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Grupo luso-espanhol fez "1.ª vítima da ETA"

Sessenta anos depois, "descoberta" autoria da morte de Begoña Urroz

Diretório Revolucionário Ibérico de Libertação (DRIL) terá sido autor de atentado que matou menina de 20 meses.

A organização revolucionária luso-espanhola Diretório Revolucionário Ibérico de Libertação (DRIL) foi a responsável, há 60 anos, pela explosão de uma bomba na estação ferroviária de Amara, em San Sebastian, no País Basco, de que resultou a morte de uma criança de 20 meses.

O atentado era atribuído à ETA e a data - 27 de junho - foi aprovada em 2010 pelo Congresso espanhol como Dia das Vítimas do Terrorismo, para assinalar a primeira vítima da organização separatista basca, embora esta só existisse a partir de 1961.

Segundo uma investigação publicada na quarta-feira pelo diário "El País", um documento policial inédito confirmam que o DRIL foi responsável pela deflagração de um engenho numa mala entregue naquela estação, onde uma tia da menina Begoña Urroz, Soledad Arruti, era encarregada do despacho de bagagens.

O DRIL, que visava o derrube das ditaduras fascistas de Franco e Salazar e chegou a defender uma federação ibérica, este ativo entre 1959 e 1964 e tinha como principal dirigente português o capitão Henrique Galvão (dissidente do regime), com o aval do general Humberto Delgado, partilhando o comando com dirigentes espanhóis.

A operação mais conhecida, com repercussão mundial, foi o assalto ao paquete português Santa Maria (22 de janeiro de 1961, nas Caraíbas), co-chefiado por Galvão e pelo comandante "Jorge Soutomaior" (nome de guerra do galego José Hernánez Vasquezo).

Delgado reinvindica

O seu historial regista atentados com quatro bombas em Madrid, em 18 de fevereiro de 1960, e vários ataques idênticos na Catalunha e no País Basco, em junho desse ano - todos executados por espanhóis.

Na época, a Polícia chegou a recolher provas contra os suspeitos da explosão na estação de Amara - Guillermo Santoro e Reyes Marín - , que conseguiram fugir para a Bélgica, sendo amnistiados em 1977.

Segundo"El País", com base nas investigações de especialistas do Memorial de Vítimas do Terrorismo, no início de julho, Henrique Galvão reivindicou para o DRIL os atentados em Espanha e em particular o que vitimou Begoña, em artigos no jornal "El Nacional", da Venezuela, onde estava exilado.

O assunto esteve esquecido, até que, em 1992, um vigário da diocese de San Sebastian citou uma catequista que conhecia a família de Begoña e atribuía o atentado à ETA, e a Polícia lia num documento do ex-dirigente da organização José Luis Álvarez Santacristina uma menção ao ataque, mas sem estabelecer a sua autoria.

Politicamente, a tese da autoria do atentado pela ETA foi "fixada" em setembro de 2000, pelo ex-ministro socialista Ernest Lluch, morto a tiro em novembro, num ataque atribuído àquela organização. A consagração da data da morte de Begoña Urroz como Dia das Vítimas do Terrorismo foi proposta em 2010 pelo então presidente do Congresso, José Bono (SOPE), e aprovada por unanimidade.

Alfredo Maia