Cultura

A difícil aventura de publicar fora do eixo Lisboa-Porto

A difícil aventura de publicar fora do eixo Lisboa-Porto Pedro Correia / Global Imagens / Arquivo

Editoras sediadas longe das duas principais cidades estão a conquistar leitores, apesar dos obstáculos que encontram.

A obra de José Régio e de Vitorino Nemésio está a ser reeditada pela Opera Omnia, de Guimarães: um inédito de Robert Musil e o volume que reúne a obra completa de Jim Morrison foram publicados por uma editora de Castro Verde (Grupo Narrativa); a Divergência, uma das duas editoras nacionais especializadas no género fantástico, é de Aveiro e já exporta livros para vários continentes.

Associadas à esfera local e regional durante muitos anos, as editoras sediadas fora do eixo Porto-Lisboa começam a ganhar um protagonismo inimaginável há menos de uma década, apesar de, segundo a Direção-Geral dos Livros, Arquivos e Bibliotecas, representarem apenas 19% do total.

"Hoje, com a logística adequada, a localização de uma editora tornou-se irrelevante", assegura Pedro Cipriano, da Divergência. Para a mudança em curso, "a pandemia veio ajudar", ao acelerar o peso do digital, com a possibilidade de reuniões virtuais quase imediatas em qualquer ponto do planeta.

Se, nos últimos anos, várias editoras fora do centro conquistaram a preferência de muitos leitores, há muito por fazer. "Ainda existe um preconceito", defende José Manuel Costa, da Opera Omnia, que aponta outras desvantagens a quem insiste em editar a partir de meios menos populosos, como "os custos superiores na altura de expedir livros" ou o "afastamento dos centros de decisão".

André Andraus, da Narrativa, socorre-se de um exemplo: "Quando uma editora de Lisboa publica um autor que mora nessa cidade está a publicar um autor nacional, mas se fizermos o mesmo já estamos a publicar um escritor local". Para o editor, o segredo passa por "aproveitar distrações da concorrência", chegando a autores que, de outro modo, seria difícil publicar, como Ana María Matute ou Kurt Vonnegut.

"Trabalhar melhor"

Mas a maior prova do quanto há por mudar é a de que quase todas estas editoras tiveram de abrir, a dada altura, uma representação em Lisboa ou no Porto. "Só nos começaram a levar a sério a partir desse momento", revela Pedro Cipriano.

Quem também seguiu essa prática foram as Edições Esgotadas, chancela de poesia, livros infantis e ensaios, que mantêm escritórios no Porto e em Aveiro, mesmo sendo a sede em Viseu. Para Teresa Adão, essa necessidade demonstra que "ainda existe relutância em reconhecer-se o nosso trabalho, embora estejamos a conseguir mudar isso". Além de as Edições Esgotadas publicarem poetas como Joaquim Pessoa, José Emílio-Nelson ou Amadeu Baptista, estabeleceram protocolos com instituições da capital para a publicação de teses científicas. "Não se trata só de trabalhar mais do que as editoras de Lisboa e Porto. Temos de trabalhar melhor se quisermos ter oportunidades", assevera.

A operar a partir da Figueira da Foz, apesar de ter também um espaço em Coimbra, a editora e livraria Bruaá é um nome familiar para quem acompanha a edição de livros para a infância. Reconhecimento à parte, Miguel Gouveia (sócio da editora, a par de Cláudia Lopes) admite que a "localização ainda pesa um pouco". Quanto mais não seja porque "há movimentos e proximidades nas grandes cidades que facilitam o trabalho de uma editora".

Um dos cinco maiores grupos editoriais portugueses, com um volume de negócios em 2021 que deverá atingir os dez milhões de euros, a Almedina continua a manter a base em Coimbra, cidade onde foi fundada, em 1955. "Numa perspetiva de negócio e de gestão de equipas, continua a fazer sentido estarmos em Coimbra", explica Rita Pinto, CEO da Almedina.

Apesar de, através da sua rede livreira, o grupo estar presente em mais cinco cidades (Lisboa, Porto, Almada, Gaia e Braga), é em Coimbra que permanece o grosso da estrutura, entre áreas administrativa, logística e lojas.

Para a responsável máxima do grupo que é líder na área jurídica e detém chancelas como as Edições 70, Atual ou Minotauro, a inexistência de outros projetos editoriais de cariz nacional nascidos fora do eixo Lisboa e Porto é de fácil explicação: "O negócio faz-se onde estão as pessoas, e estas estão concentradas nas grandes cidades. Para haver negócio é necessário estar no sítio certo à hora certa, e a probabilidade de isso acontecer é maior nas grandes cidades".

Sérgio Almeida