Filho alcoólico de 53 anos ficava com alimentos entregues em casa por merceeiro há dois anos. Dinheiro da vítima sustentava vício do álcool.
Um homem de 53 anos, alcoólico inveterado e desempregado, manteve a mãe, de 82 anos, acamada em casa, em Grândola, durante cerca de dois anos sem lhe dar os alimentos que o merceeiro entregava à porta, e levantava a sua pensão de reforma para alimentar o vício de álcool. A idosa, Isabel Velez, acabou por morrer no sábado, na miséria e num cenário grotesco: encontrava-se magra cadavérica e sucumbiu pela falência dos órgãos vitais.
De acordo com informações recolhidas pelo JN, era na cama do quarto do número 10 da Rua 25 de Abril, em Grândola, que a vítima vivia e era na mesma cama que urinava e defecava. Tinha escaras pelo corpo devido à falta de mobilidade e vestia umas calças de Inverno que nunca tinham sido mudadas, o que leva a crer que estava no mesmo sítio desde finais do ano passado. Na remoção do corpo, houve mesmo necessidade de cortar as calças, por estarem já coladas ao corpo e à cama.
O filho, que comia todos os alimentos entregues em casa, estava com boa compleição física. A única preocupação que tinha era a de disfarçar o cheiro do quarto da mãe com ambientadores a pilhas. Afinal, não queria que os vizinhos suspeitassem do que se passava dentro de casa, correndo o risco de perder acesso à reforma da idosa. Não era ele que a levantava nos CTT. Era um comerciante amigo da mãe, que nunca desconfiou de nada. O dinheiro era levantado e entregue ao homem.
"Pocilga" cheia de lixo
Pelas 13.40 horas de sábado, o filho alertou as autoridades. Os bombeiros foram em socorro, à espera de encontrar alguém em paragem cardiorrespiratória. O suspeito tinha referido que a mãe tinha deixado de respirar há pouco tempo.
Os operacionais dos bombeiros de Grândola ficaram chocados com o cenário. O cheiro nauseabundo não deixava que estivessem muito tempo dentro de casa. Nem eles nem a GNR, que chamou a PJ de Setúbal. A casa estava imunda, uma autêntica "pocilga", com lixo acumulado, garrafas de vinho e um cheiro intenso que fazia arder a vista.
À chegada das autoridades, o homem apresentava-se calmo e apático. O mesmo sentimento com que lidou com a mãe acamada ao longo de tanto tempo. Apresentava sinais de sofrer desequilíbrio mental. Mas este estado explicava-se pelo consumo excessivo de álcool. Afinal nunca lhe foi diagnosticada qualquer perturbação mental. A PJ recolheu provas até perto das 19.40 horas, quando os bombeiros removeram o cadáver da vítima e transportaram-no para o Hospital do Litoral Alentejano, onde será autopsiado.
O suspeito foi detido e indicado por homicídio qualificado. Interrogado ontem no Tribunal de Grândola, viu o juiz colocá-lo em prisão preventiva.
Separou-se devido ao alcoolismo e voltou a casa
Há cinco anos, o suspeito separou-se da atual esposa, de quem nunca se divorciou formalmente, e foi viver com a mãe para o número 10 da Rua 25 de Abril. A ex-companheira deixou de aguentar o constante estado de embriaguez e expulsou-o de casa. Desde a separação que deixou de trabalhar e entregou-se completamente à bebida. Nos últimos cinco anos não era visto regularmente na rua, mas saía apenas para comprar álcool. A vizinhança nunca desconfiava de maus-tratos ao ponto de chamar as autoridades, mas a investigação apurou que chegavam a ouvir discussões entre os dois dentro de casa. O suspeito não tem antecedentes criminais.