António Tavares

Wiriyamu

Ao longo da história dos povos acontecem sempre muitas coisas que envergonham os seus contemporâneos, bem como as gerações futuras. Existem situações que devem ser vistas com os olhos dos tempos e não procurar adaptá-las ou avaliá-las à luz da atualidade. Portugal começa agora a ter o distanciamento e a lucidez suficientes para olhar para alguns desses momentos e poder fazer a sua análise de arrependimento. Essa só depende do espírito dos nossos dirigentes e da capacidade de nos distanciarmos dos eventos para se poder ter uma perspetiva mais consentânea com os acontecimentos.

Tudo isto aparece a propósito massacre de Wiriyamu, em Moçambique, no ano de 1972, e o pedido de perdão que as três mais altas figuras do Estado português tiveram oportunidade de fazer nos 50 anos desse nefasto e trágico acontecimento. Infelizmente, na nossa história, não foi um caso único. Batepá, em São Tomé e Príncipe em 1953, ou em Pindjiguiti, na Guiné-Bissau em 1959, são outros momentos tristes dessa história ultramarina. Andou bem o presidente Marcelo Rebelo de Sousa ao começar a reconciliar a imagem de Portugal. Ele que conheceu bem a realidade moçambicana já que o seu pai foi governador-geral da província.

Os povos precisam desses safanões para se reconciliarem consigo mesmo. Foi isso que o chanceler Willy Brandt fez, em nome da Alemanha Federal, quando, em Auschwitz, se ajoelhou e pediu perdão. Não podemos ter vergonha de recusarmos o que soldados e oficiais portugueses fizeram naquele dia. Essas não eram as Forças Armadas portuguesas que viriam a fazer o 25 de Abril.

Está, pois, na hora de Portugal começar a fazer o balanço dessa parte da sua história que o processo apressado da descolonização impediu.

Olhar para essa nódoa que são os massacres de civis indefesos e dizer perdão.

Mas também olhar para todos aqueles que sendo africanos optaram por servir nas fileiras portuguesas, nas três frentes de guerra, e não foram por nós reconhecidos sendo o seu destino, muitas vezes, também triste.

Nada, mas mesmo nada, justificou a guerra do Ultramar. Fruto da Guerra Fria não foi sequer compreendida pelos nossos aliados. A política do orgulhosamente só foi o corolário lógico daqueles que acreditavam num único império. Na ressaca deste acontecimento, Marcelo Caetano chamou Kaúlza de Arriaga à metrópole. Este veio e quis conspirar. Felizmente a história estava atenta.

A nostalgia desse passado, encarnada por pessoas que nunca o viveram, não faz sentido. O que fará sentido é perceber que os desafios da história podem e devem ser oportunidades de futuro para Portugal. Afinal, estamos no século XXI.

Professor universitário de Ciência Política

António Tavares