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Ponte Sophia

Quando ouvi falar pela primeira vez sobre a nova ponte sobre o Douro, no Porto, entre a Arrábida e o Campo Alegre, pensei imediatamente que havia de chamar-se Sophia. Ponte Sophia. Na minha cabeça seria o nome mais óbvio, mais justo, mais certeiro.

Sophia de Mello Breyner Andresen é uma das maiores poetas da língua portuguesa e, indiscutivelmente, uma das mais ilustres portuenses de sempre. O seu prestígio é, aliás, tão consensual que tem lugar no Panteão Nacional. E ao contrário de outros portuenses que ascenderam ao Panteão (como o Infante Dom Henrique, ou Almeida Garrett) Sophia não teve ainda uma homenagem à altura na nossa toponímia.

Mais sentido faria dar o seu nome à ponte, pelo facto da sua casa de família ser precisamente no Campo Alegre, na atual Galeria da Biodiversidade, bem perto do ponto onde começará a nova travessia sobre o rio. Além de que, pela sua relação com a praia da Granja, lugar sagrado e ancoradouro de muitos dos seus poemas, a ideia de travessia para sul, sobre o rio para chegar ao mar, tem muito a ver com a geografia emocional a partir da qual foi desenvolvendo a sua escrita.

Para além da sua relação com a cidade e da sua grande notoriedade, Sophia é uma figura contemporânea e transgeracional, por ter uma presença ainda muito forte no nosso panorama cultural, e por ter escrito também para as crianças, tendo grande destaque nos currículos escolares para várias idades. Mais se acrescenta o seu importante papel como defensora da liberdade e não apenas como intelectual, escritora ou artista. Era uma mulher comprometida com o seu país, com a luta pela democracia, movida por valores humanistas e com grande firmeza moral. Sendo que, num tempo em que era dada tão pouca liberdade às mulheres, foi um exemplo de liberdade de pensamento e uma enorme referência.

Foi, portanto, com grande desilusão que consultei a lista dos nomes escolhidos pelo painel de especialistas (agora em votação pública). Achei-os na sua maioria bastante genéricos. Uma Ponte Douro sobre o Douro soa redundante. Os nomes Boa Passagem e Boa Viagem (apesar das explicações) acabam por soar idênticos. Percebo a indicação da Ferreirinha (que acho apropriada), mas confesso que, não havendo ainda a ponte Edgar Cardoso (que deveria ser a da Arrábida ou a São João), o nome do eng.o Joaquim Sarmento, tendo todo o mérito, não seria uma prioridade (sendo inclusivamente um nome desconhecido para a maioria dos portuenses). E quero assinalar também que, em pleno 2023, ter uma comissão de seleção composta por cinco homens (ainda que de muito prestígio), é sinal de pouca diversidade, pouca representatividade e algum enquistamento numa velha noção de expertise, em que os sábios são sempre homens grisalhos. Ora, sendo esta também uma ponte para o futuro, mais rasgo teria sido bom.

*Música

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