Desporto

Cromos do Mundial: "Os ingleses eram malandros e fomos atrás da conversa deles"

José Augusto ainda hoje tem o recorde português de golos de cabeça em Mundiais: três

Entrevista A carreira de José Augusto é um mimo. Entre outros feitos, estreia-se na 1.ª divisão aos 18 anos, é internacional A pelo Barreirense, ganha duas Taças dos Campeões, representa duas vezes a seleção do Mundo e ainda marca três golos, todos de cabeça, no Mundial-66.

Bom dia, é o José Augusto?

É o próprio, quem fala daí?

Rui Miguel Tovar, do JN, tudo bem?

Ò Rui, tudo bem?

Tudo impecável. Ligo-lhe para falar sobre o Mundial-66.

Grande época. Os ingleses foram malandros e nós fomos atrás da conversa deles.

Então?

Aquela meia-final era para ser em Liverpool e, de repente, mudaram para Londres. A FIFA pressionou a federação e ainda hoje acredito que a federação deixou-se levar, a troco de alguma compensação monetária. Até se diz que a sede da federação na Praça da Alegria foi comprada com esse dinheiro. E há outra: os jornalistas portugueses escreveram pouco sobre o assunto, não se manifestaram ruidosamente. Enfim, já lá vai.

E os jogadores manifestaram-se?

Achas? Não podíamos, outros tempos de autoridade. E mais, íamos jogar em Wembley. Estávamos era cheios de moral por entrar naquele estádio para uma meia-final do Mundial. E, para acabar o assunto, a viagem da véspera não fez mossa. Nem a mudança de hotel a meio da noite.

Hein?

Na véspera da meia-final, fomos obrigados a mudar de hotel porque os ingleses começaram a fazer barulho. É típico, ainda hoje vejo reportagens sobre essa táctica em decisões adiantadas de torneios internacionais, como a Libertadores. Só quero dizer isto: a Inglaterra ganhou-nos bem, jogou melhor e marcou mais golos. Ponto, não façam mais conversa.

Pronto, está bem. O José Augusto acaba o Mundial com três golos, todos de cabeça.

Era uma especialidade da casa, ahahahahah.

Julgava-o extremo puro e, afinal, é avançado-centro.

Na verdade, comecei à baliza nos juniores do Barreirense. Num treino, fui para a frente e marquei nove golos. Olha, nunca mais saí. Era o número 9, avançado-centro.

Desses nove golos, quantos de cabeça?

Ahahahah, não me lembro. Sei é que tinha um bom poder de impulsão pelo meu passado de basquetebolista.

Hein, basquetebol?!

Joguei basquetebol nos juniores do Barreirense.

Juniores, outra vez?

Antigamente, éramos multidesportivos. Treinava basquetebol à segunda e sexta, o futebol era à terça e quinta.

E os jogos?

Aos sábados, o basquetebol. Aos domingos, o futebol.

Grande movida. Conte-me lá o porquê do basquetebol.

O meu pai jogou no Barreirense, chamava-se Alexandre de Almeida e jogava na mesma equipa de Armando Ferreira, Pireza e Francisco Moreira.

Espectáculo.

Mesmo, eles davam espectáculo. Era uma equipa completa. Quando o meu pai morreu, tinha eu 13/14 anos. Como filho único, tive de começar a trabalhar para sustentar a casa. Quando chegou a hora da decisão entre basquetebol e futebol, optei pelo futebol.

Divinal. Quantos pontos marcava em média?

Entre 10 a 15.

E jogava a quê?

Extremo.

Fazia triplos?

Triplos? Ahahahahah. Joguei numa época em que só havia um e dois pontos. E, já agora, não havia pavilhão. Jogávamos ao ar livre, com vento e chuva.

Que maravilha. E o tal poder de impulsão?

Nos meses em que joguei à baliza, ganhei experiência no tempo de salto. Ou seja, já sabia todas as manhas para chegar primeiro à bola à custa de muitos cálculos. Isso deu-me naturalmente mais bagagem para o basquetebol. E, depois, para o futebol. Daí os golos de cabeça. Já agora, ò Rui, marquei a quem de cabeça nesse Mundial?

Dois à Hungria, na fase de grupos, e o definitivo 5-3 vs. Coreia do Norte, nos ¼ final.

E o Brasil?

Foram dois de cabeça, sim, um do Simões e outro do Eusébio.

A sério? Estranho.

Então?

Tenho a certeza de um golo meu ao Brasil. (fala por alto e, de repente) Já me lembro, o meu golo de cabeça ao Brasil é no Jamor, antes desse Mundial. Deve ter sido em 1962 ou 1963, lembro-me que o Brasil tinha sido bicampeão mundial há pouco tempo. Ganhámos 1-0.

Boa memória.

Ainda hoje levo o golo na cabeça. Cruzamento do Yáuca da direita e eu cabeceei virado para a baliza da praça da Maratona. Nessa tarde, joguei a avançado-centro. Fui o número 9 e quis trocar de camisola com o Pelé. Quando cheguei ao pé dele, já o Eusébio estava a fazer pressão.

E então?

Fiquei com o meu número 9 na mão. Ainda tenho essa camisola aqui em casa. É uma branca. Nessa tarde, jogámos com camisola branca e calções azuis. Só dias depois desse 1-0 no Jamor é que li uma notícia fascinante: o Brasil fizera 17 jogos particulares em dois meses e o Pelé disse que o melhor jogador adversário dessa digressão tinha sido o José Augusto.

Que sonho.

Desde sempre, o meu maior sonho era jogar no Barreirense. Aliás, o meu sonho era entrar em campo com a camisola do Barreirense e as pessoas dizerem "olha, ali vai o filho do Alexandre de Almeida".

Rui Miguel Tovar, jornalista