Cultura

Leftfield: música para vencer tumores

Os Leftfield são Neil Barnes (esquerda) e Paul Daley D.R.

"This what we do" é o regresso do duo londrino à eletrónica que se dança e se ouve devagar.

Um dos mais influentes nomes da música de dança, inventor do house progressivo no início da década de 1990, está de regresso aos discos sete anos depois do último lançamento. "This is what we do", dos Leftfield, é eletrónica sábia e refinada - e é peça urgente: "Tenho de fazer isto agora, porque não sei se duro muito", disse Neil Barnes, uma das metades fundadoras do grupo, quando descobriu que tinha cancro.

Surgidos em Londres, em 1989, os Leftfield integram a vaga que resgatou o house da esterilidade comercial, inserindo-lhe elementos de reggae, dub e das novas alquimias europeias que reinventavam o género criado em Chicago, nos EUA. Perfilam-se ao lado de músicos que criavam para duas vias: a da pista de dança e a do conforto do lar; som que apelava ao movimento e à fruição vagarosa, como foi o caso de discos de Coldcut, Laurent Garnier ou Masters at Work.

Estrearam-se com "Leftism", em 1995, cujo tema mais destacado, "Open up", tinha a participação de Jonh Lydon. E foram convidando sondas de outras galáxias para expandir o seu universo, como os TV On The Radio, os Sleaford Mods ou Poliça. Em 2013, o duo original, Neil Barnes e Paul Daley, separou-se e a produção futura foi repartida com Adam Wren.

Em banho-maria desde 2015, o projeto foi reativado pela urgência de Barnes, que no momento dos exames que lhe trouxeram as más novas não se esqueceu do seu lugar no Mundo: "Fazer uma colonoscopia foi como estar num clube noturno". Batalha vencida contra o cancro, "This is what we do" é a festa de celebração. Onze faixas otimistas, aliviadas, afirmativas, dançantes.

Tal como nos trabalhos anteriores, há colaborações ilustres: Grian Chatten, dos Fountains DC, descreveu uma viagem de táxi alucinada em "Full way round"; e o jamaicano Earl Sixteen devolve a amplitude musical de "Leftism" em "Rapture 16". Ourivesaria eletrónica que não inventa joias inauditas, mas dá consistência a materiais que pulsam na pista e flutuam na sala de estar. E que celebram a vida - quando ela mais nos foge.

Ricardo Jorge Fonseca