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País espera mais mortos e prepara-se com urnas e câmaras de frio

Paulo Jorge Magalhães/Global Imagens Camião-frigorífico foi instalado no Hospital de Braga

Hospitais, agentes funerários e até municípios ampliam resposta para acolher cadáveres. Experiência com os incêndios de Pedrógão serve de exemplo.

"Antecipar o pior, esperando o melhor". O lema do presidente da Câmara de Cascais, Carlos Carreiras, resume o que se estará a passar um pouco por todo o país em termos do reforço da capacidade de frio para acolher cadáveres. E dos stocks de urnas nas funerárias para dar resposta a uma eventual subida do número de mortes por Covid-19.

A Autoridade Nacional de Proteção Civil fez o levantamento das existências junto dos agentes funerários. Do Norte ao Sul, o Ministério da Justiça está a reforçar a capacidade frigorífica, no âmbito do Plano de Emergência Nacional. "Já se procedeu ao reforço em Lisboa, Porto, Coimbra, Braga, Castelo Branco, Faro, Portimão e Vila Franca de Xira.

Continuará a proceder-se ao reforço noutros locais, sempre que necessário", informou ontem fonte do ministério. "Está programada uma monitorização diária da capacidade das câmaras frigoríficas das delegações, em Lisboa, Porto e Coimbra, e gabinetes médico-legais e Forenses, instalados em hospitais, existindo partilha de câmaras frigoríficas", acrescenta a tutela.

No Hospital de Braga, está instalado desde ontem um camião-frigorífico. Junto à morgue, estarão também duas câmaras refrigeradoras, uma do Ministério da Justiça (Instituto de Medicina Legal) e outra do Ministério da Saúde, segundo fonte hospitalar.

"Stock" de urnas

O autarca de Cascais antecipou-se às autoridades de saúde e comprou um contentor frigorífico, que está instalado desde 31 de março. Carlos Carreiras entendeu que deveria preparar o município para um cenário de catástrofe, depois do que aconteceu com os incêndios de Pedrógão, em que os corpos tiveram de ser acondicionados num camião-frigorífico. "Quando foram os fogos [a falta de capacidade de frio], foi um problema porque o número de cadáveres era muito elevado", explica, garantindo que o município "mais do que duplicou a capacidade".

"Com as restrições dos funerais, poderemos desta forma guardar os cadáveres enquanto não forem enterrados ou cremados. No limite, também servirá para as famílias aguardarem para poderem fazer mais tarde o funeral", acrescenta o autarca.

Vítor Teixeira, presidente da Associação de Agentes Funerários de Portugal, que representa cerca de 300 funerárias do Norte, confirma que o setor está a preparar-se. "Estamos precavidos com mais urnas, que no fundo é o elemento mais importante num funeral. Notei que houve uma necessidade de tornar o stock maior. É por precaução. Não creio que seja expectável um grande aumento de mortes", disse.

SETOR

Fornecimento de materiais está condicionado

Vítor Teixeira, presidente da Associação de Agentes Funerários de Portugal, diz o fornecimento de materiais como sacos para cadáveres às funerárias está condicionado pelo Estado. "Um fornecedor de consumíveis, de sacos de cadáveres e outros materiais, teve uma requisição civil do stock e nem puderam servir alguns clientes. Estão limitados porque houve orientação para que guardassem o stock", explicou.

Questionado pelo JN, o Ministério da Administração Interna (MAI) negou qualquer tipo de condicionamento. "Não houve qualquer requisição civil de material necessário a cerimónias fúnebres por parte do Estado".

O Estado pode decretar uma requisição civil (Decreto-Lei n.º 637/74), quando está em causa "o regular funcionamento" de atividades fundamentais.

Ana Peixoto Fernandes, Delfim Machado e Inês Banha