Sociedade

O fascínio patológico pelo fogo não motiva os incendiários portugueses

A piromania ou fascínio patológico e incontrolável pelo fogo não é a característica dominante entre os incendiários de fogos florestais portugueses.

"O prazer de ver uma floresta a arder não é a principal motivação dos incendiários referenciados em Portugal. Não detectámos nenhuma situação cujo motivo fosse o prazer de ver o fogo", disse a psicóloga Cristina Soeiro, ouvido pela Lusa.

"É uma perturbação muito pouco frequente, porque se a pessoa for alcoólica ou tiver uma história clínica já não pode ser considerada pirómana", acrescentou.

O estudo está a ser desenvolvido desde 1997 por uma equipa de psicólogos da Escola de Polícia Judiciária e tem como amostra 234 incendiários referenciados, servindo de base de trabalho aos investigadores.

Um dos perfis que tem chamado particular atenção aos psicólogos, apesar de pouco representativo, envolve pessoas que não têm nenhuma perturbação mental, nem cognitiva, mas que apresentam alguma atracção pelo fogo, pela destruição.

Nesta categoria, a maioria dos incendiários são homens menores de 20 anos ou entre os 36 e os 45 e consumidores de álcool.

Há mais de uma década a estudar os perfis dos incendiários, Cristina Soeiro não registou grandes alterações com o passar dos anos.

"Os dois perfis mais frequentes dos incendiários mostram que estes ateiam fogos por vingança ou por problemas dentro das comunidades rurais ou semi-rurais, ou devido a problemas clínicos, como a demência alcoólica ou défice cognitivo", explicou.

Contudo, para a psicóloga "o problema dos incêndios florestais em Portugal não se resume ao fogo posto".

Segundo as estatísticas, apenas 18,5% dos incêndios florestais são ateados de forma intencional (a maioria é por negligência).

“A maior parte dos incêndios em floresta e a sua extensão não se explica pelos incendiários nem pelo fogo posto. É por mau planeamento, má prevenção e falta de limpeza das matas", defendeu.

A Polícia Judiciária já deteve este ano 26 suspeitos de fogo posto, dos quais 11 estão em prisão preventiva.

Redação