Catarina Carvalho

Passadeira vermelha para o rei dos gnomos

Passei esta semana arrepiada com a história de Francisco Leitão. Deixem-me que lhe chame assim, com a seriedade que não tem a expressão que se convencionou nos média para o rei dos gnomos. Não tenho nada contra o uso da alcunha, o jornalismo deve aproximar-se do leitor. Francisco Leitão, ninguém sabe quem é (até eu tive que "googlar" o nome para me lembrar do apelido), rei dos gnomos já é um denominador comum. Mas não me apetece fazer-lhe essa homenagem.

Até porque esta crónica não é exactamente sobre Francisco Leitão. Ele, psicopata ou não, não me tira o sono. Não são três homicídios que chocam quem trabalha em jornais. Já o que aconteceu à sua volta surpreendeu-me. E diz muito sobre nós, e o mundo em que vivemos.

Quem vê filmes, ou séries policiais, sabe que num crime se conjugam sempre coincidências tristes. Mas, pelo menos no CSI (para citar um exemplo até bastante básico), costumam ter mais categoria do que as que permitiram a Francisco Leitão matar duas pessoas, escapar durante dois anos, ludibriar dezenas de jovens, matar uma terceira pessoa, e seguir impune até agora.

Admito que ninguém, entre os vizinhos, "sinalizasse" um maluco como um perigo apenas porque ele usava gnomos de sucata para enfeitar a casa. Talvez isso não passasse em claro a um psiquiatra, mas Francisco teve a sorte de não ter um psiquiatra por vizinho. Aliás, Francisco teve a sorte de ter por vizinha a gente menos curiosa que já vi - e a curiosidade costuma variar em inversa proporção do tamanho da terra, sendo que Carqueja tem umas dezenas de habitantes.

Nenhum daqueles espíritos tentou perceber o que é que um homem de 41 anos, sem profissão certa, andava a fazer de carro para cá e para lá com um monte de adolescentes, levando-os para a casa dele e gravando vídeos assustadores e outros sexuais, com rapazes da terra. Na era da pedofilia, e num tempo pós-Casa Pia, isto não parece ter feito levantar sequer um sobrolho.

Não houve, entre os pais dos jovens com quem Francisco se passeava pelas discotecas, um único que lhe pedisse explicações. Não era preciso uma tareia, apenas uma pergunta para ele sentir aquilo a que em sociologia se chama "pressão social". E que o levaria, talvez, a não pôr o pé em ramo verde.

Normalmente, os criminosos são pessoas bem vistas pelas suas vizinhanças, isso vem nos livros. Mas também nunca cometem crimes perto de casa, porque receiam a consciência social das terras pequenas. Francisco não teve esse pudor. Encontrou vizinhos que viraram a cara para o lado, súbitos adeptos do relativismo social mais comummente conhecido por "não-tou-para-me-chatear". E aproveitou.

Estamos num quadro de miséria, social e humana, quando desaparecem dois dos jovens mais próximos de Francisco Leitão, numa terra minúscula, e ninguém faz nada para os encontrar. Os pais ficam-se por uns SMS estranhos enviados dos telemóveis dos filhos. Ludibriados pela sua própria esperança de que não lhes tivesse acontecido nada de mal, mas também paralisados por essa estranha modorra que os impediu de tomar uma atitude.

E os outros jovens que acompanhavam Francisco e conheciam bem o casal que desaparecera há dois anos e a menina de há seis meses? Nunca recearam? Ou viviam uma vida tão triste que tornava idílica a visão de ir trabalhar numa sucata para Espanha - a história que ele lhes terá contado sobre Tânia e Ivo?

A impunidade foi de tal modo que, dois anos depois, Francisco matou outra vez. E ele próprio, fiado na facilidade com que sempre actuara, cometeu o clássico erro do criminoso, acabando por ser o seu principal inimigo: mentiu à Polícia.

O que surpreende nesta história não são os impulsos de Francisco, um banal criminoso. O que surpreende é a facilidade com que ele os pôs em prática. Fosse ele um serial killer, alguém com uma lógica criminal e uma estratégia, e o resultado seria devastador. Psicopata? Psicopata somos todos nós, os outros, as famílias que se ficaram, os vizinhos que não quiseram saber, os amigos que aceitaram tudo.

CATARINA CARVALHO