Cultura

Nick Cave fecha a noite das presidenciais

Aconteça o que acontecer nas eleições deste domingo, a partir das 23 horas troque o comentário político pela homilia visceral de Nick Cave.

Cada um de nós terá o seu álbum preferido de Nick Cave, mas o lancinante "Sketeton Tree" (2016), o 16.º em comunhão com os Bad Seeds, não passará ao lado de nenhum coração que bombeie sangue. Era o álbum que o contador de histórias australiano estava a gravar quando perdeu Arthur, o filho gémeo de 15 anos. Cave mudou as letras e quase tudo nele mudou desde a queda naquele penhasco. Já não é o homem que viveu e diz como é, é o homem que perdeu e mostra como é. Já não é o lobo que uiva, já não é a descarga elétrica dos Grinderman, é um pregador.

Foi com esse álbum, o sucessor do insuportavelmente descrente "Push the Sky Away", que a banda se apresentou na Royal Arena, em Copenhaga, a 20 de outubro de 2017, diante de 16 mil pessoas. E foi esse extraordinário concerto - um cientista poderia explicar aquele impacto em todos os que se comoveram não estando lá com a teoria do caos: quando uma borboleta bate asas na China provoca uma tempestade em Nova Iorque - que depois deu origem ao filme "Distant Sky". A soprano dinamarquesa Else Torp surge justamente nesse dilacerante hino de perda, ela a engolir em seco, ele de olhos marejados, o violino de Warren Ellis a rasgar tecidos que nem sabíamos que tínhamos, uma avalancha, "parte para um céu distante, isto não é para os nossos olhos".

Às 23 horas deste domingo, quando já falarmos das presidenciais no passado, a RTP2 transmitirá, enquanto esperamos por "Carnage", este lendário concerto, 88 minutos de profunda e imperdível homilia.


Os Oscars ainda estão longe (cerimónia a 25 de abril, um domingo) mas o horizonte já se vê: os nomeados serão anunciados a 15 de fevereiro - figas para a "Vitalina Varela" de Pedro Costa, que ainda pode entrar no lote de eleitos do filme estrangeiro. Com extensas e vibrantes listas de prognósticos já a inundar as publicações da especialidade, há um filme que as atravessa a todas: "News of the world", o novo melodrama com Tom Hanks, realizado por Paul Greengrass.

O filme, que estreia na Netflix a 10 de fevereiro, mas que já circula nos streamings paralelos, segue a história de Kyle Kidd, um soldado veterano dos Confederados que viaja pelo Texas em 1870, cinco anos depois do fim da Guerra Civil que opôs norte e sul e separou para sempre a América democrata e os sulistas pró-escravização (que Lincoln já havia abolido).

Kidd é um leitor de notícias profissional, viaja de cidade em cidade e é pago para ler as notícias aos habitantes locais, que se reúnem à noite num bar, numa igreja ou num prado, à fogueira, e pagam 10 cêntimos cada para que alguém lhes diga o que se passa no país e no mundo. Solitário errante, contador de histórias antigo e entertainer, Kidd está impregnado de uma profunda humanidade e valor - ele é o conhecedor dos factos, o portador da verdade. O espanto é a reação que mais vezes vê àquilo que lê em voz alta.

Um dia, a cruzar localidades no seu cavalo, a sua vida muda: depara-se com um cenário de linchamento, um homem negro a pender morto numa corda e um cartaz ao peito onde se lê "o Texas diz não! Este é o país do homem branco". Imediatamente ressoa em nós um lembrete gritante de onde estivemos na América, não há muito tempo. Depois, o capitão Kidd avista uma criança perdida, que rapidamente descobre ter sido levada pela tribo índia Kiowa quando os seus pais, brancos, foram chacinados, e que fora criada como índia e só fala kiowa. Começa aí a sua epopeia: devolver a criança à família e cruzar com ela meia América.

Melancólico e emocionalmente violento, perfeito para toda a família, "News of the world" é a história de um homem decente a navegar numa terra brutal que continua a ansiar por aqueles que lhe entregam o mais precioso dos bens essenciais: a verdade.

E para fechar uma canção nova que não nos sai da cabeça: "Violence", de Grimes, a cantora canadiana de dream pop que casou em 2018 com Elon Musk, o dono da Tesla e da Space X, e de quem tem um filho chamado X Æ A-12, sim, leu bem, X Æ A-12. A versão preferida é a da remistura de Rezz, que saiu no fim de ano: beats, arpejos, fantasia e tudo aquilo que, com o volume no máximo, nos tire, nem que seja só por três minutos e só dentro na nossa cabeça, deste imprestável "novo anormal".

Helena Teixeira da Silva