor à primeira vista que nasceu graças a um programa de televisão

"O meu percurso começou aos 13 anos. Vi um programa de televisão de MMA que estava a estrear e foi logo amor à primeira vista. Não sabia que existia o desporto no meu país, nem na minha cidade. Mais tarde descobri através de um amigo que havia a equipa do Rafael Silva e fiz logo a inscrição", referiu Pedro, em entrevista telefónica ao Jornal de Notícias, a partir de Nova Iorque.

Rapidamente, o desporto se tornou uma paixão e a única coisa que queria fazer era treinar, nem que fosse preciso faltar às aulas ou até mesmo a exames. Passo a passo, decidiu que era aquilo que queria fazer da vida e tornou-se profissional quando tinha apenas 17 anos.

"A única coisa daquela altura que se mantém hoje é a crença que tenho em mim mesmo. Desde o início que eu disse que ia ser o melhor do mundo. Naturalmente, ninguém acreditou. Imagine-se um miúdo de 13 anos de Polvoreira (Guimarães) a dizer que vai ser o melhor do mundo...".

Após cinco vitórias em seis combates ainda em Portugal, sofreu duas derrotas consecutivas e percebeu que algo tinha de mudar. Aos 19 anos, foi trabalhar para uma fábrica de forma a ganhar dinheiro para concretizar o grande objetivo: mudar-se, juntamente com a sua namorada Carla, para a Irlanda. Era lá que poderia "dar o salto" e alcançar um nível muito superior no MMA. Aos 20 anos, começou a treinar na academia Straigh Blast Gym, onde estava, para ele, o melhor treinador do desporto: John Kavanagh.

"O que me motivou foi a minha vontade de provar que sou o melhor. Queria treinar para ser o melhor e isso foi a principal razão para ir para a Irlanda. Sempre gostei do John. A maneira dele trabalhar, como ele vê e aborda o desporto sempre foram aspetos que me agradaram", referiu.

Mas o início na Irlanda não foi nada fácil. Ele e a namorada não conheciam ninguém, mas o principal problema foi o facto de Pedro não conseguir arranjar um emprego durante três meses. Até que surgiu uma oportunidade de ir limpar casas de banho para um hospital local e assim esteve durante um ano.

O momento em que tudo ia começar: "correu-lhes mal"

"Lembro-me que me estava a preparar para um treino quando o John me mandou mensagem a informar que iria combater no Bellator. Aquela era a altura em que tudo ia começar", acreditava. E foi uma estreia de gala frente ao inglês Daniel Crawford. Tanto, que até surpreendeu a organização.

"Fui chamado porque precisavam de alguém para o Daniel entrar em grande. Correu-lhes mal. Nós sabíamos para o que íamos, mas nunca me queixei, tinha a oportunidade e era a única coisa que pedia. Só precisava de ganhar. Era esse o meu trabalho e foi nisso que me foquei".

Depois da vitória sobre o inglês, a situação tornou-se complicada. O plano do Bellator não passava por ele e nem era suposto o português estar nessa liga. Mas passo a passo, Pedro foi cimentando o seu nome e conseguiu três vitórias consecutivas por finalização, sobre Luca Vitali em apenas 40 segundos, Derek Campos em dois minutos e Sam Sicilia na segunda ronda (combate já no torneio de peso-pena).

"Perante todos os sacrifícios que fiz de estar longe da minha família, longe do meu filho nos seus primeiros 18 meses de vida, aquilo que senti foi que tudo era merecido", referiu.

A maior luta da carreira

Competir por um título mundial numa das maiores ligas de MMA é a maior luta da carreira Pedro até ao momento. Patrício Freire, o adversário desta sexta-feira, é duplo campeão (divisões de peso-pena e leve) e é considerado um dos melhores lutadores da atualidade. Mas este estatuto não afeta a confiança do português.

"Para mim é mais uma luta, quando estou dentro daquela jaula não vejo nomes. Mas claro, deixa-me bastante contente estar a enfrentar o melhor nome do Bellator, mas isso são detalhes. Estou aqui para provar que sou o melhor e é este tipo de oportunidades que procuro", afirmou.

A preparação de Pedro foi "como todas as outras": treina todos os dias e não tira férias. A única coisa que mudou para este combate é a intensidade. Definiu em conjunto com a sua equipa o plano de jogo e trabalhou sempre em torno dele. Para além da preparação física, a preparação mental é algo fulcral para atletas de alta competição.

"Eu não me estou a gabar mas não há ninguém que me consiga bater ou quebrar a nível psicológico. Há dois anos, trabalhei durante duas semanas com uma preparadora psicológica, mas rapidamente ela percebeu que não valia a pena trabalhar comigo, não havia nada que ela pudesse fazer no aspeto mental".

O objetivo de Pedro é deixar claro que ele é o melhor lutador. Por isso, ter um nome como Patrício na sua lista de vitórias é um passo em frente em torno dessa missão.

O caso de Portugal

Em Portugal o MMA ainda é um desporto em crescimento. Os atletas vão começando a aparecer e a serem mais reconhecidos pela população geral. Já existem várias academias, mas a procura das pessoas por este desporto ainda é escassa visto que não há uma grande tradição das artes marciais mistas e nunca houve nenhum nome marcante na modalidade.

Na opinião de Pedro, é necessário que haja uma figura portuguesa que faça sucesso no estrangeiro para o desporto começar a ser mais falado a nível nacional. "Passo a passo, as coisas vão acontecer. Vejo um bom futuro para o MMA em Portugal".

Pedro Carvalho compete esta sexta-feira pelo título mundial de peso-pena, no Bellator 241, na Mohegan Sun Arena, EUA. O evento não será exibido nos canais de televisão portugueses.

Eduardo Pedrosa da Costa