Os fenómenos de xenofobia, perseguição de minorias, 'pogroms' e outras barbaridades estão sempre associados a períodos de forte crise económica, uma espécie de «casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão» à dimensão nacional. Havendo carência económica preocupante e existindo uma minoria a quem possam lançar-se culpas, por mais disparatadas que sejam - aí vêm a xenofobia, a perseguição, a violência.
Esta é, pelo menos, uma convicção muito generalizada. No entanto, de alguma observação histórica que fiz, não chego à mesma conclusão. A forte crise económica e a minoria «perseguível» são como um archote aceso perto de uma meda de feno: situação perigosa, potencialmente catastrófica - mas não são o incêndio. É preciso alguma coisa que faça chegar o fogo à palha e essa é o discurso político ou a iniciativa de quem tem poder.
Não há combustão espontânea: a história exibe-nos numerosos casos de fortes crises económicas e perigosíssimos enervamentos étnicos, sem daí ter resultado conflito. Mas se no epicentro dessa tensão se erguer uma voz poderosa a incitar «vamos a eles!» a única dúvida que resta é saber quando e como vai parar a chacina.
Porque é que isto acontece? Porque a voz «autorizada» conferiu a dignidade do poder à ideia crassa que já remoinhava nas cabeças e nos resmungos nos bazares e tabernas. O discurso foi «popular», com a implacável consequência tirada por Oscar Wilde: «Para se ser popular é preciso ser-se uma mediocridade.»
Ninguém tem dúvidas da popularidade da perseguição aos ciganos romenos, decretada por Nicolas Sarkozy. Ciganos romenos, quem os quer? Nem os romenos, a bem dizer! Quem tem uma boa memória de um encontro com um cigano romeno? Enxotem-nos, que não fazem cá falta nenhuma, bando de madraços e gatunos!
O problema é que Sarkozy cinzelou na pedra um temível decreto: «Vão para a vossa terra!» Com isso, abriu as portas à vigilância espontânea de «cidadãos», de varapau e perro, em esperas singulares a ciganos e seus aparentados - e se vai ser fácil agora, com o respaldo do governo, organizar milícias «justiceiras» por essa França fora! E, quem diz ciganos, diz árabes, diz turcos, diz negros - quem os pára? Pois não foram as autoridades a mencionar uma etnia a ser colocada sob suspeita?
Nem tudo está perdido, quando um oficial da GNR diz não ser admissível, em Portugal, uma iniciativa como a de Sarkozy. Pobre França, que com tanto carinho lhe acolheu antepassados da Hungria, um país muito espalhado de ciganos talentosos…