Cristina Azevedo

Os arquitetos são uns chatos!

"Portugal não gosta de arquitetura. Os arquitetos são os chatos que vêm complicar tudo". Ouvi isto, por esta ordem, da boca de Siza Vieira e até me arrepiei. Mas, pondo-me a pensar, cheguei à conclusão de que o arquiteto tinha razão.

Debatem-se entre os donos de obra particulares, sempre com falta de tempo para perceberem como o arquiteto responde àquilo que lhe foi pedido, e os donos de obra pública, tantas vezes consumidos pelo retorno de um nome de cartaz, mas sem verdadeiro interesse pelo artista e a sua obra.

Fazem projetos que entregam antes de lhes serem pagos. Participam em concursos com critérios de avaliação baseados apenas no preço mais baixo. Avançam para a obra, quando conseguem ganhar, sem a menor ideia de quando receberão as verbas acordadas.

Isto é genericamente mau mas passa a angustiante quando vemos triturados nesta engrenagem artistas da craveira de Álvaro Siza, Souto de Moura e tantos outros com reconhecimento e projeção internacional.

Sim, sabemos que as regras processuais e administrativas obrigam a que quem desenhava uma obra de arte no estirador tenha agora de se socorrer de equipas inteiras de juristas a economistas para conseguir entregar um projeto. E também sabemos que a proteção da livre concorrência, via contratação pública, se transformou numa armadilha que rouba muitos graus de liberdade aos adjudicatários. Mas, mesmo assim, há que perceber o valor ímpar de tantos dos nossos arquitetos e fazer de tudo para garantir o máximo da sua produção, com liberdade, enquanto estão entre nós.

O retorno é garantido. Digo isto a partir de uma casa extraordinária, onde passo uns dias de descanso, projetada por Alcino Soutinho. Aqui, o arquiteto foi livre e a obra que sonhou entre penedos e arvoredo, captando a luz filtrada por mil tons de verde, incorpora de tal forma o sentido da beleza que transforma a qualidade do tempo em que por ela passo.

E este é um sortilégio para muito poucos feiticeiros.

Analista financeira

Cristina Azevedo