Cultura

O disco em que Amália encontrou a sua alma gémea na música

Amália Rodrigues (1990) AP/Armando Franca

Lançada edição especial de "Busto", obra que marca o início da longa parceria com Alain Oulman. "Foi uma revolução", diz o investigador Frederico Santiago.

Em 1961, Amália Rodrigues estava no auge da carreira. A sua voz era aclamada nos palcos de todo o Mundo, fossem eles em Nova Iorque, Bruxelas, Brasil ou Marrocos. E, todavia, exigente e perfeccionista como era, não se contentava apenas com a adulação popular. Ambicionava uma evolução artística contínua, como o vinha a fazer desde que surgiu de rompante no meio fadístico, mais de duas décadas antes.

O encontro com Alain Oulman proporcionou-lhe o passo em frente com que tanto sonhara. Num ápice, o discreto compositor de origem francesa ajudou-a a consumar o que já tinha aflorado: a aproximação entre a música popular e a poesia erudita, através de autores como Camões, José Régio, Pedro Homem de Mello ou Alexandre O"Neill.

"Foi uma revolução não premeditada", resume o investigador musical Frederico Santiago. Coordenador da reedição integral da obra de Amália Rodrigues pela Valentim de Carvalho, Santiago acredita que a ligação artística frutuosa entre ambos "foi o desenvolvimento natural do que ela vinha a fazer". Apesar de já anteriormente ter interpretado grandes poetas, graças a Alain Oulman "pôde cantar decassílabos e fazer coisas impensáveis na altura". Ainda hoje, o especialista garante não conhecer "nenhum outro cantor popular no Mundo que tenha cantado tanta poesia erudita".

O fascínio foi mútuo. O compositor mostrou-se rendido "à voz única" da fadista, que se manifestava "na rara inteligência de dizer cantando" e "no domínio total da técnica".

"Procura da perfeição"

Primeiro disco que resultou da parceria entre Amália e Oulman, "Busto" - décimo quinto volume do plano de remasterização em curso, feito a partir das bobinas originais - já está disponível nas lojas.

O disco surge com uma edição especial que inclui, além dos temas que fizeram parte da primeira edição, registos das outras sessões que iriam dar origem mais tarde aos LP "Amália 1963" e "Amália for your delight". Há ainda vários extras, como ensaios, atuações em Monte Carlo e uma entrevista televisiva.

Nas nove canções originais de "Busto" - nome pelo qual o disco ficou conhecido, devido à imagem da capa - figuram os incontornáveis "Estranha forma de vida", "Povo que lavas no rio", "Maria Lisboa" ou "Madrugada de Alfama".

"A procura da perfeição" que a diva do fado e o inspirado criador musical buscavam fazia com que "só gravassem o que consideravam extraordinário", diz Frederico Santiago, relegando para segundo plano a quantidade do repertório. Por isso, para voltar à profícuas sessões com Oulman, Amália encurtava com frequência as digressões internacionais. O fruto dessa parceria pode até nem ter resultado num aumento adicional da sua popularidade, mas em compensação "trouxe a modernidade para o fado", sublinha Santiago.

Candidatura a "Memória do Mundo" aguarda aprovação da UNESCO

Com as gravações de Amália Rodrigues, Portugal apresentou pela primeira vez, através do Arquivo Nacional do Som, uma candidatura oficial ao programa "Memória do Mundo". A iniciativa é promovida pela UNESCO e visa reconhecer os projetos culturais de valor excecional para a Humanidade. Para o Ministério da Cultura, a candidatura "não só afirma a importância do fundo documental, como reforça, na prática, a visibilidade destes documentos". O parecer sobre a candidatura deverá ser conhecido no próximo ano.

Sérgio Almeida