Criação do coletivo Silentparty, "Um quarto só para si" coloca em causa a normatividade da arquitetura e convida o público a subir ao palco, se for capaz. Para ver esta sexta à noite no Centro Cultural Vila Flor, no âmbito dos Festivais Gil Vicente
Os Festivais Gil Vicente, em Guimarães, prosseguem, esta noite, com o coletivo "Silentparty" a tomar conta do pequeno auditório do Centro Cultural Vila Flor (CCVF) para questionar e subverter os lugares que a arquitetura nos permite ou nos impede de ocupar. O espetáculo "Um Quarto Só Para Si" é todo ele formatado como uma pergunta: como fazer um esboço de um edifício que permita a emancipação permanente dos corpos que o habitam, enquanto lhes devolve a possibilidade de uma existência em conjunto? O coletivo - Emanuel Santos, Mafalda Banquart, Tiago Araújo, Tiago Jácome - admite que não tem resposta.
A peça, em estreia absoluta no festival vimaranense, foi vencedora do projeto CASA, lançado pelo Espaço do Tempo, em Montemor-o-Novo, pelo Cineteatro Louletano e pelo Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães. "Uma grande ajuda, até porque o espetáculo é construído em diálogo com os espaços onde acontece e essa relação precisa de tempo", esclarece Tiago Araújo. Logo numa das primeiras cenas, é instalada uma tela no palco onde são projetadas imagens com a câmara à mão (telemóvel à mão) feitas por alguém que percorre os corredores do CCVF. A câmara detém-se na porta das casas de banho, para sobrepor "WC" à sinalética de masculino e feminino.
A apresentação do coletivo feita no feminino e depois esta primeira cena parecem colocar a questão do género, na sua relação com a arquitetura, em primeiro plano. Mafalda Banquart concorda que "as biografias e as identidades de género de cada um dos protagonistas são convocadas e têm importância no trabalho, mas vai além disso".
"Há uma quinta protagonista deste espetáculo, uma pessoa LGP [um surdo que se comunica em linguagem gestual portuguesa]", aponta Tiago Jácome. Esta participação levanta a questão das possibilidades da tradução e o próprio coletivo assume a sua limitação, "não nos foi possível ter o texto pronto a tempo de termos audiodescrição", confessa Emanuel Santos.
Num trabalho que procura romper com a habitual barreira entre a plateia e o palco, a própria forma como o auditório foi construído é posta em causa. "É sempre preciso vencer três degraus para chegar aqui acima", refere Mafalda Banquart. A certa altura, o público é convidado a subir ao palco e, contudo, não existe uma rampa, "uma pessoa cadeirante [em cadeira de rodas] não poderia subir", aponta a atriz que também assina a criação em conjunto com os outros três elementos do coletivo. "E esta sala não foi construída há muitos anos", acrescenta Emanuel Santos.
O coletivo reconhece que este espetáculo, que se reconstrói para cada sala em que se apresenta, desencadeia um diálogo com as próprias estruturas dos teatros. Foi isso que aconteceu com A Oficina. "Verificou-se que, mesmo que se construísse uma rampa, a pessoa em cadeira de rodas teria de ser sempre ajudada, em virtude da inclinação", explica Emanuel Santos. Porém, "nós não temos soluções", avisa Tiago Araújo. O objetivo de "Um Quarto Só Para Si" é questionar a normatividade da arquitetura e levantar a possibilidade de fazer adaptações a cada individualidade.
O pano para este espetáculo sobe às 21.30 e os bilhetes (7,5 euros ou 5 com desconto) podem ser adquiridos online ou nos espaços da Oficina, em Guimarães. Depois do espetáculo, o público é convidado para uma conversa com os "Silentparty", no foyer do auditório.